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A CANA DE AÇÚCAR
Após concluir o curso de Direito na Universidade de Bruxelas, na Bélgica, em 1835, João José de Bittencourt Calasans retornou a Sergipe, assumiu o comando do engenho Castelo, propriedade da sua famÃlia. Ali começou a estudar agronomia por conta própria, lendo os principais autores então existentes, com o objetivo de introduzir na sua propriedade arados, implementos agrÃcolas e algumas máquinas movidas a vapor. O seu interesse o levou a uma viagem de a Cuba e aos Estados Unidos da América em 1857, durante a qual buscou aperfeiçoamento em estudos a respeito dos melhores sistemas de cultura da cana e do fabrico do açúcar. Nesta viagem, demorou-se por mais tempo na Louisiana, no sul dos Estados Unidos, onde se considerava que a agricultura era mais avançada, com um maior grau de incorporação de tecnologia, tanto no plantio da cana quanto na produção de açúcar. Talvez por esta razão e pelo livro que publicou (O agricultor sergipano da cana de açúcar, primeiro livro sobre Agronomia produzido em Sergipe, que começou a circular em 1869) apareça como engenheiro agrônomo na “Relação dos cidadãos que têm governado a ProvÃncia de Sergipe, desmembrada da BaÃa por Decreto de 8 de Julho de 1820, desde a instalação até 1889â€. Bittencourt governou a ProvÃncia de Sergipe durante dois dias, em 1845. Além disso, recebeu o tÃtulo de Comendador da Ordem de Cristo, por haver hospedado o Imperador Pedro II em sua residência, na cidade de Estância, no ano de 1860. Membro de algumas sociedades cientÃficas do século XIX, ele também foi dirigente do Imperial Instituto Sergipano de Agricultura.
O livro que publicou está organizado em quatro capÃtulos, uma introdução e um resumo final à guisa de conclusão. Impresso na Bahia pela tipografia de Camillo de Lellis Masson & Companhia, o livro continha 98 páginas no formato 11 X 21,5 cm. Ainda no prólogo, o autor esclarece que ao assumir a direção do engenho Castelo estava despreparado para a missão e corria o risco de levar o empreendimento à bancarrota. Esta teria sido a razão determinante para que houvesse se lançado ao estudo dos clássicos da Agronomia e buscasse viajar ao exterior, a fim de estudar e conhecer as técnicas de plantio da cana e de fabricação do açúcar, além de adquirir a bibliografia mais atualizada. Revela também que a partir dos estudos realizados estabeleceu um método que consistia em testar as informações que as suas fontes lhe apresentavam. O passo seguinte foi o de organizar a exposição presente no texto: “Procurei ajustar as frases e as palavras do Agricultor Sergipano à s inteligências de grande parte dos plantadores da cana de açúcar, e julgo ter feito alguma coisa no estado em que nos achamos, baldos até hoje de um livro prático, neste gênero, que seja mais aplicado aos nossos usos e costumes, e ao nosso clima, como este, escrito em linguagem corrente, abrangendo todas as operações e trabalhos do plantio da cana e do fabrico do seu açúcar, aà descritos minuciosamente†(p. VI).
O livro de Bittencourt Calasans se inicia com o que o autor denominou de “Parte Históricaâ€. Ali aparecem as origens das práticas agrÃcolas, numa discussão que remete aos egÃpicios, aos gregos, aos romanos, aos chineses e aos persas, antes de chegar ao Brasil. Também faz uma exposição sobre a cana de açúcar, suas origens e suas espécies, revelando que a primeira espécie de cana aqui introduzida foi a Caiana, no Rio de Janeiro, em 1570, por Mem de Sá. Posteriormente, o marquês de Barbacena mandou buscar na Jamaica as espécies Malabar e Batávia. Diz que desde o século XIII a planta é conhecida na Arábia, tendo daà se expandido para a SÃria, Chipre, Turquia e SicÃlia. Depois, foi levada pelos portugueses desde a SicÃlia até as ilhas da Madeira, de Porto Santo e São Tomé. Os espanhóis a trouxeram para a América, plantando-a em São Domingos, a partir de 1506.
O autor produz um diagnóstico do plantio da cana e do fabrico do açúcar no paÃs, identificando um completo atraso nas suas técnicas, defendendo a necessidade da difusão dos saberes da ciência agronômica no Brasil. Para ele, uma das primeiras necessidades era a da substituição da cana Caiana pelas espécies Salangor e Transparente. A espécie Salangor, entendia Calasans, produzia um caldo abundante, doce e fácil de clarificar, resultando num açúcar alvo e de boa granulação. Do mesmo modo, a cana Transparente que, ademais, tinha a facilidade de crescer também em terrenos arenosos e fracos. Sugere também o plantio da cana China, por ser dura e resistente à seca, induzindo que ela deveria ser plantada ao redor dos canaviais.
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h08
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ESTUDANDO HISTÓRIA DA CIÊNCIA
A pesquisa cientÃfica em Sergipe recebeu uma contribuição importante depois que, em 1999, foi criada a Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe – FAP. A partir do ano de 2002 a instituição destinou recursos públicos constitucionalmente assegurados ao financiamento da pesquisa cientÃfica e tecnológica. A ação da FAP e o crescimento das práticas de pesquisa nas instituições de ensino superior de Sergipe têm levado a alguns pesquisadores de História interrogações a respeito do processo de formação do campo da ciência em Sergipe.
É evidente que o caso da história da ciência e das suas práticas neste Estado requer que sejam identificadas as diversas fontes, a memória existente, forma prática de oferecer as bases empÃricas para a organização de um campo cientÃfico: o da História. A história é, por assim dizer, a forma cientÃfica de organização da memória. Esta, por ser fruto de uma escolha efetuada pela ação temporal das configurações humanas, se apresenta sob a condição de monumento. Ou, quando tomada pelos historiadores, submetida ao trabalho destes, caracterizada como documento. As contribuições memorialÃsticas são sempre bem vindas. Principalmente, quando bem ordenadas e expostas de um modo que vai além dos limites da própria memória.
Conhecer os problemas referentes à história da pesquisa e do ensino da ciência e da tecnologia em Sergipe requer o reconhecimento de um universo ainda fechado, escondido. Porém, são abundantes as fontes para o estudo a respeito do assunto. Os indÃcios constituem um conjunto informativo seguro o suficiente para a produção de análises historiográficas.
Estudar a história da formação do campo cientÃfico no Brasil, de modo a oferecer maior clareza à constituição do conhecimento histórico quanto a esta questão é, no dizer da pesquisadora Marta Maria Chagas de Carvalho, analisar as práticas adotadas para “civilizar bárbaros, desinfetar corpos, extirpar vÃcios, lapidar sentimentos, apurar sensibilidades, moldar gestos e implantar hábitos de civilidadeâ€.
O problema que requer maior atenção nesse tipo de estudo entre nós diz respeito ao conjunto de representações sobre a história do Brasil disseminadas a partir do movimento republicano. Dentre as idéias difundidas está presente uma quase consensual certeza de que a polÃtica cultural e cientÃfica brasileira é obra exclusiva do republicanismo, desfocando assim as discussões a respeito do problema. É evidente que o Estado republicano efetuou transformações no discurso a respeito do ensino e da pesquisa cientÃfica, porém não se pode afirmar que tais preocupações e concepções eram novas na sociedade brasileira. Há evidências segundo as quais o processo de difusão das ciências que ocorreu no Brasil a partir do século XIX fez com que se expandisse não apenas a quantidade de escolas superiores, mas também redes de instituições cientÃficas.
Alguns estudos revelam que também é possÃvel estudar a constituição do campo da ciência e da tecnologia em Sergipe a partir do século XIX, considerando-se que o território somente foi desmembrado da Capitania da Bahia, em 1820, quando então foi criada a Capitania de Sergipe D’El Rey.
Não obstante os esforços que têm sido feitos para desenvolver os campos de estudo acerca da história da ciência e da tecnologia em Sergipe, ainda é necessário reunir e organizar muitas fontes necessárias ao desenvolvimento da pesquisa histórica e o estabelecimento de linhas de pesquisa no Departamento de História e no curso de Mestrado em Educação da UFS que se debrucem sobre as temáticas próprias a este campo. A tendência modernizadora no trato com a informação, apesar de permitir a dinamização do acesso aos dados, tem imposto uma rotina de descarte documental descontrolado que leva, na maioria dos casos, ao apagamento irreversÃvel da memória de grupos e instituições.
É necessário cobrar procedimentos metodológicos adequados. A pesquisa deve fugir da visão salvÃfica presente no discurso dos memorialistas. O material existente nos arquivos das instituições dedicadas à pesquisa cientÃfica e nos acervos dos arquivos históricos é múltiplo, originado de distintas fontes e inclui utensÃlios e equipamentos utilizados nos laboratórios cientÃficos e tecnológicos de Sergipe e também documentação impressa, áudio-visual e imagética com significativo valor para a memória e a história da ciência e da tecnologia no Estado. É necessário explorar essa massa documental com pesquisas que tenham como fulcro de análise os processos de produção e transmissão do conhecimento cientÃfico e tecnológico.
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h05
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O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E A CONSOLIDAÇÃO DO CAMPO CIENTÃFICO DA ECONOMIA EM SERGIPE (V)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo de organização do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Sergipe e as circunstâncias produzidas em torno dele foi muito importante para a legitimação do campo cientÃfico da Economia em Sergipe. O Condese deu visibilidade ao trabalho dos profissionais formados pela Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe. A liderança do economista José AloÃsio de Campos cimentou o trabalho dos economistas em torno do projeto desenvolvimentista sergipano. Os economistas foram reconhecidos socialmente em nome da lucidez cientÃfica que representavam, de modo anódino, distante das paixões próprias à vida polÃtica.
BIBLIOGRAFIA
A Cruzada. Aracaju, janeiro a dezembro de 1959.
ALMEIDA, Maria da Glória Santana de. Sergipe: fundamentos de uma economia dependente. Petrópolis, Vozes, 1984.
BARRETO, DÃlson Menezes. A construção do desenvolvimento de Sergipe e o papel do Condese. (Dissertação – Mestrado em Sociologia). São Cristóvão, Universidade Federal de Sergipe, 2003.
CARVALHO, José Onias de. Memórias de um matuto sertanejo. S/ed., Recife, 1983.
CRUZ, José. “O Condese e o planejamento da economia sergipanaâ€. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, nº. 26, vol. XXI, 1961.
DANTAS, José Ibarê Costa. Os partidos polÃticos em Sergipe. (1889-1964). Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989.
. Coronelismo e dominação. Aracaju, Diplomata, 1987.
. O tenentismo em Sergipe. 2ª. Ed. Aracaju, Gráfica J. Andrade, 1999.
DANTAS, Orlando. PolÃtica de desenvolvimento econômico de Sergipe. Aracaju, Gazeta, 1974.
LEITE, José Rollemberg. Uma polÃtica de desenvolvimento para o Estado de Sergipe. Aracaju, Condese, 1976.
LEITE, Júlio. Sudene: dez anos. S/ed., BrasÃlia, 1970.
NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. A intervenção da Sudene na polÃtica educacional do Estado de Sergipe (1959-1963). (Dissertação – Mestrado em Educação). São Paulo, PontifÃcia Universidade Católica, 1991.
ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ãtica, 1983.
RODRIGUES, Marly. A década de 50: populismo e metas desenvolvimentistas no Brasil. São Paulo, Ãtica, 1992.
SANTANA, Neide. A inserção do Estado de Sergipe na polÃtica de incentivos fiscais do Nordeste: 1963-1988. (Monografia). Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, 1991.
WYNNE, J. Pires. História de Sergipe (1930-1972). Rio de Janeiro, Editora Pongetti, 1973.
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 03h30
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SOBRE O BLOG EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
Este blog tem a pretensão de ser uma espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos científicos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase aos estudos sobre História da Educação e História da Ciência. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe.
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 16h34
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O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E A CONSOLIDAÇÃO DO CAMPO CIENTÍFICO DA ECONOMIA EM SERGIPE (IV)
Um dos maiores méritos do Condese sob a liderança de José Aloísio de Campos foi a capacidade de articular uma intelectualidade capaz de articular o conhecimento teórico com as necessidades práticas de desenvolvimento do Estado. Um grupo de técnicos consciente da sua capacidade científica e que se apresentava à sociedade como portador de uma racionalidade que o distanciava das paixões políticas. Assim, o campo profissional dos economistas adquire grande autonomia e se apropria da capacidade de tomar decisões quanto ao desenvolvimento do Estado. A nova elite intelectual que eles encarnavam elaborou planos de governo e planos setoriais, organizou um sistema articulado de pesquisas e estatísticas para todo o Estado, patrocinou a reforma administrativa de Sergipe, tudo com vistas a conceber um grande projeto de desenvolvimento.
(continua).
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 16h32
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O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E A CONSOLIDAÇÃO DO CAMPO CIENTÍFICO DA ECONOMIA EM SERGIPE (III)
O mesmo Pierre Bourdieu afirma que o campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial (ORTIZ, 1983: 122). A resistência aos economistas do Condese se explicitou durante o governo de João de Seixas Dória (1963-1964), sob a liderança dos advogados Francisco Rosa Santos, José Rosa de Oliveira Neto e Ariosvaldo Figueiredo e do jornalista Orlando Dantas, todos do Partido Socialista. Este grupo exercia muita influência junto ao governador Seixas Dória e buscava neutralizar a força do Condese e dos economistas liderados por José Aloísio de Campos (BARRETO, 2003: 93). Para a constituição do campo profissional dos economistas em Sergipe, portanto, foram da maior importância os papéis que desempenharam a CEPAL, a Sudene e o Condese, além do quadro institucional criado com o golpe militar de 1964. Mas, também houve necessidade da articulação interna dos grupos da elite intelectual que empunharam a bandeira da ciência econômica. Da mesma forma que o economista Celso Furtado foi o grande patrono do desenvolvimento brasileiro e nordestino, em Sergipe, este patrocÃínio ficou a cargo do economista José Aloísio de Campos que, ao assumir tal bandeira, foi uma liderança importante no processo de luta pela constituiÃo do campo e legitimação profissional. AloÃsio de Campos nasceu em Sergipe, na cidade de Frei Paulo, no dia 29 de novembro de 1914, e morreu em Aracaju, no dia 23 de outubro de 1986. Formado em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da Bahia, foi secretário executivo do Condese, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe, prefeito de Aracaju e reitor da Universidade Federal de Sergipe. O pesquisador DÃlson Menezes Barreto afirma que José AloÃsio de Campos formou uma escola em Sergipe. Os seus seguidores buscaram garantir os meios indispensáveis à consolidação da estrutura que possibilitou a legitimação do campo, de modo autônomo e independente. José AloÃsio de Campos era um entusiasta das idéias da CEPAL e da Sudene, principalmente dos conceitos de desenvolvimento (BARRETO, 2003: 103). Ao iniciar a discussão a respeito da questão do desenvolvimento de Sergipe e do papel técnico que deveria ser desempenhado pelos economistas, AloÃsio de Campos buscou assessorar-se por um grupo de jovens economistas formados pela Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe. Dessas discussões resultou a elaboração da proposta do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Sergipe, criado sob o influxo da polÃtica federal, “permitindo que se consolidasse também em Sergipe uma nova estrutura de poder assentada no planejamento (...)†e uma nova elite polÃtica, a tecnoburocracia, liderada pelos economistas, que passou a exercer forte influência no Estado (BARRETO, 2003: 62). O Condese representou o estabelecimento da hegemonia de um quadro técnico, controlado primordialmente pelos economistas e assegurando a formação de uma elite capaz de pensar os problemas econômicos, de modo a controlar o processo de desenvolvimento estadual. Com AloÃsio de Campos, outros economistas chegaram ao poder no Estado de Sergipe, assumindo o discurso legÃtimo do campo, como técnicos capazes de promover o desenvolvimento do Estado: Jayme Santiago, Gilman Meneses Prudente, José Hermenegildo da Cruz, Antônio Rocha Santos, Jaime Araújo, Paulo Rocha de Novaes, Manoel de Resende Pacheco e Gilson Cajueiro de Hollanda. Esses economistas articularam um trabalho conjunto do Condese com a Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe, para reforçar tanto qualitativamente o padrão do ensino de economia, como também quantitativamente o suprimento de profissionais para ingressarem nos quadros técnicos do Setor Público, ampliando sua oferta e preenchendo as necessidades do projeto desenvolvimentista (BARRETO, 2003: 80). Este relacionamento entre o Conselho de Desenvolvimento Econômico do Estado de Sergipe e a Faculdade de Ciências Econômicas permitiu ainda a qualificação do corpo docente da escola e um aumento na oferta da quantidade de economistas necessários ao trabalho de planejamento econômico. Os economistas do Condese também lançaram mão das suas articulações com a Sudene, o Banco do Nordeste do Brasil e vários organismos internacionais para organizar cursos especiais. Este era o caminho estabelecido para suprir o que as lideranças dos economistas entendiam como “escassez de pessoal técnico com longa experiência em planejamento econômico,muito importante em áreas desenvolvidas†(BARRETO, 2003: 88). Deste modo, os economistas foram transformados em um corpo burocrático sólido e eficiente, posto que obtiveram padrões salariais de alto nÃvel, diferenciados da remuneração paga pelas demais organizações do Governo do Estado de Sergipe ao seu corpo de funcionários. Os economistas adquiriram o status de corpo técnico altamente qualificado e com dedicação integral ao trabalho no Condese. Aqueles que desejavam ingressar nesse clube fechado eram submetidos a um estágio probatório com a duração de seis meses, durante o qual deveriam demonstrar padrões mÃnimos de desempenho e participar de cursos de especialização. Estas eram as exigências mÃnimas necessárias cobradas dos que eram admitidos no quadro de economistas do Condese. (continua).
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 08h18
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O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E A CONSOLIDAÇÃO DO CAMPO CIENTÃFICO DA ECONOMIA EM SERGIPE (II)
Os economistas incorporavam, cada vez mais a bandeira do nacional-desenvolvimentismo, articulando-a com as possibilidades de legitimação profissional existentes. Em agosto de 1959 convidaram o economista Rômulo de Almeida para proferir conferência sobre o desenvolvimento do Nordeste. Na ocasião, o conferencista fez a defesa do Conselho de Desenvolvimento do Nordeste - Codeno e da Operação Nordeste - Openo, mostrou o papel que cada Estado da região tinha a desempenhar e buscou fortalecer as bases do discurso desenvolvimentista que se fazia em Sergipe.
Em Sergipe, o discurso nacional-desenvolvimentista e a Sudene cumpriram papel fundamental no processo de consolidação do campo cientÃfico dos economistas, ao reconhecer o caráter de ciência que tinha a ação desses profissionais e ordenar as polÃticas econômica e social do Estado, através de tais agentes. Os economistas colaboraram com a racionalidade do discurso que apresentava posturas favoráveis à industrialização e a hegemonia desse setor sobre as demais atividades da economia. Entenderam a industrialização como sinônimo de desenvolvimento e fizeram a defesa do Estado interventor nas relações econômicas.
Sergipe foi um Estado onde a Sudene teve atuação significativa. Os indicadores dessa atuação ficaram no Estado e necessitam ser submetidos ao crivo do debate sob a perspectiva do processo de formação de um campo cientÃfico. A busca dessa ação se dá na atuação dos governos e nos resultados práticos da luta entre os intelectuais formados pela Faculdade de Ciências Econômicas pela ocupação legÃtima de espaços de poder, principalmente no aparelho de Estado.
Ao ser criado, o Condese seguia os mesmos padrões adotados pela organização da Sudene. O Condese era constituÃdo por um Conselho Deliberativo, sob a presidência do governador do Estado e uma Secretaria Executiva, que era o seu órgão técnico. A Secretaria Executiva trabalhava sob os critérios de racionalidade técnica, “numa demonstração eloqüente de que a polÃtica partidária não exerce nem nunca exerceu a menor influência no Condese†(CRUZ, 1961: 28). Tal identidade técnica estava articulada com o nacional-desenvolvimentismo da Sudene, pois
a maioria dos técnicos componentes da Secretaria Executiva, além de serem professores da Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe e da Escola de Serviço Social de Sergipe, possuem cursos de aperfeiçoamento extra-universitários, em problemas de desenvolvimento econômico e projetamento, sendo que alguns possuem ainda cursos dessa natureza, feitos na Cepal e no Conselho Nacional de Economia, ao passo que um deles já foi até professor num curso de técnicos da Sudene, por indicação da Cepal, que se realizou na cidade do Recife (CRUZ, 1961: 30).
É importante observar que o envio da mensagem de criação do Condese à Assembléia Legislativa aconteceu após uma viagem do governador Luiz Garcia ao Rio de Janeiro. Convidado pelo presidente Juscelino Kubitscheck, o governador de Sergipe participou de uma reunião no dia 14 de fevereiro, à qual estiveram presentes todos os governadores nordestinos e o economista Celso Furtado. Na reunião foi exposto aos governadores o plano de criação do Codeno e posta a necessidade de adequação dos Estados à nova estrutura, para que pudessem receber recursos do governo federal e financiamentos internacionais.
Antes mesmo de criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico do Estado, o governador havia criado uma Comissão de Planejamento do Estado. Era assim, mais do que claro que a Sudene direcionava toda a organização racional do planejamento econômico que inspirava o Governo de Sergipe e os demais governos do Nordeste. Como afirmava José Cruz, um dos mais importantes dentre os técnicos da área em Sergipe, nas décadas de 50 e 60, o Condese estava “a serviço de Sergipe e do Brasil, pois realiza todo o seu trabalho para integrar o nosso Estado no Nordeste, cuja região começa a desenvolver-se para a felicidade e prestÃgio da nossa Pátria†(CRUZ, 1961: 34).
Ao instalar-se o Conselho, foram empossados os seus membros natos (Governador e Secretários de Estado), além do representante da Federação do Comércio, Federação das Indústrias, Associações Rurais, Sindicato dos Engenheiros e, inevitavelmente, Sindicato dos Economistas. Apesar de haver representação prevista, não foram empossados os representantes das Federações dos Trabalhadores no Comércio, nas Indústrias e em Transportes e Cargas.
No processo de constituição do campo cientÃfico dos economistas em Sergipe, estes se beneficiaram do quadro polÃtico pelo golpe militar de 1964. De um modo geral, após o golpe, as lideranças polÃticas ficaram muito fragilizadas. Esse quadro reduziu muito a importância do Poder Legislativo e facilitou o trabalho do Conselho de Desenvolvimento Econômico do Estado de Sergipe, reforçando o seu controle sobre o aparelho de Estado e o papel desempenhado pelos economistas em tal processo.
Afastado por um grande perÃodo do assédio da classe polÃtica e fechado à s suas interferências de caráter clientelista, o campo tornou-se propÃcio para a consolidação da sua tecnoestrutura e formação de seus quadros de pessoal, os quais vão gradativamente ocupando os espaços nas áreas que mais lhe dizem respeito: o econômico e o social (BARRETO, 2003: 27).
Naquela instância, os economistas não apenas tinham assento no Conselho Deliberativo, como também eram os responsáveis pelas propostas em análise, pela elaboração de diagnósticos da realidade e de projetos capazes de alterar o quadro existente. O Condese era visto como o espaço de maior legitimidade para a discussão dos problemas econômicos e sociais sergipanos. Ali, os economistas, reunidos com agentes polÃticos e outros grupos sociais representados no Conselho, discutiram a criação da Universidade Federal de Sergipe, os problemas portuários, as questões concernentes ao desenvolvimento industrial, ao aproveitamento dos recursos minerais, aos problemas referentes a polÃtica agrÃcola e a todos os planos de governo que diziam respeito ao desenvolvimento de Sergipe.
Segundo Pierre Bourdieu, o campo cientÃfico “é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros†(ORTIZ, 1983: 122). Assim, a ocupação dos espaços de poder no Condese pelos economistas encontrou resistências de diversos setores. A sua ação foi questionada intensivamente e recebeu duras crÃticas de polÃticos e jornalistas que consideravam o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Sergipe uma espécie de “Estado dentro do Estadoâ€. A maior parte da crÃtica gravitava em torno do problema da concentração de poderes e recursos financeiros sob gestão direta dos economistas do Condese, gerando ciúmes pelo prestÃgio que possuÃa.
(continua).
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 20h12
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SOBRE O BLOG EDUCA��O � HIST�RIA
Este blog tem a pretens�o de ser uma espa�o democr�tico destinado a publica��o de textos, informa��es, artigos cient�ficos, divulga��o de eventos e coment�rios a respeito dos campos da Educa��o e da Hist�ria, com �nfase aos estudos sobre Hist�ria da Educa��o e Hist�ria da Ci�ncia. O blog � coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em Hist�ria da Educa��o da Universidade Federal de Sergipe.
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 21h30
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O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E A CONSOLIDAÇÃO DO CAMPO CIENTÃFICO DA ECONOMIA EM SERGIPE
A partir de 1948, com a criação da Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe, a pesquisa sobre economia ganhou um novo alento no Estado. Nos primeiros anos da década de 60 houve um esforço inicial em direção da pós-graduação, quando um grupo de alunos recém diplomados pela Faculdade de Ciências Econômicas viajou para Santiago do Chile, a fim de fazer curso de especialização na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – CEPAL. Ao retornarem, Jaime Costa Santiago, Manoel de Rezende Pacheco, Paulo Rocha de Novaes e Marcilon Pacheco assumiram funções docentes na Faculdade de Ciências Econômicas. Assim, a CEPAL desempenhou um papel da maior importante no processo de reconhecimento e legitimação dos economistas de Sergipe, fundamental para que o campo se constituÃsse no Estado.
A formação desses intelectuais estava articulada ao processo de criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene e a organização de um sistema de planejamento econômico em Sergipe articulado ao sistema de planejamento regional. O processo de criação da Sudene ganhou, em Sergipe, conotação de campanha suprapartidária, e foi também muito importante para a consolidação do campo da economia como ciência. Alguma coisa que os discursos à época denominavam de “cruzada cÃvica da salvação do Estadoâ€.
O discurso do Governador do Estado de Sergipe, à época da criação da Sudene,
concitou a todos os polÃticos e todo o povo sergipano para uma união em torno do mesmo movimento, independentemente da cor polÃtico-partidária de cada um, ensarilhadas as armas dos partidos face aos problemas comuns do Estado, para que pudessem eles serem apresentados ao Presidente da República (...) num apelo unÃssono de Sergipe (A Cruzada, 1959).
O discurso sobre a realidade da região Nordeste estava permeado pelas concepções de planejamento regional difundidas nos anos 50 pelo pensamento de Celso Furtado. As suas idéias são, em verdade, o mais forte elemento teórico a compor a nova polÃtica de desenvolvimento em nome da qual falava a ciência econômica. A discussão acerca da questão do planejamento estava embalada sob a lógica da racionalidade cientÃfica, incorporando teses a esse respeito defendidas pelos economistas. As ações efetivamente propostas e realizadas pela SUDENE nesse perÃodo privilegiaram o campo profissional dos economistas.
Eles foram legitimados em Sergipe a partir do projeto executado pelo governador udenista Leandro Maciel, no perÃodo de 1955 a 1959, que assumiu um forte discurso de desenvolvimento ancorado pela racionalidade da ciência econômica. O projeto da União Democrática Nacional - UDN, em Sergipe, era embalado pelo discurso nacional-desenvolvimentista, o que se refletia através da atuação parlamentar de dois dos seus deputados federais: Luiz Garcia e Seixas Dória. Para o cientista polÃtico José Ibarê Costa Dantas,
em Sergipe, o domÃnio da UDN, de certo modo, correspondeu a uma atualização ou a uma tentativa de adequação do projeto polÃtico da classe dominante local aos padrões nacionais, na medida em que reproduziam as tendências populistas. De um lado, na valorização do ideário desenvolvimentista e, de outro, pela aproximação com os trabalhadores urbanos (DANTAS, 1989: 260).
Eleito governador em 1958, a partir de 1959 o udenista Luiz Garcia fundou o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Sergipe – Condese, abrindo um largo campo de trabalho para os economistas que colavam grau pela Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe. Todavia, mesmo antes desse perÃodo, as discussões sobre o desenvolvimento do Estado eram muito importantes,principalmente na segunda metade da década de 40. Em 1952, o governador Arnaldo Rollemberg Garcez criou a Comissão de Desenvolvimento Econômico do Estado de Sergipe – CDE. Porém aÃ, os economistas ainda não exerciam a influência que teriam no inÃcio da década de 60. Contudo, no final do mesmo ano de 1952, o governador criou uma Consultoria Técnica de Assuntos Econômicos e Financeiros – Cotef, para realizar estudos sobre economia, fianças, planejamento e orçamento.
Mesmo reconhecendo suas limitações, tanto no que concerne ao contingente de recursos humanos disponÃvel como no campo dos recursos financeiros, estava-se entretanto dando o primeiro passo para a institucionalização de um trabalhado planejado em Sergipe, correspondendo esse órgão no embrião do sistema planejamento-desenvolvimento a ser instituÃdo mais adiante (BARRETO, 2003: 66).
O movimento nacional-desenvolvimentista teve sua origem no Brasil a partir da polÃtica implementada pelo Estado Novo, que enfatizou o desenvolvimento industrial de base nacionalista. Contudo, o marco de visibilidade foi adquirido com a campanha “o petróleo é nossoâ€, criando raÃzes, juntamente com a criação da Petrobrás e da Eletrobrás, e consolidando no Brasil um pensamento de grande amplitude na elite intelectual (BARRETO, 2003: 3).
A orientação nacionalista dos planos de governo foi desenvolvida pela Assessoria Econômica, órgão de planejamento criado por Getúlio, diretamente ligado à Secretaria da Presidência. A ação planejada exigiu a criação de novos órgãos que possibilitassem a eficácia das medidas econômicas (RODRIGUES, 1992: 48).
Na segunda metade da década de 50, a Sudene cumpria exatamente a estratégia de desenvolvimento sob a qual foi concebida no governo Juscelino Kubitscheck. O fundamental era substituir as velhas e inúteis burocracias, passando o Estado, em todos os seus nÃveis, a operar sob a cobertura da racionalidade técnica que a ciência econômica possibilitava. Durante o governo Juscelino, o ideário nacional-desenvolvimentista unificava o paÃs, possibilitando “a afirmação dos tecnocratas na cena administrativa brasileira e a criação de órgãos especiais na administração†(RODRIGUES, 1992: 66).
A polÃtica social planificada e a forte presença da Sudene na região encontraram, desde o final dos anos 50 do século XX, um terreno fértil em Sergipe. A influência das idéias nacional-desenvolvimentistas, via Sudene, no Estado, era muito grande e, de certa forma, vista como a única maneira de dar organicidade, sob o controle do Estado, à atuação de várias instituições que trabalhavam nessa direção, reconhecendo e legitimando o discurso cientÃfico dos economistas e consolidando o seu campo no Estado de Sergipe.
(continua).
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 21h27
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