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O Escotismo e a formação moral IX
A lei do escoteiro recomendava que este fosse econômico e respeitasse o bem alheio. Também era possível estabelecer algum grau de paralelismo entre a lei escoteira e a lei mosaica. O décimo mandamento de Moisés prescrevia: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Êxodo, 20: 17). Os escoteiros ensinavam que o homem que gastava tudo quanto ganha ia a caminho da mendicância, enquanto o homem equilibrado não deveria ser perdulário nem avaro. Era preciso ter sempre uma reserva para poder socorrer aos que necessitavam e a si próprio nos momentos de adversidade.
Em nome da economia, o Escotismo pregou a necessidade de poupar ao menos 20 por cento do que se ganhava e fugir dos hábitos de fumar, beber e jogar. A prática do autocontrole, como propunha Baden-Powell, era uma possibilidade real de fortalecimento do caráter, mas, afirmava ele, também para obtenção de ganhos financeiros. Controlando o uso da bebida, do fumo e da comida[i] excessiva, e não se permitindo comprar extravagâncias caras, economizava-se o que nisto se gastaria, entendendo que as pequenas economias formavam, num longo período, um total que não deveria ser desprezado. Para Baden-Powell era fundamental que o jovem aprendesse a economizar o dinheiro desde o princípio, especialmente enquanto tinha muita disposição para o trabalho[ii].
O camarada que começa a ganhar dinheiro desde rapaz, vai continuar a fazê-lo depois de homem. Você pode achar isso difícil no princípio, mas será cada vez mais fácil depois. Se você começa e persiste, lembre-se, você estará com o sucesso praticamente garantido – especialmente se conseguir seu dinheiro por meio do trabalho duro. (...) Ganhar dinheiro compreende portanto varonilidade, trabalho duro e sobriedade[iii].
Ele entendia que trabalhar arduamente não significava trabalhar em excesso, já que trabalhar demais seria tão prejudicial quanto trabalhar pouco[iv].
O sucesso nos negócios dependia, sob a sua ótica, não da sorte ou de um dom, de um interesse ou de aprendizagem, mas sim de habilidade e caráter, uma vez que conhecimento e experiência eram levados em conta, mas para uma promoção aos cargos mais altos era essencial ter caráter, ser totalmente digno de confiança, ter um absoluto tato, e ter uma energia inesgotável de trabalho.
Todos esses princípios se coadunavam com o artigo 12 da lei escoteira adotada inicialmente pela UEB: “O escoteiro tem a constante preocupação de sua dignidade e o respeito de si mesmo”. Respeitar a si próprio significava, para tais prescrições, conter-se no pensamento e no uso da linguagem[v], fazendo diariamente, antes de deitar, um exame de consciência.
O escoteiro era um homem que respeitava a si mesmo e esperava o respeito dos semelhantes. Assim o homem que respeitava a si mesmo não necessitava vangloriar-se da riqueza; optava pela humildade ao invés de ostentar; preferia a reserva e não a propaganda; renunciava ao egoísmo fazendo sacrifício pessoal. Sob o método escoteiro, este era o homem preparado que colocava os interesses coletivos sobre os individuais, demonstrando coragem pessoal, fortaleza moral, lealdade, autodomínio e castidade.
Ademais, no Escotismo também estavam presentes elementos que eram caros ao discurso religioso de formação dos jovens. Difundida pelas religiões protestantes em todo o Ocidente desde o século XVI e muito fortemente no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, tal mensagem, como já visto neste trabalho, apresentava visíveis filiações ao discurso bíblico, principalmente no Pentateuco e na palavra de Cristo presente nos evangelhos e nas epístolas de São Paulo. Nos termos da interpretação que Enéas Martins Filho fez do projeto de Baden-Powell,
uma organização como a nossa faltaria em grande parte à sua missão, se não desse a seus membros uma noção religiosa, insistindo na necessidade de fazer do sentimento religioso do escoteiro, não uma religião de domingos e dias santos, mas um sentimento que deve perdurar toda a vida, ser vivido quotidianamente[vi].
Portanto, na ordem de valores importantes para o processo de formação moral que o Escotismo concebeu, o sentimento religioso foi o mais poderoso, o mais importante. Mas, este sentimento religioso foi tomado como um meio indispensável e não um fim da Educação escoteira. Seu aproveitamento se subordinou às mesmas regras que as demais técnicas do método escoteiro, sem que tivesse preponderância sobre qualquer das outras atividades.
A Pedagogia de Baden Powell se estabeleceu com uma compreensão de criança que fora sistematizada a partir da obra de Jean Jacques Rousseau. Como este, o inglês também colocou a criança no centro da sua teorização e ancorou-se sob o primado da instrução e da formação moral, a partir da imagem de infância elaborada e vigorante desde o século XVIII, na qual os meninos eram vistos como seres naturalmente bons, animados pela piedade, sociáveis e autônomos. Para isto, decidiu que na Pedagogia escoteira, como em outros métodos da Pedagogia Ativa, o estudo seria desenvolvido segundo a caracterização dos centros de interesse, que tinham na base a relação dos meninos com a natureza, vista como elemento predominante nas atividades econômicas e sociais.
[i] “A carne não é uma parte necessária na alimentação do homem. Por muito tempo vivi de nada mais que bananas e ervas”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 85.
[ii] “O único perigo para um superentusiástico trabalhador é tornar-se um escravo do trabalho e não dar a si mesmo a necessária quantidade de recreação e repouso. Por repouso não quero dizer ociosidade, mas mudanças de ocupação”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 88.
[iii] Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Escotismo para rapazes. Edição comemorativa do centenário do escotismo. Curitiba, União dos Escoteiros do Brasil, 2006. p. 280.
[iv] “Dar diariamente ao corpo o alimento e o sono de que ele necessita e, além disso, um pouco de diversão”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 90.
[v] “O homem digno, que se respeita, age sempre bem, embora ninguém o veja. Demonstra não respeitar-se o que é relaxado com a roupa e o corpo, porque esse aspecto externo é reflexo do seu desleixo moral”. Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 56.
[vi] Cf. MARTINS Filho, Enéas. “O escotismo como fator educativo”. In: Revista de Educação Física. Rio de Janeiro, ano 4, n. 23, maio 1935. p. 39.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h08
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CURSO – HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: CULTURAS ESCOLARES E ESTUDOS BIOGRÁFICOS
Data: 07 a 11 de abril de 2008 - Hora: 14 às 18 horas
Local: INSTITUTO DOM LUCIANO DUARTE
Ministrante: Profª Drª. ANAMARIA GONÇALVES BUENO DE FREITAS (Departamento de Educação/UFS) Público-alvo: Estudantes e interessados Inscrições: 31 de março a 04 de abril de 2008-03-06 Objetivos: 1. Compreender as funções da Cultura escolar para os estudos em História da Educação 2. Analisar as relações entre História Cultural e História da Educação Conteúdo: . Cultura escolar e História da Educação . História da Educação na perspectiva da História Cultural . Possibilidades metodológicas da pesquisa com fontes biográficas . Literatura e cultura escolar . A produção da História da Educação Metodologia: . Aula expositiva . Leitura e discussão de textos . Análise e interpretação de diferentes suportes da memória feminina Carga horária: 20 horas Vagas: 60 Inscrições: 31 de março a 04 de abril de 2008-03-06 Valor da inscrição (com direito a certificado): R$ 60,00 (Sessenta reais) R$ 30,00 (Trinta reais) para estudante Local de inscrição: Instituto Dom Luciano Duarte Rua Vereador João Calazans, 53 (Próximo ao Iate Clube de Aracaju) – Bairro 13 de Julho Horário: 8 às 12 horas e 14 às 18 horas Telefone: 3211 5872 BIBLIOGRAFIA: BURKE, Peter. A escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: Editora da Unesp, 1997. CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. FRAGO, Antônio Viñao e ESCOLANO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Trad. Alfredo Veiga Neto. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. GOFF, Jacques Lê. História e memória. 5ª ed. Campinas: Unicamp, 2003. JULIA, Dominique. “A cultura escolar como objeto histórico”. In: Revista Brasileira de História da Educação. Campinas: Editora Autores Associados, nº 1, Janeiro/Junho, 2001. LOPES, Eliane Marta Teixeira e GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. História da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de História da Educação. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003. (Coleção Educação é História 1). POMPÉIA, Raul. O Atheneu. 2ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971.
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h48
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O Escotismo e a formação moral VIII
Para Baden-Powell, o homem encontrava a felicidade mais perfeita e duradoura na compreensão humana e no serviço humanitário. Para compreendê-la e servi-la, o homem deveria ser justo e fugir do egoísmo[i]. Segundo ele, todos os conflitos, todo o crime, toda a opressão, tudo o que era odioso, hediondo e maldito, vinha dos feitos injustos de homens egoístas. Todas as delícias e bênçãos da arte, da poesia, da literatura, da amizade, da paz e do amor eram contribuições daqueles que serviam e amavam seus semelhantes – entendia o fundador do Escotismo.
Segundo Robert Baden-Powell, os princípios básicos da lei escoteira esvaziavam e eliminavam o ego e impulsionavam o avanço da boa vontade e da ajuda ao próximo. A prática das boas ações diariamente estava prevista pela lei do escoteiro, colocando o seu praticante sob a condição de uma espécie de cavaleiro do bem. A boa ação era a base da boa vontade futura, do auxílio a outrem. O seu fundamento era religioso. Era muito clara no projeto de Baden-Powell a trilogia Deus, pátria, próximo. Para ele, a religião resumidamente formulada significava reconhecer quem e o que era Deus, tirando o melhor proveito da vida[ii] que nos foi dada e fazendo o que o Criador queria que fizéssemos, principalmente algo pelas outras pessoas[iii].
Cumprir o dever para com Deus não consiste, unicamente, em inclinar-se face a Sua infinita bondade, mas em executar Sua vontade pela prática do amor a nossos semelhantes. E o curioso é que esta obrigação do serviço ao próximo através de boas ações é uma das coisas que os escoteiros executam com grande satisfação[iv].
Por isto, o Escotismo se propôs a auxiliar o ensino da religião através do exemplo pessoal do chefe escoteiro, do estudo da natureza e das boas ações. Nas palavras do seu fundador, a religião era uma coisa simples; bastava: 1º. - Ter confiança em Deus. 2º. Fazer bem aos outros. Assim, o movimento escoteiro adotou a suposição de que existiam muitas maneiras de prestar um serviço ao próximo diariamente.
Nas ruas, pode ajudar uma pessoa doente, cega ou idosa, a atravessá-la, ou ceder-lhe o lugar nos bondes; em casa ajudará os seus pais, os seus irmãos, e mesmo os seus criados, nos afazeres diários; no campo afastará das estradas e enterrará, as latas, os cacos de vidro, que podem fazer mal aos transeuntes e animais[v].
O escoteiro ajudava ao próximo, segundo Baden-Powell, sem aceitar recompensas, uma vez que sob a sua ótica um homem que aceitava gorjetas colocava-se tal como um pedinte que aceitava esmolas[vi]. Sob a sua pregação oferecer esmolas a pedintes e mendigos também seria uma prática condenável, que não deveria ser confundida com boa ação. Dar uma esmola a um mendigo seria muito fácil e reconfortante. Todavia, não era correto fazê-lo. O mendigo, muitas vezes, poderia ser alguém em condições de trabalhar, um farsante, e cada esmola recebia seria um estímulo para continuar agindo desta forma.
A jovialidade e o entusiasmo eram também prescritos pela lei do escoteiro, entendendo que o bom humor e a jovialidade ajudavam a vencer as grandes dificuldades da vida. O próprio Baden-Powell sintetizou o ideário presente na pregação moral do Escotismo:
A felicidade não vem da riqueza, nem do sucesso profissional, nem do comodismo da vida regalada e da satisfação dos próprios apetites. Um passo para a felicidade é, enquanto jovem, tornar-se forte e saudável, para poder ser útil e gozar a vida quando adulto. O estudo da natureza mostrará a vocês quão cheio de coisas belas e maravilhosas Deus fez o mundo para o nosso deleite. Fiquem contentes com o que possuem e tirem disso o melhor proveito. Vejam o lado bom das coisas, em vez do lado ruim. Mas o melhor meio para alcançar felicidade é proporcionando aos outros a felicidade. Procurem deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraram e, quando chegar a hora de morrer, poderão morrer felizes sentindo que pelo menos não desperdiçaram o tempo e que procuraram fazer o melhor possível[vii].
Cuidar dos animais era, para os escoteiros, não apenas uma das responsabilidades no cumprimento da sua boa ação diária, mas sim um princípio geral norteador da sua postura diante do mundo, se opondo a todo tipo de crueldade contra eles, partindo do pressuposto de que estes viviam e sentiam como os homens, que foram postos na terra por Deus e, assim, tinham o mesmo direito à vida que os homens.
[i] “Pratique o altruísmo, isto é, os outros primeiro”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 254.
[ii] “Uma vida mesmo cheia de dissabores... nunca precisa ser levada a se tornar desagradável, fria ou difícil”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 251.
[iii] Baden-Powell defendia a necessidade de ler este “velho e maravilhoso livro, o Livro da Natureza, vendo e estudando tudo o que puder das maravilhas e belezas que Deus criou e ela fornece para seu gozo. Em seguida volte sua mente para saber como melhor pode servir a Deus enquanto ainda tiver a vida que Ele lhe emprestou”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 192.
[iv] Cf. BADEN-POWELL. Guia do chefe escoteiro. Aids to Scoutmastership. Tradução de Leo Borges Fortes. 5 ed. Porto Alegre: Ed.Escoteira, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 95.
[v] Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 53.
[vi] “A gorjeta abre caminho, nas posições mais bem pagas, para as chamadas gratificações, e nos cargos mais elevados para o suborno e a corrupção”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 99.
[vii] Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Escotismo para rapazes. Edição comemorativa do centenário do escotismo. Curitiba, União dos Escoteiros do Brasil, 2006. p. 368.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 17h13
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O Escotismo e a formação moral VII
O entendimento em relação à formação do homem gentil era o de que os modos faziam o homem, de que o homem deveria ser cortês, deveria demonstrar deferência, compreensão humana e bom humor. Deste modo, o entendimento dos escoteiros era o de que, quando recebiam uma ordem deveriam cumpri-la alegre e prontamente e não de um modo lento e abjeto. Assim, deveriam fazer todos os trabalhos sem resmungar e nas adversidades não deveria haver motivo para queixa e lamentação. Pelo contrário, todos deveriam continuar sorrindo e assobiando[i].
Se seu adversário não sabe controlar seu temperamento, você o tem à sua mercê – isto é, se você ao mesmo tempo for capaz de controlar o seu temperamento. (...) Se você está com a razão, não tem necessidade de perder o controle; se não está com a razão, não se pode dar ao luxo de perdê-lo[ii].
Sorrir era uma recomendação recorrente de Baden-Powell aos escoteiros, afirmando que estes deveriam rir tanto quanto pudessem, entendendo que isso fazia bem. Assim, quando um escoteiro tivesse motivo para dar uma boa risada, aproveitaria e daria a risada. E faria também os outros rirem, sempre que possível, porque isto lhe faria bem.
Uma outra indicação da lei era a de que o escoteiro deveria tratar a todos como irmãos, sem distinção de classes sociais, reunidos sob a mesma bandeira, constituindo uma grande família, na qual negros, brancos, ricos e pobres pensassem, sentissem e vivessem para as mesmas aspirações, para os mesmos deveres. A irmandade escoteira não poderia deixar de influir em favor da paz futura do mundo. O movimento escoteiro estabeleceu, portanto, um ideário no qual não deveria ser dada qualquer
importância a diferenças de classe, nacionalidade ou credo. Todos são bem-vindos à nossa irmandade, bastando que aceitem nossa diretriz religiosa que se baseia simplesmente, como a maioria dos credos, no amor de Deus e no amor ao próximo. A forma em que se exprime isso pode ser deixada aos pais e aos pastores; não tem importância para nós, contato que esses princípios sejam expressos[iii].
Baden-Powell sugeria que, se um escoteiro encontrasse outro, mesmo que fosse um desconhecido, deveria lhe dirigir a palavra e ajuda-lo no que fosse possível, em qualquer coisa que ele necessitasse[iv]. Os mandamentos demonstravam que as práticas do Escotismo pretendiam cuidar não apenas da vida material, mas também do espírito, do encontro com Deus. No livro de Deuteronômio, Moisés determinou: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Deuteronômio, 6: 5). No Evangelho de São Mateus, Jesus Cristo afirmou: “Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22: 39). Este entendimento levou o Escotismo, desde o princípio a praticar a inclusão dos mais distintos grupos de pessoas, não estabelecendo qualquer restrição de acesso ao movimento para meninos portadores de necessidades especiais. Assim, foi muito comum desde o princípio a participação de escoteiros com dificuldades motoras, visuais, auditivas e de expressão oral. O próprio Baden-Powell recomendava práticas alternativas de adestramento para aqueles que tivessem dificuldade em alguma etapa do programa de adestramento do Escotismo:
Com muitos desses jovens não é fácil de se lidar e é preciso com eles muito mais paciência, atenção e cuidado pessoal, do que com os jovens comuns. Mas o resultado é bem compensador. Segundo testemunho de vários médicos, mães, enfermeiras e professores (que na maioria dos casos não são escoteiros eles próprios) é impressionante, o bem proporcionado pelo Escotismo a esses jovens e, por seu intermédio, às instituições respectivas. O que é maravilhoso, com relação a tais jovens, é sua satisfação e entusiasmo de fazer no Escotismo o máximo que possam. Eles não aceitam, das etapas e tratamentos especiais, mais do que o absolutamente necessário. O Escotismo ajuda-os, incorporando-os a uma ampla fraternidade mundial, oferecendo-lhes alguma coisa que fazer, proporcionando-lhes novas aspirações e dando-lhes uma oportunidade de provarem a si próprios e aos outros que podem fazer coisas – e coisas difíceis – por si mesmos[v].
Em setembro de 1926 chegou ao conhecimento de Baden-Powell a informação de que na Suíça havia sido criada uma divisão para escoteiros portadores de necessidades especiais. Esta prática se difundiu, inicialmente em países de língua francesa e depois se espalhou pelo mundo sob a denominação de “Escoteiros, apesar de Tudo”. Inicialmente esse tipo de trabalho foi realizado em Grupos Escoteiros específicos de extensão. Depois, verificando-se o efeito positivo junto aos demais integrantes das diversas seções, jovens portadores de necessidades especiais foram aceitos nas alcatéias e tropas.
Segundo o Guia do escoteiro, de qualquer desavença que houvesse não se deveria guardar o menor rancor, como nas brigas em casa com os irmãos, nas quais logo depois todos estavam esquecidos da desavença.. Desenvolvendo todo esse conjunto de qualidades, o escoteiro estaria, portanto, sempre disposto a ser generoso e valente, pronto a auxiliar os fracos, mesmo colocando a própria vida em situação de risco. Sendo generoso, demonstraria ter coração largo, aberto para sentir e atenuar o sofrimento do outro, mesmo com privação dos próprios desejos. Sendo generoso, seria capaz de perdoar as ofensas recebidas, sem guardar ressentimentos. A generosidade fazia com que o homem, quando vencedor, tratasse seus adversários com bondade, sem orgulho[vi].
[i] “Quando você perde um trem em cima da hora, ou alguém psia no seu calo favorito – se bem que um Escoteiro não deva ter calos ou coisas semelhantes – ou em qualquer outra situação desagradável você deve fazer força para sorrir imediatamente, e logo em seguida assobiar uma canção. Com isso você se sentirá perfeitamente bem”. Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Escotismo para rapazes. Edição comemorativa do centenário do escotismo. Curitiba, União dos Escoteiros do Brasil, 2006. p. 26.
[ii] Cf. BADEN-POWELL. Robert Stephenson Smyth. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 96.
[iii] Cf. BADEN-POWELL. Robert Stephenson Smyth. Lições da escola da vida: auto-biografia de Baden-Powell. Brasília: Editora Escoteira da UEB, 1986. p. 81.
[iv] “Um Escoteiro não deve ser nunca um soberbo, um ESNOBE. O esnobe é o que olha de cima para baixo, com desprezo, para outro, porque é mais pobre, ou que, sendo pobre, se mostra ressentido ou irritado pelo fato do outro ser rico. O escoteiro aceita as outras pessoas tais como são e faz delas o melhor juízo”. Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Escotismo para rapazes. Edição comemorativa do centenário do escotismo. Curitiba, União dos Escoteiros do Brasil, 2006. p. 25.
[v] Cf. BADEN-POWELL. Guia do chefe escoteiro. Aids to Scoutmastership. Tradução de Leo Borges Fortes. 5 ed. Porto Alegre: Ed.Escoteira, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 82.
[vi] “Para que eu possa agir sempre assim, é necessário que eu seja forte e tenha confiança em mim. Por isso eu evitarei os hábitos maus, como o fumo e o álcool , que deprimem e enfraquecem o organismo, e entregar-me-ei aos exercícios, à vida ao ar livre, que fortalecem”. Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 52.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h06
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III Congresso Internacional sobre Pesquisa (Auto) Biográfica (III CIPA)
http://www.ccsa.ufrn.br/cipanatal
Local: Natal-RN
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte promoverá, em 2008, o III Congresso Internacional sobre Pesquisa (Auto) Biográfica (III CIPA), no ano em que a instituição celebra os 50 anos de sua fundação e os 30 anos de criação do Programa de Pós-Graduação em Educação. Informações completas sobre o III CIPA no endereço eletrônico www.ccsa.ufrn.br/cipanatal
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h02
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O Escotismo e a formação moral VI
Assim, sob o plano educacional do Escotismo a religião cumpriu desde o início um papel da maior importância. Surgiram, desde 1910, tropas escoteiras que uniam os princípios da Pedagogia de Baden-Powell às regras, leis e dogmas da religião. As organizações de escoteiros católicos se constituíram inicialmente na Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Bélgica, Suiça, Luxemburgo e Brasil. Na Itália, os escoteiros católicos acataram a sugestão do Sumo Pontífice, desligando-se do Corpo Nazionale leigo e constituindo a Associazone Scaltistica Católica Italiana, chefiada pelo conde Mario de Carpegna. A mesma posição foi adotada pelos escoteiros católicos da Bélgica, França, Luxemburgo e Portugal. Os escoteiros brasileiros fundaram, em 1914, a Associação Brasileira de Escoteiros e optaram pela laicidade. Isto, contudo, não impediu que em 15 de novembro de 1917 fosse constituída a Associação de Escoteiros Católicos da paróquia de São João Batista da Lagoa, no Rio de Janeiro, por iniciativa do monsenhor André Arcoverde, do cônego Carlos Manso, de Edmundo Lynaldo, Rodolfo Melempré e João Peixoto da Fortuna. Os seus estatutos eram inspirados pelos da Organização Católica da Itália. Finalmente, em 1920, foi criada a Associação de Escoteiros Católicos do Brasil.
Internacionalmente, várias lideranças religiosas resistiram ao caráter universal e aos princípios ecumênicos do Escotismo. Para o movimento, todas as religiões eram reconhecidas como forma de satisfação das necessidades espirituais do jovem. Foi isto que levou os escoteiros católicos, sob o patrocínio da Igreja Romana a se separarem e fundarem o movimento escoteiro católico. Esta foi uma questão polêmica, considerada por muitas lideranças do Escotismo como incompatível com as bases universais do movimento escoteiro, uma forma de dissidência. A tensão em torno deste problema somente se reduziu em 1933, depois de uma audiência que o Papa Pio XI concedeu a Robert Baden-Powell, na qual Sua Santidade reconheceu oficialmente a importância educacional dos princípios do Escotismo.
A Educação seria, deste modo, o meio de formar o novo cidadão. O Escotismo mobilizou, além dos princípios religiosos, ideais democráticos que tinham o indivíduo como centro de interesse e a sociedade como objetivo-meio para o bem estar individual e a prosperidade social. Os objetivos do projeto de Educação gestado por Baden-Powell consistiam em ensinar o menino a amar a Deus, ao seu país e dedicar-se ao trabalho. A Pedagogia escoteira procurou unir fé e razão, com a missão de formar homens tementes a Deus e verdadeiros cidadãos. Essa era uma característica das propostas educativas daquele período que tinham o Cristianismo como pano de fundo. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, ao estudar o projeto dos protestantes presbiterianos norte-americanos no sertão da Bahia sublinhou o dístico presente no Instituto Ponte Nova: “Deus e Pátria aqui sempre lembrados”.
A aceitação da responsabilidade dos próprios atos, pregada pela lei do escoteiro dizia respeito a essa ética derivada da experiência, fazendo com que o homem compreendesse as conseqüências e os riscos daquilo que praticava. Assumia os méritos dos seus acertos e as responsabilidades das suas faltas[i]. Mesmo porque, uma outra prescrição da lei escoteira era a da lealdade. E um homem leal não traía, não fingia ser amigo se não o era. A palavra de um homem leal estava sempre coerente com o seu pensamento e as suas ações, pois o homem leal mostrava aquilo que era, não fazia críticas a ninguém quando o criticado estava ausente. O escoteiro, segundo Baden-Powell, deveria ficar ao lado dos seus em qualquer situação ou dificuldade, colocando-se contra todos os seus inimigos ou seus maldizentes.
No processo de formação moral do jovem a lealdade era vista como importante para a produção do caráter. Baden-Powell assinalou que quem exercia a liderança sentia os problemas provocados pela solidão e pela incerteza todas as vezes que necessitava contar segredos aos seus liderados, sendo obrigado muitas vezes a esconder deles a verdade. Muitas vezes o líder sentia que as circunstâncias estavam contra si, mas ficava impedido de revelar isto aos seus liderados, a fim de preservar a lealdade dos que o acompanhavam. O líder, em algumas ocasiões, tinha necessidade de esconder o pior dos seus liderados, sendo leal à causa pela qual estava trabalhando[ii]. Por isto, o fundador do Escotismo via a lealdade como o segredo do sucesso em qualquer trabalho difícil. A lealdade seria, portanto, uma qualidade muito preciosa, cultivada e mantida em qualquer circunstância por qualquer homem que tivesse desenvolvido o sentimento de honra. O líder precisava da lealdade de seus homens, mas deveria, igualmente, ser leal a eles, e era este o ponto ao qual se dava ênfase na lei escoteira quando esta afirmava: O Escoteiro é leal.
O homem leal era um homem de honra, que não admitia jamais ser chamado de mentiroso. Quando o homem leal e cortês perdia uma competição[iii] reconhecia a derrota e apertava a mão do adversário. A cortesia era sugerida pela lei do escoteiro como uma das suas principais características: tratar a todos com afabilidade, bondade e atenção. O escoteiro deveria ser amável para com todos – mas especialmente para com as mulheres e crianças e para com as pessoas idosas, inválidas aleijadas etc. E não deveria aceitar nenhuma recompensa por ter sido prestativo ou cortês. Assim, o Escotismo para rapazes ensinou algumas regras de comportamento que deveriam ser postas em prática na relação dos escoteiros com as mulheres:
Ao caminhar com uma mulher ou com uma moça, o Escoteiro deve sempre tê-la do seu lado esquerdo, a fim de manter seu braço direito livre para protegê-la. Esta regra é alterada quando passa nas ruas – nesse caso o homem deve caminhar do lado mais próximo do tráfego, para protegê-la contra acidentes, respingos de lama etc. Ao se defrontar com uma mulher ou uma criança, o homem deve sempre ceder o lugar, mesmo que para isso tenha de descer da calçada para a sarjeta. Também se viajar em um ônibus ou em trens superlotados, nenhum homem digno deste nome deixará uma mulher ficar de pé se ele estiver sentado. Cederá imediatamente o seu lugar e ficará de pé. (...) E deve fazê-lo alegremente, com um sorriso a fim de que a senhora ou moça não pense que você está aborrecido por proceder assim. (...) Se você estiver sentado e uma senhora entrar na sala, levante-se e veja se pode ser-lhe útil de qualquer forma antes de sentar-se novamente. Não perca seu tempo com nenhuma moça na companhia da qual você não gostaria de ser visto por sua mãe ou sua irmã. Não namore uma garota a não ser que você esteja em situação de sustentá-la e de sustentar alguns filhos[iv].
O autocontrole era tido como fundamental para formar o caráter, para formar o homem gentil, o homem capaz de controlar a si mesmo, sua cólera, seu medo, suas tentações, exceto sua consciência e sua vergonha. Este seria o ideal de homem gentil proposto por Baden-Powell, uma tradição da cultura inglesa que remetia ao projeto pedagógico concebido por John Locke ainda no século XVII. Para o fundador do Escotismo, a cortesia e a polidez recompensavam muito mais com a felicidade daquele que as praticava do que com o prazer daquele que as recebia.
O autocontrole era uma qualidade muito forte entre os britânicos, conhecidos pelos estrangeiros, como afirmava Baden-Powell, pela inclinação a esconder os sentimentos tão eficientemente que os estrangeiros muitas vezes os julgavam distraídos e indiferentes, mas reconheciam que eram dignos de confiança porque não perdiam a cabeça numa emergência. O homem gentil não se confundia com um tipo de janota, mas sim com o protótipo de homem civilizado do qual falou Norbert Elias. Um homem em cuja honra se podia confiar, que procedia corretamente em qualquer circunstância, que procurava ajudar ao próximo, que tinha possibilidade de enfrentar com sucesso as tentações. Qualidades cultivadas e que foram incorporadas à lei do escoteiro.
[i] “Quando eu reconhecer ter cometido alguma falta pela qual ninguém me possa punir, eu mesmo me punirei”. Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 51.
[ii] “Se for leal a si mesmo você sobe. Se se acovarda e cede, você cai, e cai também o seu respeito a si mesmo”. Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 98.
[iii] “Muito se obtém pela emulação, pelas competições. Mas é necessário que não haja exagero, que não se desperte um espírito de rivalidade que vá apagar todo o sentimento de cooperação entre os escoteiros”. Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 300.
[iv] Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. Escotismo para rapazes. Edição comemorativa do centenário do escotismo. Curitiba, União dos Escoteiros do Brasil, 2006. p. 268.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h03
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SOBRE O BLOG EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
Este blog tem a pretensão de ser um espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos científicos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase nos estudos sobre História da Educação, História da Cultura e História da Ciência. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe. O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA completou dois anos de atividades na rede Web no último dia 08 de dezembro de 2007. O primeiro texto publicado, em 08 de dezembro de 2005, foi um artigo escrito por Jorge Carvalho do Nascimento, tendo como título “A Colônia do Quissamã”. Durante 24 meses, o blog recebeu 67.051 visitas, das quais 21.717 nos primeiros doze meses e 45.334 no seu segundo ano. Assim, no primeiro ano de funcionamento o blog recebia uma média de 1.809 visitas por dia, número que se elevou para 3.777 visitas diárias no segundo ano, superando o dobro de visitas diárias, que eram 60 no primeiro ano e passou para 123 neste segundo ano de atividades. O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA mantém link para 90 outros importantes endereços brasileiros e estrangeiros da rede Web e nestes 24 meses de atividade publicou informações sobre 48 eventos nacionais e internacionais. Também foram publicados, nesse mesmo período, 596 textos sob a forma de artigo, 102 notícias e 28 resenhas bibliográficas. São 24 novos artigos a cada mês, além de 4 novas notícias, dois novos eventos e uma resenha bibliográfica inédita a cada 30 dias
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 22h59
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O Escotismo e a formação moral V
Sob o seu entendimento, o jovem não deveria se permitir que a ejaculação durante o sono fosse um estimulante da masturbação, que para ele constituía um abuso que o jovem praticava em relação ao próprio corpo. Os rapazes que assim procediam, entendia Baden-Powell, estavam fazendo mal a si mesmos, pois perdiam o próprio respeito, praticavam um ato imoral que não tinham condições de confessar aos pais ou às suas irmãs; tinham consciência de que praticavam algo degradante. Sob a sua visão, o sexo tinha uma finalidade reprodutora e o uso dos órgãos sexuais como fonte de prazer transformava-se em vício que continuava após a puberdade pela idade adulta, atrasando ou dificultando a solução sexual certa que ele via no casamento. Ademais, esse tipo de prática, segundo ele abusiva, servia para arruinar o casamento, uma vez que trazia para a relação conjugal costumes de imoralidade, de poligamia e de irresponsabilidade. Defendia que para um homem normal era perfeitamente possível manter a castidade até o casamento.
Além disso, o discurso médico do período condenava a prática do onanismo[i], por entendê-la como prejudicial à visão. Este era um vício que, para os médicos, exercia influência desastrosa sobre a saúde dos rapazes, traduzindo aquilo que era visto como uma moral pouco cultivada. Portanto, a religião era considerada um bom regulador das paixões e eficaz para o controle dos vícios.
Segundo Baden-Powell, era muito fácil a masturbação tornar-se um vício constante, capaz de levar a excessos difíceis de largar. Um vício que, em face do excesso de descargas freqüentes de esperma produzia, segundo ele, perda de memória, cansaço, desânimo, perda de peso, pouca resistência às infecções (inclusive a tuberculose) e diminuição do desenvolvimento corporal. Por isto, sob a sua ótica, a masturbação era um ato antinatural. Ele não deixava qualquer dúvida quanto a fonte das suas convicções, afirmando serem os homens membros de uma sociedade civilizada, governada por leis morais e convenções sociais. Desta forma, considerava as relações sexuais promíscuas proibidas por essas leis morais, estabelecendo um dilema: desejos primitivos versus leis morais e sociais. Sob o seu quadro de valores, masturbar-se era saciar o instinto sexual dando a si mesmo o sentimento de satisfação. Em outras palavras, era uma forma de amor a si mesmo ou narcisismo, na sua opinião raiz do homossexualismo. Para ele, a energia que os machos primitivos punham no sexo, entre os humanos deveria ser transformada em atividades como esporte, ciência e arte. Propunha como solução para este tipo de problema as práticas do Escotismo como boa leitura, excursões, acampamentos, boxe, caminhadas, futebol, remo, atletismo e outros divertimentos ao ar livre[ii]. Enfim, tudo que fosse útil para afastar o pensamento da libidinagem, do fumo, da bebida, do excesso de alimentação, das camas macias e quentes[iii].
As observações de Baden-Powell sobre a masturbação eram pertinentes à época, uma vez que naquele período esta ainda era uma prática condenada pelo saber médico e pela Psicologia. Todavia, alguns estudiosos já consideravam a prática da masturbação como parte dos processos de experimentação da adolescência, não havendo qualquer tipo de contra-indicação. Ainda durante a primeira metade do século XX, não mais se estabeleceria qualquer relação entre a masturbação e a saúde do adolescente, ou prejuízos à sua memória, como se acreditava anteriormente.
O saber médico que Baden-Powell incorporara censurava não apenas o onanismo masculino, mas também a masturbação praticada pelas mulheres. A intensa campanha de combate à masturbação na Inglaterra foi uma das marcas da era vitoriana. Naquele período surgiram vários rótulos moralistas para designar tal prática: vício solitário, auto-polução, auto-abuso. Essa era uma preocupação que manifestavam freqüentemente os pedagogos, os pais, os médicos e os ministros religiosos. Samuel Auguste André David Tissot, um médico e filósofo muito conhecido na França, amigo de Voltaire, publicou em 1758, um livro que fez grande sucesso: O onanismo. O trabalho ganhou sua versão inglesa no ano de 1832. O livro estimulou muito a campanha anti-masturbação. Nas décadas de 50 e 60 do século XIX era vasta a bibliografia inglesa de trabalhos que condenavam o auto-abuso. O mesmo aconteceu nos demais países do mundo, entusiasmando principalmente a literatura médica.
Foram muitos os antídotos que os médicos sugeriram: banhos quentes; duchas frias; colchões duros; roupas sensatas; longas caminhadas; alimentos sem tempero; calças sem bolsos; privadas sem portas;
uma tábua colocada transversalmente sobre a cama do menino, dividindo seu corpo em dois a fim de dificultar que as mãos ociosas atingissem o órgão executor da gratificação ilícita. Os mais imaginosos inventaram auxílios mecânicos para sustentar a causa da pureza: camisas-de-força, amarras, algemas ou anéis penianos com pequenas agulhas internas a fim de tornar dolorosa a ereção. Houve também algumas vezes coisa mais bárbara como as clitoridectomias para controlar as moças incapazes de controlar-se[iv].
Em 1912, cinco anos depois de haver Robert Baden-Powell fundado o movimento escoteiro, Freud chamou a atenção para o fato de que o tema do onanismo era praticamente inexaurível. Os psicanalistas da época consideravam a auto-satisfação prejudicial, afirmando que esta induzia sentimentos de culpa e atenuava o desejo por outros objetos de amor.
Para o método escoteiro, era fundamental ensinar ao jovem a indulgência na satisfação dos apetites, uma vez que considerava ser origem da falta de controle a centralização da atenção em desejos sensuais. Considerava que o homem deveria buscar abrigo em si mesmo, resistindo à correnteza, mantendo seus ideais, suas convicções, contendo o próprio ego, exercendo a autodisciplina, demonstrando capacidade de trabalho, habilidade, cavalheirismo, lealdade, sendo um bom cidadão.
Baden-Powell extraiu do protestantismo uma forma de conduta, um modo de vida, uma atitude mental que, sob a sua ótica, produziria a felicidade[v] para os homens. No Escotismo, Deus e o homem estavam interligados. A vida só teria sentido quando estivesse sujeita à Deus e à sua lei. De princípios religiosos fortemente arraigados no anglicanismo, Baden-Powell também transferiu para o Escotismo alguns elementos da tradição religiosa inglesa, como o culto a São Jorge, porque era, de todos os Santos, o único Cavaleiro. São Jorge era o padroeiro da Cavalaria e um santo de especial devoção na Inglaterra. Foi escolhido também como padroeiro dos Escoteiros. O dia de São Jorge, 23 de abril, foi considerado, internacionalmente, o dia do escoteiro.
[i] Referência ao crime de Onan, citado no livro do Gênesis. Onan, filho de Judá e neto de Jacob, sabia que os filhos que tivesse com Tamar, viúva de seu irmão Er, não teriam o seu nome. Por isto, expelia o sêmen sobre o solo. Cf. Livro do Gênesis, 38: 8,9. Bíblia Sagrada. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1990. p. 38.
[ii] “Para um puro prazer não há como o ar livre e a paisagem campestre”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 251.
[iii] “Mantenha-se limpo por dentro e por fora, lavando-se diariamente, e nadando se puder. A falta de cuidado em manter diariamente limpo o pênis, principalmente no sulco entre a glande (cabeça) e a dobra da pela que é o prepúcio, pode provocar ligeira irritação que conduz à falsa excitação. Por essa razão higiênica a fimose (ter a abertura do prepúcio tão apertada que não permite descobrir facilmente a glande e o sulco) deve ser operada. Também a prisão de ventre com as fezes retidas comprimindo as vesículas seminais e a próstata e, pelas mesmas razões, a bexiga cheia de urina, produzem falsas excitações que podem ser facilmente combatidas”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 124.
[iv] Cf. GAY, Peter. O século de Schnitzler: a formação da cultura de classe média (1815-1914). Tradução S. Duarte. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 168.
[v] “Faça os outros felizes e você se sentirá feliz. Reconheça o lado bom naquilo que tiver conseguido, o lado divertido da vida, as glórias, maravilhas e belezas da Natureza. Afogue a ambição pessoal”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 254.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h04
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DOIS ANOS DE EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
Neste oito de dezembro de 2008 o blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA completou dois anos de atividade ininterrupta. Durante 24 meses, o blog recebeu 67.051 visitas, das quais 21.717 nos primeiros doze meses e 45.334 no seu segundo ano. Assim, no primeiro ano de funcionamento o blog recebia uma média de 1.809 visitas por mês, número que se elevou para 3.777 visitas mensais no segundo ano, superando o dobro de visitas diárias, que eram 60 no primeiro ano e passou para 123 neste segundo ano de atividades.
O blog tem a pretensão de ser um espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos científicos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase nos estudos sobre História da Educação, História da Cultura e História da Ciência. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe. O primeiro texto publicado, em 08 de dezembro de 2005, foi um artigo escrito por Jorge Carvalho do Nascimento, tendo como título “A Colônia do Quissamã”.
O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA mantém link para 90 outros importantes endereços brasileiros e estrangeiros da rede Web e nestes 24 meses de atividade publicou informações sobre 48 eventos nacionais e internacionais. Também foram publicados, nesse mesmo período, 596 textos sob a forma de artigo, 102 notícias e 28 resenhas bibliográficas. São 24 novos artigos a cada mês, além de 4 novas notícias, dois novos eventos e uma resenha bibliográfica inédita a cada 30 dias
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h02
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I ENCONTRO DE HISTÓRIA DO IMPÉRIO BRASILEIRO: Múltiplas visões - Cultura histórica no Oitocentos
http://www.ufpb.br
Data: 24 a 27 de setembro de 2008
Local: João Pessoa - PB
Promoção do Programa de Pós-Graduação em História UFPB e dos Grupos de Pesquisa: História da Educação na Parahyba Imperial e Sociedade e Cultura no Império. PROGRAMAÇÃO PRELIMINAR 1º DIA (24/09/08) CREDENCIAMENTO - das 14:00 às 17:00 CONFERÊNCIA DE ABERTURA - às 19:00 - Manoel Luiz Salgado Guimarães (UERJ/UFRJ) 2º DIA (25/09/08) MINI-CURSOS - das 08:00 às 10:00 MESA REDONDA: das 10:30 às 12:00 1. IMPRENSA, IMPRESSOS E PRÁTICAS DE LEITURA: Socorro de Fátima Pacífico Barbosa (PROLING/UFPB), Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas (NPGED/UFS), Maria Arisnete Câmara de Morais (PPGE/UFRN). COMUNICAÇÕES - das 14:00 às 17:30 MESA REDONDA: das 18:00 às 19:30 - INSTRUÇÃO E CULTURA ESCOLAR: Antonio Carlos F. Pinheiro (PPGE/PPGH/UFPB), Jorge Carvalho do Nascimento (NPGED/UFS) Maria Inês Sucupira Stamatto (PPGE/UFRN). ATIVIDADE CULTURAL - LANÇAMENTO DE LIVROS - NOITE (20:00) 3º DIA (26/09/08): MINI-CURSOS - das 08:00 às 10:00 h MESA REDONDA - das 10:30 às 12:00 h - ESCRAVIDÃO, TRABALHO LIVRE E POBREZA: Solange Rocha (UEPB), Marc Hofnagel (PPGH/UFPB), Luciano (UFCG) MESA REDONDA: das 18:00 às 19:30 - PODER, POLÍTICA E CONSTRUÇÃO DO ESTADO NACIONAL: Rosa Godoy (PPGH/UFPB), Lina Aras, Socorro Ferraz COMUNICAÇÕES - das 14:00 às 18:00 h ATIVIDADE CULTURAL - LANÇAMENTO DE LIVROS - NOITE (19:00 h) 4º DIA (27/09/08): MINI-CURSOS - das 08:00 às 10:00 h CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO – às 10:30 h - Diana Gonçalves Vidal (USP) ATIVIDADE CULTURAL – Visita à cidade de João Pessoa e arrabaldes. COMISSÃO ORGANIZADORA: Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas - NPGED/UFS Cláudia Engler Cury - PPGH/PPGE/UFPB Mauricéia Ananias - PPGE/UFPB Serioja Mariano - PPGH/ UFPB Socorro de Fátima Pacífico Barbosa - PROLING/UFPB Dilton Oliveira Araújo - PPGH/UFBA COMITÊ CIENTÍFICO: Antonio Carlos Ferreira Pinheiro - PPGH/PPGE/UFPB Jorge Carvalho do Nascimento - NPGED/UFS Rosa Godoy - PPGH/UFPB Durval Muniz - PPGH/UFRN Lina Aras - PPGH/UFBA José Ernesto Pimentel - PPGH/PPGCJ/UFPB Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento (UNIT) (Universidade Tiradentes – Aracaju-SE) COMITÊ DE APOIO: Cristiano de Jesus Ferronato/PPGE Guaraciane Lima /PPGH Naiara Ferraz /DH Carmelo Ribeiro Filho/ DH Paulo Henrique/DH MONITORES: Mariana Teixeira Itacyara Marcio Macêdo Moreira Rossana Cardoso de Araujo Ronaldo Duarte da Silva Maiara Ateciene dos Belo Solange Rocha - UEPB COMISSÃO DE EDITORAÇÃO: Carla Mary S. Oliveira - PPGH/ UFPB Carlos Adriano Ferreira de Lima – mestrando do PPGH. Andreza de Oliveira – mestranda do PPGH. PROPOSTAS DE EIXOS TEMÁTICOS (MÍNIMO DE 10 E MÁXIMO DE 30 INSCRIÇÕES POR EIXO) 1: INSTRUÇÃO E CULTURA ESCOLAR 2: PODER, POLÍTICA E CONSTRUÇÃO DO ESTADO NACIONAL 3: IMPRENSA, IMPRESSOS E PRÁTICAS DE LEITURA 4: ESCRAVIDÃO, TRABALHO LIVRE E POBREZA 5: FESTAS, VIDA COTIDIANA E RELIGIOSIDADES 6: POVOS INDÍGENAS 7: ESPAÇO, TERRITORIALIDADES E FRONTEIRAS 8. MEDO, INTOLERÂNCIA E VIOLÊNCIA PROPOSTAS PARA MINI-CURSOS: ABERTO AO PÚBLICO Os proponentes de mini-curso devem apresentar ementa, programa com bibliografia e metodologia de trabalho. COMPOSIÇÃO DAS MESAS: PERNAMBUCO; PARAÍBA; BAHIA; RIO GRANDE DO NORTE; PIAUÍ; CEARÁ; SERGIPE CRITÉRIO DO EVENTO: ENCONTRO VOLTADO PARA GRUPOS DE PESQUISA, ALUNOS E PROFESSORES INTERESSADOS NO PERÍODO IMPERIAL. PERÍODO DE INSCRIÇÃO (as inscrições serão feitas on-line): Inscrição de Resumos: de 24 de março a 02 de maio. 02 de junho – prazo final para os avaliadores analisarem os resumos. Envio de Proposta de Mini-Curso: 24 de março a 02 de maio. Divulgação dos resultados: 09 de junho dos trabalhos e mini-cursos aprovados. Inscrições para mini-curso: a partir de 21 de julho até a data do encontro se houver vaga. Prazo máximo para envio do texto completo: 21 de julho de 2008. TAXA DE INSCRIÇÃO: R$ 15,00 - estudante de graduação + R$ 10,00 mini-curso [até 10 de junho] R$ 25,00 - aluno de pós-graduação e professores da rede +R$ 10,00 mini-curso [até 10 de junho] R$ 50,00 – profissionais [até 10 de junho] US$ 30,00 - pesquisadores/ estudantes de instituições estrangeiras [até 10 de junho] A partir de 10 de junho os valores passam para: R$ 25,00 - estudante de graduação + R$ 10,00 mini-curso R$ 35,00 - aluno de pós-graduação e professores da rede +R$ 10,00 mini-curso R$ 55,00 – profissionais US$ 35,00 - pesquisadores/ estudantes de instituições estrangeiras
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h00
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O Escotismo e a formação moral IV
Baden-Powell também condenava o tabagismo[i] e dizia que quase todo o garoto em idade de crescimento que fumava era um descontente, um preguiçoso, que não parava em nenhum emprego, que não tinha interesse nem ambições, que era nervoso e não tinha ânimo. Na verdade, o Escotismo não proibia o fumo de modo explícito, mesmo porque Baden-Powell considerava perigoso proibir algo aos jovens, posto que na sua opinião isto imediatamente os excitaria à aventura, a fazer justamente o contrário do que lhes foi determinado. Costumava afirmar que as proibições incitavam à prática do mal. A opção do Escotismo era sempre a de desqualificar a prática que procurava coibir. Fumar e beber eram práticas vistas como péssimos hábitos que concorriam fortemente para arruinar a saúde de uma criança, prejudicando várias funções e sentidos. No seu Guia do escoteiro, Benjamin Sodré apontava, em 1925, várias contra-indicações do fumo, sugerindo que este atacava o aparelho digestivo, produzia uma diminuição dos sucos gástricos, estragava os dentes, provocava câncer, agravava a tuberculose, produzia afecções no nariz e garganta, abalava os nervos, fazia perder a memória e a inteligência.
Para encontrar a felicidade, o jovem deveria buscar atingir os ideais elevados que, como entendia Baden-Powell, o conhecimento da natureza, das suas maravilhas, das suas belezas, do reconhecimento do Deus criador poderiam proporcionar. Da mesma maneira, buscar a felicidade através do serviço ao próximo, do auto-sacrifício pelos outros, do desenvolvimento daquilo que o fundador do Escotismo afirmava ser o divino amor existente dentro de cada um dos homens. Vencer na vida seria afirmar as qualidades morais, práticas e pessoais. As qualidades morais expressar-se-iam pela capacidade de trabalho, pela saúde e aparência e pela perseverança. Demonstrando a sua capacidade de trabalho o jovem seria capaz de executar as suas tarefas até o final; cuidando da saúde e da aparência, procuraria dormir adequadamente[ii], praticaria exercícios físicos, zelaria pela sua roupa e demonstraria temperança em todas as coisas; perseveraria sempre continuando nas suas atividades e tentando de novo sempre que se equivocasse. As qualidades práticas expressar-se-iam pela paciência[iii], pela observação, pelo tato e pela concentração e entusiasmo. Afirmando a sua paciência, o jovem seria tolerante para com as falhas dos outros; observando, ele aprimoraria a capacidade de utilizar os olhos e os ouvidos; exercitando o tato, aprenderia a falar apenas o que deveria ser dito e sempre na hora oportuna; pela concentração, faria uma coisa de cada vez e muito bem feita. As qualidades pessoais expressar-se-iam através da memória, do conhecimento e da honra. O jovem utilizaria a memória lembrando das coisas importantes; o conhecimento exigido seria o de si mesmo e o da sua profissão; e, a honra seria observada através das manifestações de honestidade.
Um ponto muito importante na pregação moral de Baden-Powell aos jovens era o que tratava da relação entre homens e mulheres. Tudo que dizia respeito ao conjunto de práticas relativas a sexualidade humana, desde a continência até a higiene sexual era tido como muito importante pelo movimento escoteiro. Ao discutir a necessidade de que também se exercesse controle sobre os instintos sexuais, dizia que enquanto a maioria dos animais tinha uma clara e definida estação de acasalamento, no homem, o instinto da reprodução estava sempre agindo, desde a puberdade, isto é, da passagem da infância para a idade viril, sem que estivessem definidas estações ou épocas de acasalamento. Os ciclos de menstruação das mulheres eram devidos a maturação dos óvulos no organismo, mas, afirmava o fundador do Escotismo, eram distintos dos períodos de cio definidos para as demais fêmeas do reino animal. A partir desse diagnóstico prescrevia uma série de conselhos a respeito do comportamento que o jovem deveria seguir acerca das próprias reações e desejos sexuais e da relação que mantinha com as mulheres. O sexo era visto como universal em todas as formas de vida, não havendo nele qualquer pecado, mas surgindo este através do mau uso das práticas sexuais. Abusos responsáveis por incômodos como a promiscuidade sexual, a prostituição e as doenças venéreas.
O Escotismo propunha uma espécie de ordenamento moral, atuando principalmente por meio da manipulação e do controle dos impulsos. Segundo Judith Zuquim, esse tipo de metodologia era fortemente influenciado pelos trabalhos de Stanley Hall[iv]. Após experimentar o seu método com jovens, Hall publicou um livro, em 1904: Adolescência. No trabalho, defendeu a idéia de que esse período correspondia à época da vida situada entre a selvageria e a civilização. E para socializar a adolescência propunha que as pessoas dessa faixa etária fossem estimuladas ao aprendizado do controle dos impulsos. Os primeiros manuais escoteiros norte-americanos receberam forte influência da Psicologia de Hall. De acordo com a Psicologia de Hall, a puberdade despertava bruscamente os desejos sexuais. Por isto, era necessário investir fortemente na formação do caráter, através da regulação dos sentimentos e emoções.
O casamento, segundo Baden-Powell, deveria acontecer apenas quando o homem estivesse apto, são e capaz de gerar filhos sadios, acrescentando que uma parte da responsabilidade dos pais era ensinar aos filhos como crescerem sadios. Todavia, as pessoas não se preparavam para o exercício da paternidade. O método escoteiro definia que as crianças aprendessem principalmente pelo exemplo[v]. Portanto, era necessário treinar os filhos por meio do amor e não pelo medo, pois, afirmava Baden-Powell, pais bondosos ganhavam filhas amorosas e filhos devotados. Assim, era fundamental a escolha da mulher para o casamento, ensinando que o jovem estava no caminho certo se só namorasse moça que pudesse levar para a sua casa, sem se sentir envergonhado quando ela estivesse entre sua mãe e suas irmãs. Principalmente quando esse homem, conforme ensinavam as prédicas morais de Baden-Powell, buscasse ser tão puro quanto a moça que ele estava procurando para casar.
[i] “Alguém me perguntou: ´Qual é a determinação que proíbe aos Escoteiros fumar?´ Respondi que não havia nenhuma proibição, mas que todo o Escoteiro sabe que o rapaz que fuma é um tolo e que temos no Movimento uma lei não escrita que diz: ´O Escoteiro não é tolo´”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 82.
[ii] “Dormir demais é outra falta de controle que as pessoas raras vezes consideram como tal”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 85.
[iii] “A paciência é o segredo do sucesso em qualquer carreira”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 254.
[iv] Psicólogo norte-americano que, após a realização de estudos na Alemanha, dedicou-se a pesquisar a infância. Cf. ZUQUIM, Judith. Infância e crime na História da Psicologia no Brasil: um estudo de categorias psicológicas na construção histórica da infância criminalizada na Primeira República. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2001. (Tese de Doutorado orientada pela Profª. Drª. Iray Carone). p. 112.
[v] “Você pode transmitir as aspirações mais certas e as atividades mais sadias que basicamente irão ensinar ao rapaz a remar a sua própria canoa e estará em situação de alertá-lo sobre os escolhos que encontrará no seu caminho”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 256.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h06
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Infancia y cultura visual
SZIR, S. M.: Infancia y cultura visual. Los periódicos ilustrados para niños (1880-1910). Prólogo de J. E. Burucúa. Buenos Aires: Miño y Dávila editores, 2007, 190 págs. (ISBN 978-84-96571-44-0)
Desde una aproximación histórico-cultural, y utilizando como indicadores tres publicaciones periódicas para la infancia, en este libro se analiza la primera fase de producción masiva de objetos culturales en Argentina. En el primer capítulo –La ilustración infantil, 1886-1887– interesa resaltar el papel de esta revista como difusora no tanto de un tipo de conocimientos como de una conciencia moral que, como se indica en la página 57, “está por encima de las posibles nociones dicotómicas de Estado o Iglesia.” En el segundo –Diario de los niños, 1898– se ponen de relieve las posibilidades educativas ofrecidas por imágenes que, ahora y lentamente, llegan a la escuela a través de una generación de textos escolares en los que se defiende una nueva enseñanza realista o de cosas. En el tercer capítulo –Pulgarcito, 1904– la autora estudia el uso de la imagen en un contexto de grandes cambios socio-culturales y tecnológicos en el que, junto a la finalidad formativa, irrumpe con fuerza otra de carácter ocioso o de entretenimiento vinculada en muchos casos al consumo de productos muy diversos dirigidos a una clientela que, sin dejar de tener rasgos propios de las clases acomodadas que vivían en las zonas urbanas argentinas, iba adoptando pautas similares a las existentes en Europa o en los Estados Unidos. El enfoque genérico y las ideas apuntadas al inicio y al cierre de esta obra posibilitan su inclusión entre los diversos estudios que, desde variadas perspectivas, se han preocupado por aclarar el nacimiento de la niñez como categoría social.
Alberto Luis Gómez
Departamento de Educación
Universidad de Cantabria
Edificio Interfacultativo, despacho 335
Avda. de los Castros, s/n
E-39005 Santander
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Categoria: Informação bibliográfica
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 10h34
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BRASIL-ESTADOS UNIDOS: ENCONTROS E DESENCONTROS - Seminário anual 2008
http://jorge.carvalho.zip.net
Data: 29 de fevereiro a 19 de dezembro de 2008 - Hora: 09:00
Local: Auditório do Arquivo do Poder Judiciário do Estado de Sergipe
O diálogo cultural Brasil-Estados Unidos é o ponto central de articulação deste seminário. As relações entre a cultura brasileira e a norte-americana, durante o século XX, foram objeto de uma grande quantidade de críticas. A contundência desse tipo de crítica tem resultado num julgamento apressado das relações culturais Brasil-Estados Unidos e das contribuições da cultura norte-americana à cultura brasileira. A sistemática deste evento consistirá na realização das reuniões mensais nas quais serão apresentadas e debatidas as principais obras que circulam no Brasil tratando desta temática. O seminário destina-se aos membros do grupo de pesquisa e também a todos aqueles que queiram participar dos debates. CRONOGRAMA DAS ATIVIDADES 29.02.2008 – NASCIMENTO – Ester Fraga Vilas-Boas Carvalho do. Educar, currar, salvar: uma ilha de civilização no Brasil tropical. Maceió: Edufal, 2007. Apresentador: Profª. Drª. Ester Fraga Vilas-Boas Carvalho do Nascimento (Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes). 28.03.2008 – NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. A cultura ocultada ou a influência alemã na cultura brasileira durante a segunda metade do século XIX. Londrina: Eduel, 1998. Apresentador: Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe). 25.04.2008 – VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. 2ª ed. Brasília: Editora da UnB, 1980. Apresentador: Prof. Joaquim Tavares da Conceição (Mestre em Educação – UFS e professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe). 30.05.2008 – GUIMARÃES, Archimedes Pereira. Três viagens aos Estados Unidos. Belo Horizonte: s/ed., 1966. Apresentador: Profª. Simone Amorim (Mestre em Educação – UFS). 27.06.2008 – NUNES, Clarice. Anísio Teixeira: a poesia da ação. Bragança Paulista: Edusf, 1998. Apresentador: Profª. Drª. Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas (Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe). 25.07.2008 – DA MATTA, Roberto. Tocquevilleanas: notícias da América. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. Apresentador: Prof. Dr. José Rodorval Ramalho (Núcleo de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe). 29.08.2008 – MORSE, Richard. O espelho de próspero: cultura e idéias nas Américas. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Apresentador: Prof. Dr. Luiz Eduardo Menezes Oliveira (Departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe). 26.09.2008 – GOLDMAN, Frank. Os pioneiros americanos no Brasil: educadores, sacerdotes, covos e reis. São Paulo: Pioneira, 1972. Apresentador: Profª. Vera Maria dos Santos (Mestre em Educação – UFS e Técnica em Educação do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe). 31.10.2008 – JAMES, William. O Pragmatismo. São Paulo: Martin Claret, 2004. Apresentador: Profª. Drª. Dinamara Garcia Feldens (Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes). 28.11.2008 – MILLS, Wright. Sociologia y Pragmatismo. Buenos Aires: Ediciones Siglo Veinte, 1978. Apresentador: Prof. Antônio Samarone de Santana (Mestre em Sociologia – UFS e professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Sergipe). 19.12.2008 – WEBER, Max. Sobre a universidade. São Paulo: Cortez, 1989. Apresentador: Prof. Dr. Franz Brüseke (Núcleo de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe). Os interessados em participar do Seminário devem solicitar inscrição encaminhando mensagem para o endereço eletrônico jorge@ufs.br, informando nome completo e formação acadêmica.
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 10h33
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O Escotismo e a formação moral III
Ao pregar a obediência, o Escotismo falava em difundir no jovem uma consciência a respeito do interesse geral, coletivo, do bem comum. A idéia fundamental era a de que todos necessitavam estar conscientes das suas limitações, assumindo a disciplina como necessidade[i]. Na década de 20, dirigindo-se às bandeirantes e abordando esta questão, Baden-Powell afirmou: “procure pensar antes de agir, perguntando a si mesma: Deus aprovaria minha conduta? Se a sua consciência responder sim, continue; se responder não, pare. Não será difícil levar uma vida direita e pura, se você se lembrar de que primeiro é preciso pensar, para depois agir”[ii].
Mesmo quando o escoteiro recebia uma ordem que não lhe agradava, deveria cumpri-la, porque este era o seu dever. Depois de cumprida a ordem, ele poderia voltar e apresentar as razões que tinha contra a ordem dada. A Pedagogia escoteira entendia que este tipo de consciência era transmitido aos meninos através do exemplo dos chefes, dos seus pais e professores, posto que considerava fundamental não apenas a obediência em si, mas que tal obediência fosse obtida através da autodisciplina do espírito. A compreensão de Baden-Powell era a de que a Educação do jovem não poderia ser transformada numa batalha entre o código dos professores e o código dos meninos, entendendo que por tal caminho poucos se submeteriam, enquanto a maior parte persistiria em rebelião.
A Pedagogia do Escotismo apanhou de Rousseau a idéia de que a formação do homem requeria o estabelecimento de limites, uma vez que os valores morais não podiam ficar abandonados, pois isto aprisionaria o próprio homem ao invés de libertá-lo. Era a partir desse pressuposto que o método escoteiro delimitava o seu nível pedagógico, ligando a lei à promessa, para obter efetividade. Através da Promessa, o rapaz se comprometia. Isto era a essência do ato voluntário, do significado da lei.
Contudo, em Baden-Powell, a fixação dos valores morais e o estabelecimento dos padrões disciplinares não podiam ser obtidos através do castigo físico imposto ao menino, mas através de atividades que substituíssem os maus hábitos por ocupações que absorvessem a sua atenção e gradualmente o fizesse esquecer e abandonar os velhos costumes. A moral, o civismo, as obrigações para com o próximo, não eram inculcados em discursos ou aulas, mas, nos termos da proposta do fundador do Escotismo, praticados em experiências reais ou tão próximas quanto possível da realidade da vida. Para o fundador do Escotismo, não era bastante ter lido um livro sobre determinado assunto e julgar que já sabia o que deveria fazer. Era preciso aprender fazendo.
Assim, quando a lei escoteira pregava a obediência, este princípio estava articulado diretamente com um outro: a idéia de que o escoteiro era um homem de iniciativa. O homem de iniciativa não necessitava que ninguém o estimulasse para agir, pois ele pensava, decidia e fazia. Pensava, decidia e agia por si mesmo, vencendo com inteligência os obstáculos que se opusessem a qualquer empreendimento que houvesse decidido executar, de modo a levá-lo até o final. Esta era a proposta dos métodos da Educação Ativa, era o que pregava a Escola Nova, era a formulação do Pragmatismo norte-americano. Um homem poderia pensar muito bem e resolver, mas não executar o que resolveu. Destes o mundo estava cheio. Iniciativa apenas idéia, pouco valia. Era preciso pensar, resolver e executar.
No Escotismo, todas as atitudes do jovem, todas as pulsões psicofísicas, eram rigorosamente controladas. Como verificou Max Weber, ao estudar o surgimento do capitalismo, não era a doutrina ética, mas a forma de conduta ética à qual eram atribuídas recompensas que importava. E essa conduta constituía o ethos específico de cada pessoa, no sentido sociológico da palavra. Tal conduta era um certo modo de vida, metódico, racional. As recompensas eram atribuídas aos que se provavam perante os seus companheiros de Escotismo e, conseqüentemente, perante o grupo social no qual o indivíduo se achava inserido.
A maior das recompensas era a oportunidade de participar em atividades atraentes, progressivas e variadas, a partir de um programa previamente planejado pelos chefes, com a participação dos jovens, moças e rapazes, desenvolvendo uma
combinação de atividades variadas voltadas para as necessidades e interesses do grupo e do indivíduo. Os jogos, a vida ao ar livre em contato com a natureza, a utilização de técnicas úteis à prática de acampamentos, a aprendizagem de outras habilidades que o jovem deseje aprender, a interação com a comunidade, a mística que permeia as seções e o ambiente fraterno, tudo isso, envolve o jovem e o convida ao aprendizado com prazer e significado[iii].
A formação moral, contudo, enfrentava ameaças colocadas aos homens do início do século XX que preocupavam Baden-Powell, como o cinema. Uma das tentações mais poderosas era o cinema. Os filmes exerciam uma enorme influência sobre os jovens e não eram poucas as pessoas que estavam preocupadas para descobrir como afastar o jovem das salas de cinema. Porém, o fundador do Escotismo não tomava o cinema como sendo de todo ruim e afirmava que o problema consistia em encontrar o melhor modo de utilizar tal meio para a finalidade de formar moralmente a juventude. Por isto, defendia que o cinema fosse previamente censurado, a fim de evitar que se constituísse num instrumento de maus exemplos e péssimas sugestões. Na sua opinião, os filmes poderiam servir como armas do bem ou do mal. Reconhecia a existência de filmes de boa qualidade sobre História Natural e observação da natureza, bem como outros que condenavam o mal.
A temperança em relação ao uso da bebida era vista por Baden-Powell como fundamental para a Educação do jovem. Para ele, esta era uma rocha de dois lados. O seu lado escuro era a tentação de satisfazer os próprios apetites. O lado iluminado era o fato de exercer o domínio dos desejos, ganhar mais fortaleza de caráter e um maior prazer de viver. Evitar o álcool seria fundamental para manter a boa forma física, o que colaboraria para o autocontrole e a longa vida[iv], considerando ser o autocontrole o fator principal do caráter. O Escotismo ensinava os cuidados com a saúde, ensinava a ser prudente, ministrava os conhecimentos práticos de higiene pessoal e coletiva, inspirava aversão em face de hábitos como álcool, o fumo e todos os excessos, evitando a intemperança. O álcool foi apresentado pelos livros sobre Escotismo como um vício que arruinava fisicamente e moralmente o homem. De acordo com Benjamin Sodré,
os filhos dos alcoólicos são, na maioria, imbecis. O escoteiro é um homenzinho que deve pensar seriamente na sua vida. Que tremendo castigo para as extravagâncias de um rapaz quando mais tarde, chefe de família, sentir-se o responsável pela incapacidade dos seus próprios filhos[v].
[i] “Em casa ou no colégio, se não obedecermos sem discussão aos nossos pais e mestres, perturbaremos a vida de ambos, roubando-lhes o sossego de espírito e impedindo assim que eles se entreguem, como desejavam, à nossa educação”. Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 50.
[ii] Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Smyth. O livro de Baden-Powell (Girl Guiding): para fadas, bandeirantes, guias e chefes. Rio de Janeiro: Federação das Bandeirantes do Brasil, 1955. p. 125.
[iii] Cf. PEREIRA, Ana Paula Costa. Educação não-formal tendo como exemplo de modelo pedagógico o método escoteiro. Monografia de conclusão do curso de graduação como Bacharel em Pedagogia. Orientadora: Profª. Ana Paula Aquino. Rio de Janeiro, Univercidade, 2004. p. 23.
[iv] “Se você bebe álcool isso força o coração a bater mais rápido que o usual; se continua bebendo, rapidamente enfraquece o coração. Também se fumar demais acontece o mesmo, especialmente no caso de rapazes em crescimento cujos músculos cardíacos ainda não ganharam força para suportar o esforço”. Cf. BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso: um livro sobre o esporte da vida escrito para rapazes. 3ª. ed. Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 204.
[v] Cf. VELHO LOBO. Guia do escoteiro. 5ª. ed. Rio de Janeiro, Centro Cultural do Movimento Escoteiro, 1994. p. 204.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 23h15
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