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A BIBLIOTECA DO POVO E DAS ESCOLAS E A GEOGRAFIA GERAL PARA PORTUGUESES E BRASILEIROS
Por Jorge Carvalho do Nascimento
e Vera Maria dos Santos
Geografia Geral foi o segundo livro da Biblioteca do Povo e das Escolas, coleção que começou a circular em 1881 publicando uma História de Portugal. A coleção de 237 livros da Editora David Corazzi, de Lisboa, circulou durante 32 anos, entre 1881 e 1913, em Portugal e no Brasil. Francisco Guilherme de Sousa, autor do segundo livro da coleção, apresentou aos estudantes portugueses e brasileiros uma Geografia Geral na qual desfilam a descrição das raças, religiões, governos e Estados à época existentes e destacou ainda que o texto era ilustrado com um mapa mundi. Este trabalho analisa a circulação da Geografia Geral no contexto da coleção. A análise buscou compreender o discurso do autor e também as estratégias da Casa Editora David Corazzi.
Os livros da coleção Biblioteca do Povo e das Escolas circularam no Brasil desde o seu lançamento, na década de 80 do século XIX. Os autores deste artigo entraram em contato com a coleção ainda no ano de 1996, quando Jorge Carvalho do Nascimento recebeu trinta e oito exemplares encontrados em um casarão de Salvador e vendidos a um colecionador de Aracaju. Segundo o vendedor, os livros pertenciam aos seus familiares, desde o início do século XX. O exame dos exemplares revelou um material da maior importância. Desde então foram muitas as buscas com o objetivo de melhor entender aqueles trabalhos. No ano de 1997, em Portugal, percorrendo sebos, Jorge Carvalho do Nascimento recuperou vinte e quatro das vinte e nove séries que constituem a coleção.
Os volumes da Biblioteca do povo e das escolas eram publicados quinzenalmente, nos dias 10 e 25 de cada mês, cada um com rigorosas 64 páginas, em formato de 15,5 X 10 centímetros, de composição cheia. A edição dos dois primeiros volumes foi de seis mil exemplares cada. A partir do terceiro volume começaram a ser impressos 12 mil exemplares de cada vez. A tiragem subiu para 15 mil exemplares a partir do volume 10. A cada oito volumes, os livros recebiam uma única encadernação de capa dura, constituindo uma série. Ao longo dos 32 anos em que a coleção circulou, foram encadernadas 29 séries.
Se do ponto de vista dos problemas que envolviam o mercado de produção e circulação de livros naquele momento, a Biblioteca do Povo e das Escolas é um documento da maior importância, extremamente mais rica se apresenta tal coleção quando pensamos acerca das possibilidades de compreensão do quadro de mentalidades existentes à época e do projeto que se punha à escola como centro de formação no Brasil das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Do mesmo modo, é fértil a contribuição que tais livros podem nos dar quanto aos olhares que temos lançado sobre o nosso passado, principalmente no que diz respeito aos estudos acerca de fenômenos como as práticas culturais e educativas no Brasil.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h09
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VV.AA., Vidas maestras 2006, Santander, Consejería de Educación del Gobierno de Cantabria, 2007, 389 p. ISBN: 978-84-95302-41-1.
En los últimos años las Consejerías de Educación de algunas Comunidades Autónomas suelen dirigirse a los docentes que se jubilan para que redacten una especi de biografía entre personal y profesional, no extensa, con el fin de editar un libro-recuerdo con el que después se obsequia a los profesores y maestros jubilados. La Consejería de Educación de Cantabria parece haberse tomado esta tarea con objetivos que superan la simple edición de un libro de recuerdos con fotografías. Ya lo hizo en el año 2006 con lo jubilados del 2005 y ahora lo hace de nuevo con los jubilados del 2006 sólo que con algunos cambios y mejoras. No sólo se incluye un más amplio, de mejor calidad y más interesante elenco de imágenes fotográficas (hasta el punto de que algunas de ellas resultan ser más relevantes que los textos), sino que además todo ello se inserta en el conjunto de actividades del Centro de Recursos, Interpretación y Estudios de la Escuela (www.muesca.es), creado en el año 2005 y ubicado en Polanco (Cantabria) con el fin de preservar y estudiar el patrimonio histórico-educativo de esta Comunidad Autónoma. Los textos de los maestros y maestras (precedidos por una introducción del director del mencionado Centro, Juan González Ruiz) difieren en su extensión, enfoque y contenido. Quiere esto decir que han sido redactados sin someterse a un esquema prefijado. Algunos son muy profesionales o neutros y otros más emotivos. En todo caso, su interés es doble. Primero como autobiografías profesionales y como resultado de la mirada sobre sí mismo de quienes dejan, por jubilación, la docencia. Después, por constituir un buen ejemplo de un producto editorial cada vez más difundido y que goza de una cierta aceptación social y política.
Resenha elaborada por Antonio Viñao.
Categoria: Informação bibliográfica
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 05h49
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MATRIZES DO PENSAMENTO LIBERAL
http://jorge.carvalho.zip.net
Data: 23/02-21/12/2007
Local: Auditório do Arquivo do Poder Judiciário do Estado de Sergipe
APRESENTAÇÃO O pensamento liberal é o ponto central de articulação deste seminário. O Liberalismo foi, certamente, durante o século XX, o projeto de organização da sociedade e do Estado que recebeu a maior quantidade de críticas. A contundência desse tipo de crítica tem resultado num desinteresse crescente em face dos clássicos do pensamento liberal. A sistemática deste evento consistirá na realização de reuniões mensais nas quais serão apresentadas e debatidas as principais obras que fundaram o pensamento liberal. O seminário destina-se aos membros do grupo de pesquisa e também a todos aqueles que queiram participar dos debates. CRONOGRAMA DE ATIVIDADES • 23/02/2007 - ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da loucura. In: Erasmo e Thomas More. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Os Pensadores). Apresentador: Prof. Cristiane Vitório de Souza. • 30/03/2007 - COMENIUS, John Amos. Didática magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1966. - Apresentador: Profª. Drª. Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas (Professora do Departamento de Educação e do Mestrado em Educação – UFS) • 27/04/2007 - HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. In: HOBBES. São Paulo, Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores). - Apresentador: Profª. Vera Maria dos Santos (Técnica do Mestrado em Educação – UFS) • 22/05/2007 - MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1990. Apresentador: Prof. Samuel Barros de Medeiros Albuquerque (Aluno do Mestrado em Educação – UFS) • 22/06/2007 - LOCKE, Johnn. Segundo tratado sobre o governo. In: Locke. São Paulo, Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores). Apresentador: Prof. Dr. Francisco José Alves (Departamento de História – UFS) • 27/07/2007 - ROUSSEAU, Jean Jacques. O contrato social. Apresentador: Prof. Antônio Samarone de Santana (Departamento de Medicina – UFS) • 31/08/2007 - COMTE, Augusto. Curso de Filosofia Positiva. In: COMTE. São Paulo, Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores). - Apresentador: Prof. Elder Teixeira (Aluno do Doutorado em Sociologia - UFBA) • 28/09/2007 - MONTESQUIEU. Do espírito das leis. In: Montesquieu. São Paulo, Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores). - Apresentador: Prof. Joaquim Tavares das Conceição (Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão) • 26/10/2007 - TOCQUEVILE, Aléxis. Democracia na América. Vol. I. São Paulo: Martins Fontes, 2001. - Apresentador: Prof. Dr. Franz (Departamento de Sociologia – UFS) • 30/11/2007 - TOCQUEVILE, Aléxis. Democracia na América. Vol. II. São Paulo: Martins Fontes, 2001. - Apresentador: Prof. Dr. José Rodorval Ramalho (Departamento de Sociologia – UFS). • 21/12/2007 - WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 5ª ed., São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1987. Apresentador: Profª. Drª. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento (Universidade Tiradentes). Inscrições e maiores informações, enviar e-mail para jorge@ufs.br
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 05h47
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SOBRE O BLOG EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
Este blog tem a pretensão de ser um espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos científicos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase aos estudos sobre História da Educação e História da Ciência. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe. O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA completou um ano de atividades na rede Web no último dia 08 de dezembro. O primeiro texto publicado, em 08 de dezembro de 2005, foi um artigo escrito por Jorge Carvalho do Nascimento, tendo como título “A Colônia do Quissamã”. Durante os primeiros 12 meses, o blog recebeu 21.717 visitas. Atualizado diariamente, o blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA mantém link para 76 outros importantes endereços da rede Web e publicou informações sobre 24 eventos. Também foram publicados, nesse mesmo período, 298 textos sob a a forma de artigo, 51 notícias e 14 resenhas bibliográficas
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 05h44
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ESCOLANO BENITO, Agustín (ed.), La cultura material de la escuela. En el centenario de la Junta para la Ampliación de Estudios, 1907-2007, Berlanga de Duero - Soria, Centro Internacional de la Cultura
El volumen recoge las aportaciones efectuadas a las II Jornadas Científicas de la Sociedad Española para el Estudio del Patrimonio Histórico Educativo (SEPHE), celebradas, del 9 al 11 de mayo de 2007, en la sede del Centro Internacional de la Cultura Escolar (CEINCE) en Berlanga de Duero (Soria). El tema central de estudio de las Jornadas ha discurrido, como figura en el título de la obra, en torno a la cultura material de la escuela, desde la creación de la Junta para la Ampliación de Estudios en 1907 hasta nuestros días. La obra incluye en sus primeros capítulos una exposición preliminar de Agustín Escolano acerca de “La cultura material de la escuela” y los textos de la conferencia inaugural pronunciada por Honorio M. Velasco titulada “La cultura como patrimonio. Lo material y lo inmaterial en la cultura”, así como los de las tres ponencias a cargo de Pedro L. Moreno sobre “La modernización de la cultura material de la escuela pública en España, 1882-1936”, Juan C. González Faraco acerca de “La modernización de la escuela en la segunda mitad del siglo XX: desafíos, mitos y retóricas” y Myriam Carreño sobre “Museología y museografía de la educación”. Los diecisiete trabajos restantes pueden ser agrupados, dentro de su diversidad, entre los que abordan el proceso de modernización de la cultura material de la escuela en los siglos XIX y XX, y los que se refieren al movimiento museístico-escolar o a alguno de los museos pedagógicos existentes o en vías de formación en España (Aragón, Galicia, Andalucía, Cantabria, CEINCE, museos virtuales, etc.) o fuera de ella (Brasil), a la cultura material de alguna institución educativa concreta, a algún campo disciplinar específico (ciencias físico-químico-naturales, matemáticas) o a algún aspecto concreto de dicha cultura material o de los fondos museísticos (cine, radio escolar).
Resenha elaborada por Antonio Viñao.
Categoria: Informação bibliográfica
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 05h43
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS XII
Era fundamental que manuais como o Compêndio de Civilidade tivessem condições de integrar todas as pessoas a esse processo, que se considerava o único a ser vivido pelas sociedades mais adiantadas. Era fundamental à vida civilizada colher os seus frutos, os seus resultados. Daí a necessidade do estabelecimento de regularidades a serem seguidas por todos, aquilo que deveria ser comum a todas as pessoas e que também as distinguisse socialmente.
Na verdade, os manuais de civilidade imitavam as condutas e os padrões de comportamento de determinados grupos das sociedades européias, buscando estabelecer um determinado status social, os seus ideais, os seus gostos, os seus modelos, o refinamento dos modos, as habilidades peculiares que permitiam a conversação com todas as pessoas, um elevado autocontrole. A Igreja Católica brasileira, através dos Salesianos, estava integrada a esse projeto. O projeto de fazer do Brasil uma sociedade na qual fosse visível o distanciamento da barbárie na qual viviam ainda setores tidos como incivilizados, principalmente algumas comunidades rurais e moradores dos bairros periféricos das grandes cidades. Por isto, era fundamental que as escolas cristãs ensinassem o refinamento dos padrões sociais gerais, civilizando o Brasil. Era fundamental difundir a consciência civilizada, incorporada pelos padrões de desenvolvimento científico, tecnológico e artístico com os quais o país pretendia apresentar-se internacionalmente. Esta era a auto-imagem do Ocidente. Esta deveria ser a auto-imagem do Brasil, cristão como as demais nações ocidentais. A linguagem civilizada que os manuais estavam propondo que as escolas católicas adotassem encontrava forte expressão nos hábitos de higiene corporal, nos padrões estéticos da arte, nos padrões de comportamento coletivo, tudo fixado através dos valores morais estabelecidos pelo catolicismo.
BIBLIOGRAFIA
CUNHA, Luiz Antonio Rodrigues da. “O ensino industrial-manufatureiro no Brasil”. In: Revista Brasileira de Educação. São Paulo, nº.14, mai/ago, 2000. p.89-107.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1990.
MARQUES, Vera Regina Beltrão. 1994. A medicalização da raça. Médicos, educadores e discurso eugênico. Campinas, Editora Unicamp, 1994.
MATTOS, Ilmar R de. O tempo saquarema. São Paulo. Hucitec, 1987.
NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. “A formação do homem civilizado”. In: Revista Educar-SE. Aracaju, Ano I, nº. 3, março, 1997. p. 33-51.
. “Contribuição à leitura de Norbert Elias”. In: Cadernos UFS História. São Cristóvão, Vol. 2, nº. 3, Jul/Dez, 1996. p. 19-32.
OLIVEIRA, Milton Ramon Pires de. Formar cidadãos úteis: os patronatos agrícolas e a infância pobre na Primeira República. Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco, 2003.
ORLANDO, Evelyn Almeida. “João Paulo II, os manuais de catecismo, a educação moral e a civilidade”. Comunicação apresentada ao XI Encontro Sergipano de História: Ditadura militar – história e memória. São Cristóvão, Universidade Federal de Sergipe, 2005.
PEREIRA, Cândido Augusto Sampaio. Entrevista concedida a Marco Arlindo Amorim Melo Nery, no dia 22 de fevereiro de 2004.
SILVA, Laonte Gama da. Entrevista concedida ao autor no dia 24 de setembro de 2003.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h03
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS XI
Os dezoito Deveres para com os pais prescritos pelo Compêndio de Civilidade encontram sua síntese na relação direta que está estabelecida com o quarto Mandamento e diz respeito ao conjunto das relações com o próximo. Os Deveres recomendam as responsabilidades dos filhos quanto aos pais, partindo do pressuposto de que esta é uma relação universal e considerada nas diversas culturas como a base de qualquer sociedade. A família é, por assim dizer, a comunidade que desde cedo serve de referencial para a assimilação dos valores morais e a partir da qual se aprende a honrar as prescrições da vida em sociedade. Por isto, esse conjunto de Deveres lança luz em face das outras relações sociais que devem ser pautadas no respeito e obediência às hierarquias.
Tal padrão de comportamento é visível no discurso de um ex-aluno salesiano que conheceu o Compêndio: “Eu tenho orgulho do meu pai. Meu pai era muito religioso. No Salesiano, a minha formação foi essa, sob protesto porque era uma formação religiosa muito severa, pela imposição. Na dureza que ele dirigia a gente, ele dizia da vida, do respeito. Papai nunca admitiu que alguém pegasse o que não era seu, ele transmitiu isso aos filhos dele. Disso eu me orgulho e digo que meu pai era um homem de bem, e nós herdamos. Fomos criados assim. Ele tinha um ditado que dizia: ‘O homem só estira o braço até onde a mão alcança’. E todos só devem ter dividas com Jesus Cristo. A esse a gente vai prestar contas um dia. O velho lutava, tinha umas coisas que ele dizia: ‘Seja até sapateiro, mas procure ser um dos melhores da sua classe’. Essa era a posição que ele defendia” (SILVA, 2003).
Da mesma maneira, Cândido Augusto Sampaio Pereira, um outro ex-aluno do Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora na década de 40 do século XX, que também conheceu o Compêndio de Civilidade, reverencia a imagem paterna: “Meu pai era cristão. Todo dia se rezava o terço na minha casa. Naquela época meu pai obrigava e a gente obedecia. Meu pai lia muito pra gente sentado em uma cadeira e nós sentados, eu, minha irmã, meu irmão que é desembargador e a mais nova, a gente sentado no chão, e ele lendo, a vida de Cristo, romances, em voz alta e a gente ouvindo aquilo ali embevecido. Quer dizer foi uma infância assim, muito rica. Papai foi um homem de sabedoria de vida impressionante” (PEREIRA, 2004).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Manuais como o Compêndio de Civilidade dos Salesianos buscavam formar no Brasil o chamado homem civilizado, que contribuísse para a construção da sociedade civilizada. O entendimento era o de que o homem civilizado deveria ser preparado para compreender uma grande variedade de fatos, de natureza tecnológica, das maneiras de comportamento, dos conhecimentos científicos, das idéias religiosas e dos costumes. A vida civilizada estabelecia tipos específicos de habitações adequadas à moradia, a maneira como os homens e mulheres deveriam viver juntos, o modo de preparar e consumir os alimentos. Em outras palavras, a auto-imagem de uma sociedade que estabeleceu padrões políticos, econômicos, religiosos, técnicos, morais e sociais que deveriam ser incorporados e seguidos por todos.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h16
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS X
10. Não uses para com eles de maneiras bruscas, como seria sacudir desdenhosamente os ombros, voltar-lhes as costas, abanar a cabeça, bater com os pés, olhar de esguelha, levantar a voz ou, o que seria hediondo, ameaça-los e agredi-los.
11. Mais: é preciso em toda circunstância manifestar com palavras e com atos o respeito e veneração que lhes tributas, tanto em casa, como fora, nas conversas e em toda parte.
12. Reza pelos teus Pais todos os dias. Retribui com a tua gratidão e benevolência o amor que te consagram. O filho que rejeita os carinhos dos seus progenitores e recusa retribui-los, merece ser privado do amor de seu pai e de sua mãe.
13. Vai-lhes ao encontro pela manhã e saúda-os à noite, antes de te deitares, quando sais de casa, quando chegas de fora.
14. Os Pais merecem, mais do que quaisquer outras pessoas, nossa estima e respeito. Quem se mostrasse educado para com os outros e incivil para com os seus Pais, seria um impostor.
15. Procura de bom grado sua companhia. Há jovens que preferem a companhia dos amigos à dos Pais, alegando que os Pais os têm sempre perto de si. Que ingratidão! E os Pais (pobres Pais!) vêm-se muitas vezes constrangidos a disfarçar o seu sentimento e a calar. Dia virá em que estes filhos indiferentes sentirão falta de seus progenitores e chegarão a compreender toda a sua ingratidão!... (p.10).
16. Finalmente sê aberto e franco para com teus pais. Deposita neles toda a confiança, porque eles são os mais interessados pelo bem de seus filhos. Empenha-te em ser para com teus Pais o que foram eles para contigo; e, sendo impossível recompensar-lhes o amor que te dedicam, faze quanto estiver ao teu alcance para retribuir cuidado por cuidado, sorriso por sorriso.
17. Tuas maneiras e teu proceder sejam tais, que só o fato de te verem lhes cause alegria e consolo. Todo sorriso que a seus lábios fizeres assomar, toda consolação que lhes despertares n’alma ser-lhes-á grande recompensa, recompensa que redundará também em benção para ti. As bençãos dos Pais são sempre confirmadas por Deus.
18. Felizes os filhos que desempenharem com fidelidade estes deveres. Serão abençoados por Deus na vida, na morte e na eternidade. Mas ai dos desobedientes, que amarguram os dias dos seus Pais! Estes atraem sobre si, ainda nesta vida, as maldições de Deus, que são o prenúncio das maldições e castigos da outra vida. Maldito quem não honra seu Pai e a sua Mãe, diz a Sagrada Escritura! (p. 11).
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h17
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS IX
DOS DEVERES PARA COM OS PAIS
São em número de 18 os deveres que o Compêndio estabelece devem ter os filhos para com os seus pais:
1. Depois de Deus, é aos nossos Pais que somos mais devedores. Deus não se limita a prometer vida longa e benção nesta terra aos bons filhos, mas até ameaça com os rigores dos seus castigos os maus filhos, que descuram os seus deveres filiais. Tais deveres podem-se reduzir a dois: amor e respeito.
2. O primeiro dever para com os pais é amá-los. É este um sentimento natural, e seria desnaturado o filho que não o tivesse.
3. A primeira prova de amor para com os Pais é prestar-lhes obediência e submissão em tudo, salvo no que não for lícito. É intolerável grosseria e má criação responder aos Pais: “Não quero”. Nunca lhes diga tão feia expressão (p. 8).
4. Merecem repreensão os meninos que se mostram importunos e exigentes nos seus pedidos aos Pais. Fazem ainda pior os que mostram ressentimento, quando recebem uma negativa.
5. Ao contrário, como é louvável o procedimento d’aqueles filhos que em tudo se submetem, em tudo consultam aos Pais e isto com expressões delicadas, tais como: “Se é do seu agrado, papai; se a Senhora deseja, mamãe; se me dá licença etc”.
6. Evita tudo quanto direta ou indiretamente possa desgosta-los, como seria perturba-los em suas ocupações, tirar alguma coisa sem o seu consentimento, contradize-los, responder com maus modos. Procura, ao invés, fazer tudo quanto lhe possa dar gosto.
7. Não digas nunca a menor coisa que possa lesar a honra de teus progenitores; antes, nada deves dizer do que se passa em tua casa.
8. Evita toda expressão de desprezo, injúria, toda palavra arrogante, ressentida ou impertinente. No antigo Testamento Deus fulminou com palavras de morte os filhos que dissessem imprecações ou maldições aos próprios Pais.
9. Não deves manifestar os seus defeitos ou criticá-los, mas sim encobri-los, excusá-los, compadece-los. Infeliz do que se arvora em censor dos defeitos dos seus Pais! (p.9).
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h42
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS VIII
O conjunto de Deveres para com Deus apresentado no Compêndio de Civilidade aqui analisado é revelador da presença da Igreja Católica na vida social. Os mesmos ensinamentos aparecem nas aulas de religião, o que transforma o livro de boas maneiras dos padres salesianos em uma importante ferramenta didática, mesmo porque o catolicismo sempre fez uso de dispositivos como livros, revistas e impressos escolares em geral, para disseminar seus dogmas e preceitos. Contudo, observar tais regras apenas do ponto de vista teológico pouco acrescenta para o entendimento do processo civilizatório ao qual o homem está submetido.
O ensinamento dos Deveres para com Deus ultrapassa as meras regras de civilidade. Fica bem claro na primeira norma a importância de obedecer ao Criador para que se tenha uma vida digna e reta diante de Deus e dos homens. As duas primeiras regras são, ademais, compatíveis com o primeiro mandamento do Decálogo: “Amar a Deus sobre todas as coisas”. A pretensão é de acentuar o amor de Deus pelo seu povo e a dívida de gratidão que este deve ter para com Ele. O princípio de reconhecimento para com a maior das hierarquias, a divina, também está aí presente, mesmo porque a hierarquização fundamenta não apenas a vida religiosa, mas também a vida dos grupos sociais historicamente conhecidos. O Dever de número dois evidencia tarefas necessárias à validação do amor que o povo deve nutrir pelo seu Criador. Tudo articulado com o princípio da obediência.
O terceiro e o quarto Deveres para com Deus elencados pelos padres salesianos são correspondentes ao segundo mandamento mosaico: “Não falar seu santo nome em vão”. Aqui, a prescrição está colocada no âmbito da virtude e da fé religiosa. Pretende-se regular particularmente o respeito pelas coisas santas através do uso que se faz das palavras. A Igreja e os Estados sempre instituíram um padrão de fala como modelo civilizado. A importância de se regular o uso da fala consiste em assegurar os diferentes níveis de estratificação social, as formas corretas de falar e a legitimação dos saberes.
Articulados com o terceiro mandamento da lei de Deus (“Guardar domingos e festas”), os Deveres de números cinco e seis presentes no Compêndio de Civilidade, estão em consonância com a prescrição moral de prestar a Deus um culto exterior visível, público e regular. Como elemento cultural, esta moralidade é socialmente aprendida e está sujeita a diferentes etapas do processo civilizatório. Os padrões de moralidade e de religiosidade sofrem variações de acordo com as diferentes culturas. Toda religião possui padrões morais determinantes da sua constituição, evitando oscilações e aberturas interpretativas quanto aos seus ensinamentos.
Um ex-aluno do Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Aracaju, Laonte Gama da Silva, que freqüentou a escola na década de 40 do século XX e conheceu o Compêndio de Civilidade, afirma que “no colégio interno, o regime era muito rígido. O aluno era obrigado a rezar e ir à missa todos os dias. Aqueles que não cumpriam as obrigações religiosas eram mal avaliados em comportamento. E quem não tinha nota boa em comportamento, mesmo nos dias de sábado e domingo, recebia punições disciplinares” (SILVA, 2003). Das segundas-feiras aos sábados, a missa começava pontualmente às seis horas. No domingo, os alunos assistiam duas missas: a primeira começava às sete horas e terminava às sete horas e quarenta minutos. A segunda começava às oito horas e terminava às nove horas. Era a primeira atividade do dia. Às doze horas e quinze minutos, quando todos estavam no refeitório sentados para o almoço, um padre tocava uma campainha e antes de começar a comer, todos de pé, rezavam uma Ave Maria. Por quinze minutos os estudantes ficavam em silêncio e, em seguida, a um novo toque de campainha, todos diziam em coro: “Damos graças a Deus”. Às vinte horas, todos os alunos estavam prontos para dormir. Reunidos em um dos salões do internato, todos ficavam de pé e rezavam durante vinte minutos. Logo após, o padre diretor ou um outro designado por ele fazia uma prédica aos alunos acerca dos valores cristãos, exaltando a importância daquele dia no calendário da Igreja Católica. Por fim, desejava boa noite e os estudantes voltavam para os seus dormitórios.
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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h03
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AS BOAS MANEIRAS COMO VIRTUDE CRISTÃ: O COMPÊNDIO DE CIVILIDADE DOS PADRES SALESIANOS VII
DOS DEVERES PARA COM DEUS
Dos cinco primeiros capítulos do Compêndio, que tratam dos Deveres, a opção feita aqui foi a de analisar apenas dois deles: os capítulos I e II, que discutem, respectivamente, os Deveres para com Deus e os Deveres para com os pais. Os primeiros deveres apresentados pelo Compêndio de Civilidade são para com Deus. São seis prescrições que, de um modo geral, buscam sintetizar parte do conteúdo dos Dez Mandamentos contidos nas Tábuas da Lei de Moisés.
1. Deus, que é o Criador e Soberano Senhor de tudo quanto existe, merece todo o nosso respeito e toda a veneração. Consagra-lhe, pois, os melhores afetos de teu coração e tributa-lhe todos os dias a homenagem da oração, temendo sumamente ofende-lo.
2. Recorda-te que o temor de Deus é o princípio da sabedoria e a base da santidade; d’Ele emana todo o bem. Segue o conselho do bom Tobias a seu filho: “Pensa no Senhor todos os dias e guarda-te de pecar contra Ele e de transgredir os seus mandamentos”.
3. Ao respeito e amor devidos a Deus, acrescenta o amor e o respeito para com a sua religião e os seus ministros. Dos ministros de Deus ou fala bem ou então cala-te, como fazes com as pessoas que te são caras.
4. Evita discussões sobre religião. Tomar parte em tais questões, sem haver feito sérios estudos religiosos, pode prejudicar as boas causas e ofender a Deus e as coisas santas (p. 7).
5. Tolera as crenças religiosas dos outros, mas confessa sincera e francamente a tua Fé. Todos, mesmo os ímpios, admiram o homem de caráter, que não tem receio em mostrar-se francamente cristão.
6. Guarda-te de imprecar, ou mesmo de usar em vão o nome de Deus, da SS. Virgem, dos Santos, embora por gracejo ou por desabafo de ira, como nesciamente fazem alguns (p. 8).
Esse conjunto de prescrições assume claramente o caráter dos conteúdos existentes nos manuais catequéticos católicos. Dissemina valores e padrões instituídos pela Igreja Católica, a serem assumidos por aqueles que pretendem ser considerados pessoas de bem. Tem o mesmo caráter de civilidade existente no Decálogo, na condição de um conjunto de regras destinadas a guiar o povo de Deus. Aí estão contidas as bases de uma idéia muito cara aos educadores católicos: o que eles consideram a educação integral da pessoa. Essas regras, portanto, atenderiam a necessidade de formar o homem civilizado sem perder a perspectiva da missão evangelizadora. Elas tornam possível o crescimento espiritual e intelectual do homem.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h34
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