EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
  

A FORMAÇÃO MORAL, INTELECTUAL E FÍSICA DOS MENINOS ABANDONADOS: O ENSINO AGRÍCOLA NO PATRONATO SÃO MAURÍCIO (1924-1934)

Buscando compreender o processo de organização das instituições escolares que se dedicaram ao ensino agrícola no Brasil durante o século XX, este estudo analisa a trajetória histórica da Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão, desde a sua implantação, como Patronato São Maurício, em 1924, no Estado de Sergipe, região Nordeste do Brasil. O trabalho foi delimitado temporalmente entre os anos de 1924 e 1934, por serem estes os anos que marcam o momento no qual se registra o início das atividades da primeira instituição estatal de ensino agrícola no Estado de Sergipe. A pesquisa nasceu da necessidade de estudar a história do ensino agrícola, para entender o funcionamento das instituições escolares dessa natureza e dos seus dispositivos de conformação, que se disseminaram ao longo do século XX, como cena e linguagem de um modelo de sociabilidade. Assim, buscou entender os procedimentos educacionais próprios a esse tipo de ensino, o que envolve categorias analíticas capazes de estabelecer distinções e menções a teorias. A modalidade de ensino aqui analisada diz respeito a instrução primária oferecida pelos patronatos agrícola a partir do início do século XX. A Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão teve sua origem no Patronato São Maurício, em 1924. Oferecia curso de aprendizes e artífices a crianças e adolescentes com problemas de ajustamento social e emocional. Único estabelecimento escolar do Estado de Sergipe a oferecer cursos de nível médio para a formação de técnicos para o setor primário da economia, a Escola Agrícola adotou, desde o ano de 1924, o regime de internato, uma vez que situa-se na zona rural do município de São Cristóvão (antiga capital do Estado de Sergipe), distante 16 quilômetros da cidade de Aracaju, a capital desde 1855. Assim, o ensino das noções de agricultura era tido como uma alternativa interessante para a formação moral, intelectual e física para os menores desajustados. Ao ser implantado, o Patronato São Maurício tinha capacidade para atender 200 alunos e a responsabilidade pela sua organização coube a Juvenal Canário, um técnico indicado pelo Diretor do Serviço de Povoamento do Ministério da Agricultura, a pedido do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso. Quando se encerrou a gestão do presidente Graccho Cardoso, em 1926, o Patronato contava com 80 alunos matriculados. Os patronatos agrícolas podem ser analisados sob variados aspectos. O que se propõe aqui é o entendimento das diferentes propostas e das práticas escolares mais importantes do trabalho civilizador que marcaram a ação do Patronato São Maurício. A organização de uma rede federal de escolas agrícolas é um tema que não recebeu a devida atenção da produção historiográfica. Predominantemente os estudos sobre o ensino agrícola adotam duas vertentes explicativas: a primeira remete para a necessidade da formação de mão-de-obra dos trabalhadores rurais, em decorrência da abolição do trabalho escravo, enquanto a segunda aborda a questão da delinqüência infantil. “No âmbito jurídico o debate foi direcionado para as definições de menoridade e de aspectos que embasariam a aplicabilidade da legislação (menores abandonados, delinqüentes, etc.) e a incorporação ao mundo da produção, especialmente a fabril” (OLIVEIRA, 2003: 10). A delinqüência estava associada ao problema da vadiagem, considerando vadios “aqueles que vivessem em casa dos pais ou tutor, mas que se mostrassem refratários a receber instrução ou entregar-se ao trabalho sério e útil, preferindo vagar pelas ruas e logradouros públicos. A vadiagem ou mendicidade, por sua vez, era categorizada em dois tipos: habitual e não-habitual” (BRAGA, 1993: 119). Ambas as abordagens oferecem importantes contribuições à pesquisa sobre o assunto. O entendimento corrente é o de que o ensino agrícola, ao se consolidar no Brasil através dos patronatos, apresentou dois modelos: “o escolar – voltado para o ensino profissional, educando para o trabalho agropecuário – e o correcional – regenerar por meio da vida no campo com a predominância da reclusão e da ênfase nos aspectos disciplinares” (OLIVEIRA, 2003: 32-33). Quando se discute o ensino agrícola sob a ótica da regeneração é importante não esquecer que o próprio conceito de “regeneração” que supõe “um certo paternalismo esperançoso, contido também nos documentos pedagógicos, não deixou perceber a conotação de aviltamento, nela embutida, presente tanto em intelectuais que pensavam em escolarizá-la nas cidades, quanto naqueles que pensavam poder contê-la, através da escola, nos seus entornos rurais” (SOUZA, 2000: 60). (continua).



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h47
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II Seminário Internacional de Educação

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Data: 18 a 20 de dezembro de 2006

Local: Universidade Federal de Sergipe - Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos

O Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, que iniciou suas atividades em 2001, promoverá, nos dias 18, 19 e 20 de dezembro o II Seminário Internacional com o tema "A pesquisa em Educação: dilemas e perspectivas". O grupo é coordenado pelo professor Jorge Carvalho do Nascimento e pela professora Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, e é composto por alunos e demais professores dos cursos de graduação e pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe e de outras instituições de ensino superior. No ano de 2006, a abrangência do II Seminário Internacional envolverá temas relacionados às linhas de pesquisa: História, Sociedade e Educação, e Novas Tecnologias, Educação e Trabalho. Assim como na edição do ano passado, os principais objetivos do II 'Seminário Internacional são divulgar os estudos que têm sido desenvolvidos sobre essas temáticas no Brasil e, especialmente, em Sergipe, socializar procedimentos, métodos e técnicas de pesquisa sobre a história da educação e atrair a atenção de novos pesquisadores para os temas. Os trabalhos devem ser enviados à sala da Revista do Mestrado em Educação, na Universidade Federal de Sergipe até 30 de outubro. Cada autor poderá enviar somente um trabalho e no caso de o trabalho ter mais de um autor, faz-se necessária a inscrição de todos eles. Os resumos e trabalhos completos serão divulgados em CD-ROM. LOCAL DAS INSCRIÇÕES Sala da Revista do Mestrado em Educação Responsável: Vera Maria dos Santos Bloco Departamental II.- 2. andar Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos. Jardim Roza Elze, s/n. CEP: 49100-000 São Cristóvão - Sergipe Telefone: (0 XX 79) 3212-6759 TAXA DE INSCRIÇÃO Estudante de Graduação: R$ 30,00 Estudante de Pós-Graduação: R$ 60,00 Professores e profissionais da Educação: R$ 80,00 Banco do Brasil - Agência Campus Universitário: 2611-5 Conta Corrente: 16937-4 GRUPOS DE TRABALHO Os grupos de trabalho envolverão comunicações de trabalhos de pesquisa concluídos ou em andamento. Os grupos de trabalho são: - Intelectuais da Educação - Instituições e Práticas Escolares - Formação Docente - Educação e Trabalho - Novas Tecnologias em Educação. NORMAS PARA ENVIO DE TRABALHOS Resumo - Uma cópia impressa em papel A4 (acompanhada do disquete com o arquivo), Word for Windows, Fonte Times New Roman (corpo 12), entrelinhas simples, texto justificado, margens 2,5 cm. O resumo deve ter 15 linhas, evidenciando o tema do estudo, objetivos, metodologia e resultados obtidos. Especificar o grupo de trabalho. Texto na íntegra para compor o CD-ROM - Texto de até 10 páginas, incluindo a bibliografia. Deverá ter forma de artigo, com problemática anunciada e desenvolvida, metodologia, conclusões e referências bibliográficas. O envio das cópias impressas em papel A4 (acompanhada do disquete com o arquivo), Word for Windows, Fonte Times New Roman (corpo 12), entrelinhas simples, alinhamento justificado, margens com 2,5 cm. Título em maiúsculas e negrito, separado do texto por um espaço. Nome dos autores em maiúsculas, instituição e e-mail. Referências bibliográficas segundo as normas da ABNT em vigor. Notas de rodapé e referências no final do texto.



Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h30
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A Pedagogia do escotismo IX

Outros tinham posição mais isenta e buscavam argumentos técnicos. Helena Antipoff via muitas identidades entre o programa proposto por Baden-Powell e o ideário da Escola Nova: o self-governement (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 25), o trabalho em grupos, a variedade de atividades, a Educação Fí­sica, a intimidade com a natureza (Cf. ANTIPOFF, Helena. “A escola e o escotismo”. In: Revista de Educação Fí­sica. Rio de Janeiro, ano 4, n. 25, ago. 1935. p. 2). Essa posição que reitera permanentemente a importância da natureza no método escoteiro, diz respeito a uma caracterí­stica não apenas do escotismo, mas de toda a Pedagogia Moderna, que se caracteriza também como uma “voz de protesto, à s vezes de sabor quase tardo-romântico, contra a sociedade industrial e tecnológica” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 515). O ativismo pedagógico assim pensado foi objeto da teorização de Dewey e desenvolvido nos seus textos e na experiência educativa que ele vinha realizando, inicialmente através da escola anexa à  Universidade de Chicago.

Franco Cambi considera o escotismo um experimento educativo alimentado pelas lições do ativismo que resulta dos mais interessantes (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 552). Ele destaca as caracterí­sticas ativistas do escotismo no seu vínculo com o ambiente natural; na valorização da vida em grupo; no entusiasmo para o que é selvagem, tÃípico da idade juvenil; no desenvolvimento do espí­rito de iniciativa e da capacidade manual (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 521).   

Se tomados o discurso do Escotismo e o de várias teorias educacionais muito apreciadas que se constituíram ao longo do século XX, será possí­vel observar identidades que se expressam em documentos como o das Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino fundamental no Brasil, que prescreve: “os princÃípios éticos da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum; os princípios polí­ticos dos direitos e deveres da cidadania, do exercÃício da criticidade e do respeito à  Ordem Democrática; os princí­pios estéticos da sensibilidade, da criatividade, e da diversidade de manifestações artÃísticas e culturais” (Cf. BRASIL. CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO. Parecer CNE/CEB 04/98).

O escotismo, tal como pensado por Baden-Powell foi, também, um movimento de juventude. “Sintonizados com as caracterizações da ‘adolescência’ que nasciam com a psicologia, no século XX, esses movimentos de juventude trabalhavam com um ‘tipo ideal’ de indiví­duo e cidadão, com um modelo físico, moral e político, que representava o ‘tipo’ ocidental dominante” (Cf. CÉSAR, Maria Rita de Assis. A invenção da “Adolescência” no discurso psicopedagógico. Campinas-SP: Universidade Estadual de Campinas, 1998. Dissertação (Mestrado em Educação). p. 33). As associações juvenis foram da maior importância durante a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, realizando “uma obra propulsora e preventiva ao mesmo tempo, incentivando o desenvolvimento individual e social e garantindo o organismo e o espí­rito dos gastos precoces e devastadores das futuras gerações” (Cf. ANTIPOFF, Helena. “A escola e o escotismo”. In: Revista de Educação Fí­sica. Rio de Janeiro, ano 4, n. 25, ago. 1935. p. 3).

Agrupando crianças e rapazes de diferentes idades, Baden-Powell dividiu o movimento escoteiro, em três ramos, de modo a atender as tendências e as capacidades de cada grupo etário, pensando para cada um deles um método especial. Os lobinhos, na faixa dos oito aos 11 anos; os escoteiros, entre os 11 e os 16 anos; e, os pioneiros, a partir dos 17 anos de idade. Do mesmo modo, considerou a grande atração que o mar exerce como espaço de aventura e de realização de jogos, criando o ramo dos escoteiros do mar. Para as meninas foi criado o movimento de bandeirantes.



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h57
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A Pedagogia do escotismo VIII

Desde as suas origens, o escotismo funcionou como um projeto de expansão da vida cultural inglesa e assumiu as características de atividade educacional destinada a jovens sob a orientação de adultos voluntários que, no seu ideário, busca valorizar a participação juvenil, de modo a desenvolver um comportamento fundado em valores éticos, que tomam como ponto de partida o espírito comunitário, o exercício da liberdade com responsabilidade e o aprimoramento da personalidade. Tal como propõe a Pedagogia deweyana, o escotismo se contrapôs ao conjunto de práticas que dominavam a escola, “saturada de nocionismo, de disciplina autoritária e profundamente alheia à vida da criança” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 552). Franco Cambi afirma que “o filósofo americano lançou um apelo preciso: ‘Voltemos à idéia de que uma teoria da experiência coerente que forneça uma direção positiva à escolha e à organização dos métodos e materiais educativos apropriados é indispensável” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 552).

Valorizando as relações do homem com a natureza, através da vida mateira, o escotismo propõe o desenvolvimento físico, mental, social, espiritual, afetivo e de caráter dos seus participantes, expandindo sua mente, dando-lhe um conhecimento mais vasto através de viagens e leituras, por meio da aprendizagem da experiência de outros e do estudo da natureza. Para o fundador do escotismo, a leitura sem observação dos fatos não era suficiente, considerando necessário contrabalançar o conhecimento literário com o conhecimento do mundo, dos homens e das coisas através das viagens (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 169). Segundo Baden-Powell, “Pela palavra Escotismo devem ser subentendidas as características da vida e os trabalhos dos grandes exploradores e colonizadores, dos bandeirantes e sertanistas, dos descobridores e velhos lobos do mar, e dos pioneiros da aeronáutica [...] Juntamente com algumas dessas vidas, rijas e aventureiras, nós oferecemos aos jovens, um sistema de jogos e práticas que correspondem a seus desejos, instintos e aspirações e que são ao mesmo tempo educativos” (Cf. UEB. Princípios, Organização e Regras. 4 ed. Porto Alegre: União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 31).

No início do século XX, quando Baden-Powell fundou o escotismo, foi o mesmo momento no qual as práticas esportivas ganharam ampla legitimidade. Em todo o mundo, muitas práticas esportivas correntes na Europa foram incorporadas por diferentes sociedades. A organização escoteira busca inculcar os valores da disciplina e da vida religiosa, colocando-se a serviço de causas comunitárias. Os jovens também são atraídos para o escotismo através dos jogos, das práticas esportivas, das oportunidades de aventuras, da vida em grupo e da vida ao ar livre. Todos estes são temas da Pedagogia do ativismo, operacionalizados pelo puericentrismo, pela valorização do fazer, pela motivação, pela centralidade do estudo do ambiente, pela socialização, pelo antiautoritarismo e pelo antiintelectualismo (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 552). Todo esse entendimento é respaldado pelas idéias do médico belga Ovide Decroly, para quem “a característica dominante da psique da criança, e que se manifesta em toda a sua atividade, é a “globalização”: o conhecimento e a própria sensação não se dirigem para elementos diferenciais e separados que depois são associados, mas para um todo, um conjunto de dados que se agregam sob o impulso de um interesse vital” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 527). 

Vários intelectuais da Educação ligados ao movimento escoteiro buscaram demonstrar as filiações do método à Pedagogia Moderna. Alguns de modo apaixonado, como Gabriel Skinner, que via o escotismo como “uma verdadeira e pura ciência educativa, sem o atavio do pretensioso e arcaico sistema do ensino e da educação livresca, tão do gosto dos austeros educandários ainda em nossos dias” (Cf. SKINNER, Gabriel. “Características primaciais do escotismo”. In: Revista de Educação Física. Rio de Janeiro, ano 4, n. 23, 1935. p. 39).

(continua).



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h01
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A Pedagogia do escotismo VII

A reunião de seis a oito rapazes em uma patrulha era tida como diferencial em relação ao processo formativo oferecido pelas instituições escolares, uma vez que uma sala de aula é constituída, normalmente, por cerca de 40 alunos. A patrulha teria, portanto, mais facilidade de locomoção e preparar-se-ia na vida escoteira para a vida prática. Ao estabelecer a patrulha como unidade da organização das práticas escoteiras, “Baden-Powell partiu de um fato observado pelos psicólogos como ele próprio e particularmente estudado por Pierre Bovet: ‘a uma certa idade, os jovens se agrupam em bandos, em clãs e escolhem entre si um chefe que lhes agradam por suas qualidades evidentes, por vezes boas e por outras más, o qual se investe de uma autoridade toda especial, pela maneira porque sabe se conduzir e inata nos que têm parcela de mando’” (Cf. SKINNER, Gabriel. “Características primaciais do escotismo”. In: Revista de Educação Física.  Rio de Janeiro, ano 4, n. 23, jun. 1935. p. 40).

O ponto de partida do método, como já indicado, é o do interesse da própria criança. “O interesse, diz Ferrière, é o pivot da educação baseada na psicologia. A fórmula da educação será: partir dos instintos, dos interesses dominantes nas crianças e imprimir-lhes através das atividades, novas aquisições. Negligenciá-las será desperdiçar um inestimável tesouro de energias” (Cf. SKINNER, Gabriel. “Características primaciais do escotismo”. In: Revista de Educação Física.  Rio de Janeiro, ano 4, n. 23, jun. 1935. p. 39). Todo o programa educativo dos meninos mais novos, como o da alcatéia de lobinhos, é adaptado aos interesses da criança. O dos escoteiros, aos interesses e necessidades dos adolescentes. Inicialmente, a educação dos escoteiros tinha como foco central aqueles que se encontravam no período da puberdade, sem distinguir esta faixa da adolescência (Cf. ZUQUIM, Judith e CYTRYNOWICZ, Roney. 60 anos de Escotismo e Judaísmo (1938-1998): a construção de um projeto para a juventude. Uma História do Grupo Escoteiro e Distrito Bandeirante Avanhandava. São Paulo, Congregação Israelita Paulista, 1999. p. 108). “São da célebre pedagogista dra. Montessori as seguintes palavras quando interrogada de como deveria seu sistema ser aplicado às crianças de mais de sete anos, respondendo: ‘Na Inglaterra existem os Boy-scouts; a sua educação é a continuidade natural da que dou às crianças’” (Cf. SKINNER, Gabriel. “Características primaciais do escotismo”. In: Revista de Educação Física.  Rio de Janeiro, ano 4, n. 23, jun. 1935. p. 40). O próprio Baden-Powell admitiu haver incorporado  elementos  da proposta  de Maria  Montessori ao escotismo (Cf. ZUQUIM, Judith e CYTRYNOWICZ, Roney. 60 anos de Escotismo e Judaísmo (1938-1998): a construção de um projeto para a juventude. Uma História do Grupo Escoteiro e Distrito Bandeirante Avanhandava. São Paulo, Congregação Israelita Paulista, 1999. p. 52). O programa dos pioneiros foi concebido para os adultos.

 Reivindicando, portanto, a sua condição de método da Educação Nova, o escotismo procurou estimular a iniciativa da criança, para utilizar todos os seus instintos, e mostrar-lhe o resultado das suas ações conjuntas, para objetivação de um ideal comum. Da mesma maneira, “na base do ‘método Montessori’ está um estudo experimental da natureza da criança que dá ênfase, em particular, às atividades senso-motoras da criança, que devem ser desenvolvidas (...) por meio de ‘exercícios da vida prática’” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 531).

Esse ativismo, ao lado do trabalho de Dewey, de Decroly (Cf. PEETERS, Francisca e COOMAN, Maria Augusta. Pequena História da Educação.  9ª. ed. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1969. p. 118), de Claparède e de Ferrière, operou uma reviravolta na Pedagogia ocidental, mantida por associações internacionais e congressos nos quais se afirmava e defendia os princípios da Educação Nova. “A difusão do ativismo provocou também a assimilação de alguns de seus elementos fundamentais por parte de ideologias educativas bem distantes de seus pressupostos psicológicos e sociais, como a pedagogia católica e a marxista que, ao lado de uma polêmica às vezes acesa sobre a concepção do homem e da sociedade em que o ativismo se inspirava, dedicaram uma progressiva atenção, muitas vezes genuína e sensível, para as soluções didáticas que o movimento da “escola ativa” vinha propondo” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 526).

(continua).



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h48
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A Pedagogia do escotismo VI

Para desenvolver o jovem fisicamente, o método de Baden-Powell busca proporcionar a prática de jogos ao ar livre, exercícios, excursões e acampamentos. Acampar foi uma prática que entusiasmou a Europa nas primeiras décadas do século XX. O próprio fundador do escotismo era sócio do Camping Club da Grã-Bretanha, uma instituição que se apresentava como entidade destinada a homens e mulheres que amam o ar livre e mantinha uma revista chamada Camping, além de uma loja de equipamentos com tudo que um acampador necessitava e mais de 500 locais de acampamento à disposição de seus membros, distribuídos por todo o Reino Unido (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 230). O movimento escoteiro organizou, a partir dos seus primeiros anos, locais para acampamentos em toda a Inglaterra (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 230). Mas, paralelamente surgiram também na Inglaterra outras sociedades de campismo que anunciavam linhas gerais semelhantes às do escotismo (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 230).

O sistema educativo concebido por Baden-Powell é composto por programas especiais, destinados a atender as necessidades físicas e psicológicas dos jovens em suas diferentes faixas etárias, dos sete aos 21 anos. O programa escoteiro propõe, tal como o faz Decroly em sua Pedagogia, que sejam desenvolvidos os assuntos referentes a relação da criança com a família, a cidade, o Estado, a pátria, a humanidade, a natureza (particularmente, os animais, as plantas, o solo e os astros). Como outras expressões da Pedagogia daquele período, é uma Pedagogia ativa que, ademais de fundamentar-se nas ciências humanas, “indicava também suas implicações políticas (caracterizadas por uma forte orientação democrática) e antropológicas (destinadas a formar um homem mais livre e mais feliz, mais inteligente e criativo)” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 526). Para isto, mobiliza quatro importantes dispositivos: a arte mateira, o trabalho em equipe, o espírito internacional e o trabalho voluntário. É pretensão da arte mateira o desenvolvimento da boa saúde, do autodomínio, da coragem, da admiração pela natureza e daquilo que Baden-Powell estabelece como sendo os dons mais altos que o homem possui: a tolerância, a amizade e a cooperação. Assim, o campismo é uma importante chave de todo o sistema pedagógico escoteiro. O fundador do escotismo repetia em diversas ocasiões que foram-nos dados braços, pernas, cérebro e ambição para sermos ativos, entendendo que é o ativo, muito mais que o passivo, que importa na obtenção da verdadeira felicidade (Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 251). Baden-Powell assumiu o entendimento da Escola Nova, segundo o qual a criança “deve ser, se possível, afastada do ambiente artificial e constritivo da cidade; a aprendizagem deve ocorrer em contato com o ambiente externo, em cuja descoberta a criança está espontaneamente interessada e mediante atividades não exclusivamente intelectuais, mas também de manipulação, respeitando desse modo a natureza ‘global’ da criança, que não tende jamais a separar conhecimento e ação, atividade intelectual e atividade prática” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 514).

Já o trabalho em equipe é estimulado a partir do momento que o jovem ingressa no movimento escoteiro. Ele integra uma equipe ou patrulha, na qual desenvolve hábitos e qualidades de disciplina, importantes para o sucesso dos trabalhos. Na sua equipe, ele tem sempre uma função, de modo a se desenvolver individualmente, com responsabilidade, adquirindo autoconfiança. Tal como a escola concebida por John Dewey, o escotismo de Baden-Powell assumiu a responsabilidade de “transformar até politicamente a face da sociedade, de torná-la cada vez menos repressiva e autoritária e de desenvolver os momentos de participação e de colaboração” (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 551).

(continua).



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h01
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   SOBRE O BLOG EDUCAÇÃO É HISTÓRIA


Este blog tem a pretensão de ser uma espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos cientí­ficos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase aos estudos sobre História da Educação e História da Ciência. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe.


Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h09
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29th Session of the International Standing Concerence

http://www.erzwiss.uni-hamburg.de/ische29/index.html

Data: July 25-28, 2007

Welcome to the 29th Session of the International Standing Concerence for the History of Education University of Hamburg, July 25-28, 2007 ISCHE 29 Children and Youth at Risk ISCHE 29 WELCOME Flyer pdf doc Location Conference Theme Conference Programme Plenary Lectures Standing Working Groups Abstracts Organisation Publication Cultural Programme PARTICIPATION Call for Papers Online Registration USEFUL INFORMATION University of Hamburg Faculty of Education The City of Hamburg Hotels ISCHE 28 ISCHE Homepage Sponsors Contact: ische29@erzwiss.uni-hamburg.de



Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h08
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A Pedagogia do escotismo V

O projeto pedagógico proposto por Baden-Powell no seu Escotismo para rapazes pode ser sintetizado na seguinte frase: “Se queremos que nossos rapazes sejam felizes na vida, devemos fazer com que eles assimilem o costume de praticar o bem ao próximo, além de ensinar-lhes a apreciar as coisas da natureza” (Cf. UNIÃO DOS ESCOTEIROS DO BRASIL. Disponível em http://www.escoteiros.org . Acesso em 17 de agosto de 2005). Tal Pedagogia possui três grandes fundamentos: o desenvolvimento físico, o desenvolvimento moral, o desenvolvimento intelectual. O desenvolvimento moral tem como finalidade aperfeiçoar o caráter (Cf. ZUQUIM, Judith e CYTRYNOWICZ, Roney. “Notas para uma História do escotismo no Brasil: A ‘Psicologia Escoteira’ e a teoria do caráter como Pedagogia de civismo”. In: Educação em revista. Belo Horizonte, n. 35, jul. 2002. p. 50), de modo a formar jovens capazes de assumir compromissos para com Deus, a pátria e o próximo. O desenvolvimento intelectual é obtido por meio de práticas de cozinha, campismo, nós, natação, salvamento, primeiros socorros, regras de segurança, orientação, transmissão de sinais e estudo da natureza e também pelas insígnias de especialidades, que desenvolvem a vocação de cada um dos jovens (Cf. CAMBI, Franco. História da Pedagogia.  São Paulo, Editora UNESP, 1999. p. 514). “O Escotismo não está preocupado em nenhum momento em oferecer modelos prontos para serem seguidos nem tampouco estabelece aonde se deve chegar, pelo contrário, estimula o jovem a buscar fazer permanentemente o seu melhor possível e não, o melhor que um outro faz. No entanto, estimula a crítica reflexiva e a liderança para que se venha a ter a idéia do que é o melhor possível e para quem. A discussão como prática democrática é solicitada para que em conjunto com os demais jovens, chegue-se a um objetivo/solução comum para o grupo” (Cf. PEREIRA, Ana Paula Costa. Educação não-formal tendo como exemplo de modelo pedagógico o método escoteiro. Monografia de conclusão do curso de graduação como Bacharel em Pedagogia. Orientadora: Profª. Ana Paula Aquino. Rio de Janeiro, Univercidade, 2004. p. 22).

Para promover o desenvolvimento intelectual, o escotismo não ministra instrução teórica de nenhuma natureza, mas sim busca completar pela prática aquela oferecida na escola além de fornecer alguns conhecimentos práticos inexistentes nas instituições escolares, como as práticas de Zoologia e Botânica que a vida ao ar livre proporciona. “Uma das grandes preocupações é despertar o espírito de observação e o desejo da criança aprender por si só” (Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 2).

(continua).



Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h11
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