| |
IV CIPA - IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA
http://www.ivcipa.fe.usp.br
Data: 26 A 29 de julho de 2010
Local: Universidade de São Paulo
Espaço (auto)biográfico: artes de viver, conhecer e formar é o tema proposto para o IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA. Quer-se mediante essa iniciativa fazer avançar as discussões e a produção de estudos que contemplem as várias instâncias de expressão (auto)biográfica e que constituem hoje, sem dúvida, um território de investimentos cognitivos no qual viver, conhecer e formar-se ganham novas dimensões ao se organizarem em relatos – objetos de investigação. Os encontros do CIPA vêm se consagrando pela sua contribuição à pesquisa em diversas áreas – notadamente a da formação – que buscam conhecer, explicitar e construir práticas (auto)biográficas mediante o intercâmbio entre pesquisadores de todo o país e de outras localidades. O IV CIPA prolonga a aventura (auto)biográfica, iniciada no primeiro encontro (Porto Alegre, 2004), e preserva o interesse pelos processos de construção dos sujeitos (individual e coletivamente), traduzido por diversas modalidades de invenções de si, na perspectiva do segundo congresso (Salvador, 2006). Formação, territórios e saberes, tal como se propôs no terceiro evento (Natal, 2008), constituiu-se em diretriz das análises acerca das formas de conhecimento possibilitadas pelas iniciativas (auto)biográficas. O CIPA de 2010 (São Paulo) tem como horizonte potencializar, simultaneamente, o exame do lugar instituído pelos estudos e perspectivas (auto)biográficas e pelo espaço de produção subjetivo e intelectual dos atos (auto)biográficos. Concebidas em suas dimensões sócio-histórico- psicológicas e estéticas, as artes do viver, conhecer e formar guiarão, portanto, o desenvolvimento dos estudos e trocas do IV CIPA. Eixos temáticos I. Modos de subjetivação: a invenção de si e a construção de identidades/representações II. O espaço (auto)biográfico: a vida como obra de arte (literatura, imagens, artes) III. Práticas de formação e pesquisas (auto)biográficas IV. Memória, dimensões sócio-históricas e espaços (auto)biográficos V. Gênero, geração, infância e família: perspectivas (auto)biográficas VI. Corpos, saúde e cuidados de si: narrativas e (auto) formação Modalidades de trabalho Comunicações: devem apresentar resultados de pesquisas concluídas. Pôsteres: podem conter resultados de pesquisas em andamento ou concluídas. Relatos de experiência de formação: devem apresentar narrativas de trabalhos de formação em andamento ou concluídos. Normas para submissão dos trabalhos a) As propostas de trabalho serão enviadas sob a forma de resumos expandidos. Os textos completos somente deverão ser remetidos após a aprovação dos respectivos resumos. b) Cada autor só poderá apresentar até 1 (uma) proposta de trabalho, para o conjunto das modalidades, seja individualmente ou em coautoria; c) Trabalhos em coautoria devem possuir o número máximo de 5 (cinco) autores, em qualquer das modalidades; d) Alunos de graduação só podem ser autores principais de propostas para a modalidade “Pôster”. Formato do resumo Texto sem parágrafos, com um mínimo de 400 e máximo de 500 palavras. A proposta deve apresentar, de forma clara, os objetivos, os referenciais teórico-metodológicos (incluindo as fontes utilizadas) e os resultados do trabalho. Vale lembrar que o resumo não deve incluir transcrições de texto, notas de rodapé e referências bibliográficas. Formato do texto completo Os autores dos trabalhos, cujos resumos forem aceitos, deverão encaminhar o texto completo dos mesmos até o dia 30 de abril de 2009, com as seguintes características: título em maiúsculas e negrito, seguido do(s) nome(s) completo(s) do(s) autor(es), identificação institucional (Universidade ou instituição de ensino e/ou pesquisa), e-mail do(s) autor(es), três palavras-chave, mínimo de 4.000 e máximo de 5.000 palavras, em forma de artigo, com os objetivos, a metodologia, a problemática anunciada devidamente desenvolvida, os resultados da pesquisa e as referências bibliográficas. O texto deve ser digitado em formato A4, margens 2,5 cm, fonte Times New Roman, letra tamanho 12, espaço simples, justificado em ambas as margens. As citações a partir de 4 linhas devem conter espaço simples, recuo à esquerda de 4 centímetros e fonte 11, sem aspas. As notas devem estar no final do texto. Os autores devem observar as normas ABNT em vigor quanto às referências bibliográficas. Línguas oficiais do evento Português, francês, espanhol e inglês. Calendário Inscrições* Submissão de propostas: até 05/02/2010 Divulgação dos resultados: 05/04/2010 Envio dos trabalhos completos: até 30/04/2010 Participantes brasileiros Professores e pesquisadores: R$ 250,00 Alunos de pós-graduação: R$ 150,00 Alunos de graduação: R$ 80,00 Participantes de outros países Professores e pesquisadores: € 100,00 Alunos: € 70,00 *após 10/05/2010 Participantes brasileiros Professores e pesquisadores: R$ 300,00 Alunos de pós-graduação: R$ 180,00 Alunos de graduação: R$ 100,00 Participantes de outros países Professores e pesquisadores: € 150,00 Alunos: € 100,00 Comissão Organizadora Local Paula Perin Vicentini (FEUSP-Presidente); Bruno Bontempi Júnior (FEUSP); Denice Barbara Catani (FEUSP); Dislane Zerbinatti Moraes (FEUSP); Ecleide Cunico Furlanetto (UNICID); Joaquim Gonçalves Barbosa (UMESP); Julio Groppa Aquino (FEUSP); Mônica Appezzato Pinazza (FEUSP); Raquel Lazzari Leite Barbosa (UNESP – Assis); Rita de Cassia Gallego (FEUSP); Rosario Genta Lugli (UNIFESP); Vivian Batista da Silva (USF); Teresa Rego (FEUSP) Comissão Organizadora Nacional Ana Alcídia de Araújo Moraes (UFAM); Ana Chrystina Venancio Mignot (UERJ); Cynthia Pereira de Sousa (FEUSP); Elizeu Clementino de Souza (UNEB); Filomena Arruda Monteiro (UFMT – Cuiabá); Helena Chamlian (FEUSP); Jorge Luiz da Cunha (UFSM); Maria da Conceição Passeggi (UFRN); Maria Helena Menna Barreto Abrahão (PUC-RS); Paula Perin Vicentini (FEUSP); Rosa Lydia Teixeira (SBHE/PUC-PR); Vera Lúcia Gaspar da Silva (UDESC) Comissão Científica Annamaria Gonçalves Bueno de Freitas (UFS), Beatriz Fischer (UNISINOS), Christine Delory-Momberger (Université de Paris 13 – França), Christophe Niewiadomski (Université de Lille 3 – França), Cintya Ribeiro (FEUSP), Cynthia Pereira de Sousa (FEUSP), Daniel Suarez (Universidade de Buenos Aires – Argentina), Edla Eggert (UNISINOS), Elizeu Clementino de Souza (UNEB), Elydio dos Santos Neto (UMESP), Gaston Pineau (Université de Tours – França), Guilherme do Val Toledo Prado (UNICAMP), Helena Amaral da Fontoura (UERJ), Henning Salling Olesen (Roskilde University – Dinamarca), Iduína Mont’Alverne (UFF), Inês Bragança (UFF – São Gonçalo), Jaime Cordeiro (FEUSP), Jaqueline Monbaron (Université de Fribourg – Suiça), Jorge Ramos do Ó (Universidade de Lisboa – Portugal), José González Monteagudo (Universidad de Sevilla – Espanha), Julio Gomes Almeida (UNICID), Lúcia Maria Vaz Peres (UFPEL), Magali Castro (PUC-MG), Margaréte May Berkenbrik Rosito (UNICID), Maria da Conceição Passeggi (UFRN), Maria Helena Câmara Bastos (PUC-RS), Maria Stephanou (UFRGS), Maria Teresa Santos Cunha (UDESC), Marie-Christine Josso (Université de Genève – Suiça), Marília Claret Duran (UMESP), Marta Araújo (UFRN), Mônica Appezzato Pinazza (FEUSP), Pierre Dominicé (Université de Genève – Suiça), Ricardo Vieira (ESE-IPL/Leiria - Portugal), Rosa Maria Torres Hernández (Universidad Pedagogica Nacional - México), Selmo Haroldo de Resende (UFU), Selva Guimarães Fonseca (UFU), Silvia Nogueira Chaves (UFPA), Tatyana Mabel Nobre Barbosa (UFRN), Verbena M. Rocha Cordeiro (UNEB), Yara Dulce Bandeira de Athayde (UNEB), Zeila Demartini (UMESP) Organização Faculdade de Educação da USP - FEUSP Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica - BIOGRAPH Co-Organização PUC-RS, UDESC, UERJ, UFAM, UFMT, UFRN, UFPel, UFRGS, UFSM, UMESP, UNEB, UNESP–Assis/Marília, UNICID, UNIFESP, USF Apoios ANPEd - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação SBHE - Sociedade Brasileira de História da Educação ANNHIVIF - Associação Norte e Nordeste de História de Vida em Formação ASSIHVIF - Association Internationale des Histoires de Vie en Formation et de Recherche Biographique en Education
Categoria: Evento
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h25
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
A CULTURA ALEMÃ E A LIDERANÇA DO PROFESSOR TOBIAS BARRETO, A PARTIR DO CURSO DE DIREITO PERNAMBUCANO III
No século XIX, o debate que se estabeleceu em instituições como a Faculdade de Direito do Recife contribuiu para transformar muitos jovens bacharéis numa espécie de “missionários” da ciência, defensores de idéias liberais, materialistas e anticlericais. Aquele período, sob forte influência de Sílvio Romero e Tobias Barreto, tinha o espírito crítico como seiva. A visão de modernidade que buscaram consolidar tinha como propósito a eliminação do que afirmavam ser o prolongamento incômodo do dogmatismo do passado que não tinha mais qualquer correspondência com os imperativos até então dominantes, posto que fundados numa concepção metafísica de homem e de mundo. O objeto de tal crítica era fundamentalmente o domínio moral e religioso da Igreja Católica ao qual se comparava o que eles viam como as fórmulas políticas que as elites concebiam para exercer o domínio sobre a população brasileira. Para eles, a única possibilidade de libertação estava no livre exercício das idéias. No século XIX, sem nenhuma dúvida, a Faculdade de Direito do Recife foi o centro das primeiras polêmicas em torno do liberalismo e do cientificismo. Mas, outros espaços sociais brasileiros tiveram também importância fundamental em tal debate. Além da intelectualidade pernambucana, os intelectuais cearenses, os que viviam no Rio de Janeiro – sede do Governo -, os que atuavam na Faculdade de Medicina da Bahia e o grupo da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, deram contribuições fundamentais. A Escola do Recife, da qual emergiram os chamados culturalistas brasileiros, inaugurou o debate livre de idéias no Brasil, de forma sistemática e aberta a todas as correntes filosóficas. O desenho da Escola está marcado basicamente pelas formas de pensar das suas duas maiores expressões: Tobias Barreto, seu fundador, e Sílvio Romero. Ambos possuíam em comum as qualidades de polemista: “eram sectários, afirmativos e dogmáticos a seu modo”[i]. Das características do pensamento da Escola do Recife é possível afirmar que tanto Tobias Barreto e Sílvio Romero quanto os demais nomes do movimento mantiveram uma posição de defesa das idéias materialistas. Um materialismo difuso, é certo. Um materialismo no qual não era possível perceber uma direção política bem definida, mas que abrigava todas as posições anticlericais e de críticas ao catolicismo de todos aquele que, no Brasil do século XIX, julgavam estar descobrindo os novos rumos da humanidade, com o firme convencimento de serem os verdadeiros “missionários” do século da ciência. Eram animados com esse espírito que os autores discutiam e criticavam as filosofias e os filósofos do seu tempo, ao invés de simplesmente repeti-los como era a prática no Brasil até então. Toda a luta dos líderes da Escola do Recife teve como escopo a emancipação política e o direito à liberdade, num quadro que apontava a necessidade de modernizar o liberalismo brasileiro, ou melhor, na opinião deles, de instaurar, verdadeiramente, um Estado liberal. Para viabilizar essa luta, eles apontavam um processo de transformações que vinha acontecendo na sociedade brasileira. Com isso, conseguiram um grande movimento de agitação e propaganda que incomodava o poder religioso e temporal instituído, principalmente no decênio que vai de 1868 a 1878, auge da efervescência da Escola do Recife, no ambiente da Faculdade de Direito. Em todo o debate do século XIX, a Escola do Recife buscava sempre tornar popular a idéia da Filosofia como epistemologia, pois tanto Tobias Barreto e Sílvio Romero como os demais nomes assumiam a posição de que a teoria do conhecimento era o objeto próprio da Filosofia.
[i] Cf. RABELLO, Sylvio. Itinerário de Sílvio Romero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 90. BIBLIOGRAFIA ALVES, Antônio de Castro. Poesias completas. 2ª. Ed. São Paulo: Saraiva, 1960. BARRETO, Luiz Antônio. Tobias Barreto. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1994. BARRETO, Tobias. Dias e noites. 7ª. Ed. Revista e aumentada. Organização de Luiz Antonio Barreto; introdução e notas de Jackson da Silva Lima. Rio de Janeiro/Aracaju: Record/Secretaria da Cultura e Meio Ambiente, 1991. ___________. Estudos alemães. 5ª. Ed. Rio de Janeiro/Aracaju: RecordSecretaria da Cultura e Meio Ambiente, 1991. CARELLI, Mario. Culturas cruzadas. Intercâmbios culturais entre França e Brasil. Campinas: Papirus, 1994. CÂNDIDO, Antônio. Sílvio Romero: Teoria, Crítica e História Literária. Rio de Janeiro/São Paulo: Livros Técnicos e Científicos/Editora da Universidade de São Paulo, 1978. JAMES, William. L’idée de vérité. Trad. par L. Veil et Maxime David. Paris: Félix Alcan, 1913. ___________. Philosophie de l’expérience. Trad. par E. Le Brun et M. Paris. Paris: Ernest Flammarion, 1910. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. A cultura ocultada ou a influência alemã na cultura brasileira durante a segunda metade do século XIX. Londrina: Editora UEL, 1999. PAIM, Antônio. “A trajetória filosófica de Tobias Barreto”. In: BARRETO, Tobias. Estudos de Filosofia. Rio de Janeiro/Brasília: Record/INL, 1990. RABELLO, Sylvio. Itinerário de Sílvio Romero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. REALE, Miguel. “A cultura no pensamento de Tobias Barreto”. In: O pensamento de Tobias Barreto. Lisboa, Instituto Pluridisciplinar de História das Idéias, 1992. ROMERO, Sílvio. “Notas sobre o ensino público”. In: Ensaios de Sociologia e Literatura. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901. ___________. Realidade e ilusões do Brasil. Parlamentarismo e presidencialismo e outros ensaios. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis/Aracaju: Vozes/Governo do Estado de Sergipe, 1979. SPENCER, Herbert. De l’éducation intellectuelle, morale et physique. 9. ed. Paris: Félix Alcan, 1894. ___________. Principes de psychologie. Trad. par Th. Ribot et A. Espinas. Paris: Félix Alcan, 1874. 2 v.
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h32
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
A CULTURA ALEMÃ E A LIDERANÇA DO PROFESSOR TOBIAS BARRETO, A PARTIR DO CURSO DE DIREITO PERNAMBUCANO II
Em Tobias Barreto, a poesia apresenta motivos populares brasileiros, chamando a atenção para o folclore, os tipos, os costumes e várias situações. O texto do poema “Os Tabaréus” é um exemplo muito bom desse tipo de preocupação[i]. Além da manifesta aversão de Tobias Barreto e dos seus alunos e seguidores em face da cultura portuguesa e também àquela que lhe influenciara – a francesa -, vale registrar que o século XIX foi um momento no qual o Brasil recebeu inúmeras expedições de cientistas alemães, que estudaram os mais diversos aspectos, desde a geografia aos recursos minerais, da fauna à flora, e tudo o mais que pudesse interessar. Nesse ambiente de conflito, os interesses alemães estavam apontando numa direção e a política de franceses e norte-americanos em sentido oposto. Os franceses tentavam, a todo custo, evitar a hegemonização da Alemanha e os norte-americanos com posições aparentemente próximas dos franceses buscavam evitar a hegemonização da Europa, trabalhando ara enfraquecer as posições da Inglaterra, da Alemanha e, inclusive, da França. Sob esse quadro se movimentou a ação das culturas francesa e alemã e se consolidou o movimento que tinha o entorno emergente do pragmatismo norte-americano. A cultura brasileira, principalmente na segunda metade do século XIX, estava carregada das tensões que envolviam tal processo. No seu trabalho de professor, Tobias Barreto considerava todos esses elementos para colocar em relevo um fundamento que lhe parecia inalienável: pensar por conta própria. Este seria um dos pilares da Escola do Recife. Esta posição fez com que muitas vezes o professor Tobias Barreto fosse discriminado e discutisse a questão do preconceito racial, do qual sempre fora vítima, tendo recebido em repetidas ocasiões, dos seus desafetos, através da imprensa, os epítetos de “cabra” e “bode”. Luiz Antônio Barreto chamou a atenção para o fato de que “cabra” e “bode” eram termos usados pejorativamente para designar em ágüem as condições de mulato e de mestiço: Dois termos, mais que outros, visavam Tobias Barreto, para marcá-lo racialmente: Cabra e Bode. Termos que segundo o Vocabulário Pernambucano de Pereira da Costa eram pejorativos de mulato e de mestiço. Soavam como as mais duras ofensas numa sociedade escravocrata, formada por senhores de engenhos de escravos, de cujo prestigio político ainda hoje se tem notícia. Tobias Barreto conviveu, desde as primeiras polêmicas que sustentou com os redatores de O Católico e com alguns padres e seus defensores, com tais ofensas, assumindo sua origem mestiça, sua mulatice sergipana[ii]. Assinalou também o mesmo autor que, em entrevista que concedeu no ano de 1939 ao jornal baiano “A Tarde”, J. J. Seabra, contemporâneo de Tobias Barreto na Faculdade de Direito do Recife, destacou com veemência que era muito forte a discriminação sofrida por este último, em face da sua condição de mulato. Efetivamente preconceituosa, a elite pernambucana não se sentia confortável convivendo com aquele mulato do interior de Sergipe, que nascera pobre, filho de Pedro Barreto de Menezes e Emerenciana de Menezes. Ao concluir o curso primário em sua cidade natal –Campos – Tobias Barreto mudou-se ara Estância – um município maior e mais próspero – onde estudou Latim com o padre Domingos Quirino, que viria depois a ser bispo de Goiás. O nosso autor foi, assim, um homem que tendo chegado pobre e desconhecido ao Recife, em 1863, somente conseguira concluir o curso de Direito seis anos depois, em 1869, aos 30 anos de idade, em face das muitas dificuldades financeiras e aos sobressaltos econômicos que ávida cotidiana lhe impunha. As idéias que Tobias Barreto irradiou foram se consolidando a partir do momento em que ele assumiu, em 1881, a cátedra de professor da Faculdade de Direito do Recife. Apesar de ter sido o mais importante dentre os seus mestres, a Escola de Direito pernambucana nunca reconheceu em Tobias tal mérito enquanto ele esteve vivo. Ali, o nosso autor foi, sob todas as formas, agredido e humilhado pelos seus pares, tendo para si apenas a simpatia de uma parcela significativa dos estudantes. As agressões que recebera não foram suspensas sequer por ocasião da doença que o vitimara sete anos após a sua admissão como docente da Faculdade. Durante todo o período da sua convalescença a Congregação se manteve em silêncio e os seus inimigos acompanharam passo a passo a sua trajetória ao encontro da morte. Por várias vezes, publicaram notas em jornais anunciando a morte de Tobias Barreto, sem que este houvesse ainda falecido. A verdadeira intenção era a de criar-lhe dificuldades, uma vez que tendi sido reduzidos os seus vencimentos pela Congregação, vivia nessa fase da caridade pública em face da ajuda de amigos que lhe mandavam algum dinheiro ara ajudá-lo a custear o tratamento médico. E a publicação das notícias sobre a sua morte tinha exatamente a intenção de fazer com que cessasse esse tipo de auxílio. O processo de agressão era tão exacerbado que um desafeto seu, o médico Antônio Carneiro da Cunha, publicara anúncio no jornal A Província, anunciando com satisfação que a morte do filosofo se aproximava, descrevendo em detalhes o avanço da doença e dizendo textualmente que estava a acompanhar “pari passu a decomposição do seu organismo”. Quando da sua morte, apenas compareceram ao sepultamento os estudantes e o professor J. J. Seabra – seu amigo pessoal. E apenas duas coroas de flores foram enviadas ao velório: uma pelos estudantes e outra pelo Clube Republicano.
[i] Cf. BARRETO, Tobias. Dias e noites. 7ª. Ed. Revista e aumentada. Organização de Luiz Antonio Barreto; introdução e notas de Jackson da Silva Lima. Rio de Janeiro/Aracaju: Record/Secretaria da Cultura e Meio Ambiente, 1991. p. 100. [ii] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. Tobias Barreto. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1994. p. 275. Ainda no mesmo texto, chama a atenção para o fato de que Tobias Barreto, “em Escada, no jornal O Desabuso publica um artigo intitulado “Fidalguias Pernambucanas”, no nº 4, de 2 de outubro de 1875, ironizando com os seus detratores. Diz ele: ‘O escritor destas linhas que não tem outros títulos de nobreza, senão a honra dos seus pais, está disposto a não apelar da sentença, com que aqui se condenou a ser um cabra, no sentido pernambucano da palavra. Assim fique assentado que eu aceito o apelido’. Em 1883, já no Recife, é chamado de ‘...animal ignorante, paquiderme, bode’, por Antonio de Siqueira Carneiro da Cunha, encoberto pelo pseudônimo de Hunger, que saiu em socorro dos padres maranhenses e pernambucanos com os quais Tobias polemizava. Ao responder, Tobias Barreto dizia: ‘Deixe de tolices, moço. S. S. não pode falarem bode, nem isto me incomoda. Acho muito mais suave passar por cabra, do que entrar em pesquisas genealógicas ara saber quem foram os meus vigésimos avós, que como o de qualquer homem somam a bagatela de 2.097.155; e mostrar que em todo esse imenso batalhão de ascendentes não haviam macacos, nem bodes, nem perus, é um trabalho difícil”. p. 275-6.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h24
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
A CULTURA ALEMÃ E A LIDERANÇA DO PROFESSOR TOBIAS BARRETO, A PARTIR DO CURSO DE DIREITO PERNAMBUCANO
Conhecer o pensamento brasileiro do século XIX impõe estudar as idéias de Tobias Barreto e procurar vê-lo tal como foi, com suas qualidades e suas contradições, despindo-se o analista de todo o rosário de preconceitos que se construiu ao longo de todo esse tempo. Aquele conjunto de idéias representa a fisionomia de uma época. Tobias Barreto, ao longo de toda a sua vida, buscou sempre desarticular os padrões e cânones socialmente estabelecidos, tentando encontrar os caminhos que servissem de base para a construção de uma ordem calibrada pelos valores daquilo que a ele se apresentava como modernidade. Na sua luta contra a apatia, Tobias Barreto foi objeto de discriminações e do escárnio dos grupos aos quais se contrapunha. Principalmente depois que o conjunto de idéias que pregava ganhou importância no debate que se travou durante as últimas décadas do século XIX, em todo o país. É possível afirmar que Tobias Barreto foi, no século XIX, o primeiro intelectual brasileiro a levantar o tema da cultura como uma questão fundamental. E, mais do que isso, a dar ao problema um tratamento filosófico. O reexame dos seus textos oferece uma concepção cultural merecedora de análise, a começar pelo estudo das fontes nas quais ele se inspira. Ele valorizou o poder do homem em face da natureza, dando ao seu entendimento de cultura um caráter humanístico que foi marca de distintos estudos evolucionistas. Na opinião de Miguel Reale, Tobias Barreto, “que tinha amor a Kant, não fazia senão desenvolver, no plano empírico, a tese kantiana sobre o poder monotético do espírito, ou do homem como legislador da natureza”[i]. Se em casos como o de Sílvio Romero é perceptível a posição de crítica ao positivismo, até porque explicitada pelo autor, tal percepção em alguns casos deve ser apanhada com mais sutileza. Esta questão ocorre principalmente no pensamento de intelectuais que mantêm estreita ligação com a Filosofia do Direito, como Tobias Barreto, Arthur Orlando, Clóvis Bevilacqua, Fausto Cardoso e outros. O problema do positivismo no pensamento de Tobias Barreto é exemplar. Ele recebeu a influencia da Filosofia Jurídica do alemão Rudolf von Jhering e assumiu a positividade jurídica. Essa concepção de Direito, como de resto todo o conhecimento científico daquele momento tinha em comum com o positivismo a crença na ciência, rompendo com uma difusa compreensão do Direito baseada na relação divina. Mas, diferentemente do positivismo clássico, o positivismo jurídico era fundado na valorização do Direito dos indivíduos à liberdade. A intelectualidade brasileira do século XIX ligada ao Direito foi pródiga na defesa da liberdade de pensamento, a exemplo de Tobias Barreto – que fez da sua cátedra na Faculdade de Direito uma trincheira para esse tipo de luta – e de outros intelectuais da Escola do Recife, como Arthur Orlando, Fausto Cardoso e Clóvis Bevilacqua. Ao contrário do positivismo comteano que abominava a idéia de liberdade, seja de pensamento ou de ação. Os positivistas jamais aceitariam um conjunto de normas que falassem em nome da liberdade do indivíduo. Na verdade, muitos dos liberais cientificistas brasileiros foram entusiastas do monismo e do evolucionismo – duas outras doutrinas que na segunda metade do século XIX tiveram grande influência no Brasil. Essas duas expressões chegaram ao Brasil através da influenciado pensamento alemão e da visão de mundo inglesa. Tobias Barreto, Sílvio Romero, Fausto Cardoso, Arthur Orlando, Clóvis Bevilacqua e outros intelectuais daquela geração leram atentamente as idéias de Wolf, Haeckel, Ludwig Noiré, Darwin e Spencer. Se monistas e evolucionistas eram incansáveis na crítica ao positivismo, o mesmo se pode dizer dos positivistas em relação a estes. Bastam dois exemplos: o combate permanente que Sílvio Romero e José Veríssimo travavam; de outra forma, a rejeição forte ao evolucionismo e ao monismo por parte dos positivistas em geral, que levava Teixeira Mendes a qualificar sempre de “o superficial Spencer” ao evolucionista inglês. O fato de o maior pólo de desenvolvimento das idéias germânicas no Brasil ter sido mais visível a partir do núcleo da Faculdade de Direito do Recife não significas que essas idéias não se houvessem desenvolvido em outras áreas do território nacional. Elas foram muito fortes em todo o Brasil. Contudo, em Pernambuco encontraram sua melhor expressão na chamada Escola do Recife, sob a liderança de Tobias Barreto. O movimento romântico na forma como foi assumido pelos pernambucanos fazia oposição às idéias predominantes entre a elite que detinha o poder político e econômico nacional e não cansava de criticar vários aspectos da influência da cultura francesa entre nós. A poesia romântica encontrou no baiano Castro Alves o nome mais importante dentre os poetas que produziram sob o ambiente da Escola do Recife. Antônio Cândido mostra o verdadeiro milagre literário operado por Castro Alves, que soube transfigurar o negro degradado e humilhado, cobrindo-o com o manto redentor da poesia, em um herói plenamente humano[ii]. A preocupação com a natureza da nação brasileira em Castro Alves pode ser vista em poemas como “Os Escravos”, “Espumas Flutuantes” e “Cachoeira de Paulo Afonso”[iii]. Abrindo-se aos alemães, muitos românticos pernambucanos foram ecléticos e simpáticos a todo o tipo de idéia. Tendo feito os seus primeiros estudos sob a égide do romantismo, Tobias Barreto foi um desses intelectuais que desde pronto buscou outras perspectivas teóricas. Foi, provavelmente, um dos primeiros leitores de Marx no Brasil. Na sua biblioteca de títulos em alemão, que foi adquirida pela Faculdade de Direito do Recife, figuram dois volumes de O Capital[iv].
[i] Cf. REALE, Miguel. “A cultura no pensamento de Tobias Barreto”. In: O pensamento de Tobias Barreto. Lisboa, Instituto Pluridisciplinar de História das Idéias, 1992. p. 18. [ii] Cf. CARELLI, Mario. Culturas cruzadas. Intercâmbios culturais entre França e Brasil. Campinas: Papirus, 1994. p. 146. [iii] Cf. ALVES, Antônio de Castro. Poesias completas. 2ª. Ed. São Paulo: Saraiva, 1960. [iv] Os dois volumes são da edição de 1885, em alemão: Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. 2 vols. Hamburg: Otto Meissner, 1883-1885.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h27
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
A CULTURA ALEMÃ E A LIDERANÇA DO PROFESSOR TOBIAS BARRETO, A PARTIR DO CURSO DE DIREITO PERNAMBUCANO
Conhecer o pensamento brasileiro do século XIX impõe estudar as idéias de Tobias Barreto e procurar vê-lo tal como foi, com suas qualidades e suas contradições, despindo-se o analista de todo o rosário de preconceitos que se construiu ao longo de todo esse tempo. Aquele conjunto de idéias representa a fisionomia de uma época. Tobias Barreto, ao longo de toda a sua vida, buscou sempre desarticular os padrões e cânones socialmente estabelecidos, tentando encontrar os caminhos que servissem de base para a construção de uma ordem calibrada pelos valores daquilo que a ele se apresentava como modernidade. Na sua luta contra a apatia, Tobias Barreto foi objeto de discriminações e do escárnio dos grupos aos quais se contrapunha. Principalmente depois que o conjunto de idéias que pregava ganhou importância no debate que se travou durante as últimas décadas do século XIX, em todo o país. É possível afirmar que Tobias Barreto foi, no século XIX, o primeiro intelectual brasileiro a levantar o tema da cultura como uma questão fundamental. E, mais do que isso, a dar ao problema um tratamento filosófico. O reexame dos seus textos oferece uma concepção cultural merecedora de análise, a começar pelo estudo das fontes nas quais ele se inspira. Ele valorizou o poder do homem em face da natureza, dando ao seu entendimento de cultura um caráter humanístico que foi marca de distintos estudos evolucionistas. Na opinião de Miguel Reale, Tobias Barreto, “que tinha amor a Kant, não fazia senão desenvolver, no plano empírico, a tese kantiana sobre o poder monotético do espírito, ou do homem como legislador da natureza”[i]. Se em casos como o de Sílvio Romero é perceptível a posição de crítica ao positivismo, até porque explicitada pelo autor, tal percepção em alguns casos deve ser apanhada com mais sutileza. Esta questão ocorre principalmente no pensamento de intelectuais que mantêm estreita ligação com a Filosofia do Direito, como Tobias Barreto, Arthur Orlando, Clóvis Bevilacqua, Fausto Cardoso e outros. O problema do positivismo no pensamento de Tobias Barreto é exemplar. Ele recebeu a influencia da Filosofia Jurídica do alemão Rudolf von Jhering e assumiu a positividade jurídica. Essa concepção de Direito, como de resto todo o conhecimento científico daquele momento tinha em comum com o positivismo a crença na ciência, rompendo com uma difusa compreensão do Direito baseada na relação divina. Mas, diferentemente do positivismo clássico, o positivismo jurídico era fundado na valorização do Direito dos indivíduos à liberdade. A intelectualidade brasileira do século XIX ligada ao Direito foi pródiga na defesa da liberdade de pensamento, a exemplo de Tobias Barreto – que fez da sua cátedra na Faculdade de Direito uma trincheira para esse tipo de luta – e de outros intelectuais da Escola do Recife, como Arthur Orlando, Fausto Cardoso e Clóvis Bevilacqua. Ao contrário do positivismo comteano que abominava a idéia de liberdade, seja de pensamento ou de ação. Os positivistas jamais aceitariam um conjunto de normas que falassem em nome da liberdade do indivíduo. Na verdade, muitos dos liberais cientificistas brasileiros foram entusiastas do monismo e do evolucionismo – duas outras doutrinas que na segunda metade do século XIX tiveram grande influência no Brasil. Essas duas expressões chegaram ao Brasil através da influenciado pensamento alemão e da visão de mundo inglesa. Tobias Barreto, Sílvio Romero, Fausto Cardoso, Arthur Orlando, Clóvis Bevilacqua e outros intelectuais daquela geração leram atentamente as idéias de Wolf, Haeckel, Ludwig Noiré, Darwin e Spencer. Se monistas e evolucionistas eram incansáveis na crítica ao positivismo, o mesmo se pode dizer dos positivistas em relação a estes. Bastam dois exemplos: o combate permanente que Sílvio Romero e José Veríssimo travavam; de outra forma, a rejeição forte ao evolucionismo e ao monismo por parte dos positivistas em geral, que levava Teixeira Mendes a qualificar sempre de “o superficial Spencer” ao evolucionista inglês. O fato de o maior pólo de desenvolvimento das idéias germânicas no Brasil ter sido mais visível a partir do núcleo da Faculdade de Direito do Recife não significas que essas idéias não se houvessem desenvolvido em outras áreas do território nacional. Elas foram muito fortes em todo o Brasil. Contudo, em Pernambuco encontraram sua melhor expressão na chamada Escola do Recife, sob a liderança de Tobias Barreto. O movimento romântico na forma como foi assumido pelos pernambucanos fazia oposição às idéias predominantes entre a elite que detinha o poder político e econômico nacional e não cansava de criticar vários aspectos da influência da cultura francesa entre nós. A poesia romântica encontrou no baiano Castro Alves o nome mais importante dentre os poetas que produziram sob o ambiente da Escola do Recife. Antônio Cândido mostra o verdadeiro milagre literário operado por Castro Alves, que soube transfigurar o negro degradado e humilhado, cobrindo-o com o manto redentor da poesia, em um herói plenamente humano[ii]. A preocupação com a natureza da nação brasileira em Castro Alves pode ser vista em poemas como “Os Escravos”, “Espumas Flutuantes” e “Cachoeira de Paulo Afonso”[iii]. Abrindo-se aos alemães, muitos românticos pernambucanos foram ecléticos e simpáticos a todo o tipo de idéia. Tendo feito os seus primeiros estudos sob a égide do romantismo, Tobias Barreto foi um desses intelectuais que desde pronto buscou outras perspectivas teóricas. Foi, provavelmente, um dos primeiros leitores de Marx no Brasil. Na sua biblioteca de títulos em alemão, que foi adquirida pela Faculdade de Direito do Recife, figuram dois volumes de O Capital[iv]. Em Tobias Barreto, a poesia apresenta motivos populares brasileiros, chamando a atenção para o folclore, os tipos, os costumes e várias situações. O texto do poema “Os Tabaréus” é um exemplo muito bom desse tipo de preocupação[v].
[i] Cf. REALE, Miguel. “A cultura no pensamento de Tobias Barreto”. In: O pensamento de Tobias Barreto. Lisboa, Instituto Pluridisciplinar de História das Idéias, 1992. p. 18. [ii] Cf. CARELLI, Mario. Culturas cruzadas. Intercâmbios culturais entre França e Brasil. Campinas: Papirus, 1994. p. 146. [iii] Cf. ALVES, Antônio de Castro. Poesias completas. 2ª. Ed. São Paulo: Saraiva, 1960. [iv] Os dois volumes são da edição de 1885, em alemão: Das Kapital. Kritik der politischen Oekonomie. 2 vols. Hamburg: Otto Meissner, 1883-1885. [v] Cf. BARRETO, Tobias. Dias e noites. 7ª. Ed. Revista e aumentada. Organização de Luiz Antonio Barreto; introdução e notas de Jackson da Silva Lima. Rio de Janeiro/Aracaju: Record/Secretaria da Cultura e Meio Ambiente, 1991. p. 100.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 00h25
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
O DEBATE INTELECTUAL E A FORMAÇÃO JURÍDICA NO BRASIL DURANTE O SÉCULO XIX - IV
Antônio Cândido chamou a atenção para algumas obsessões que estiveram presentes ao longo da vida de Sílvio, como a sua manifesta e incompreensível má vontade em face da obra de Machado de Assis. Daí a leitura de Sílvio Romero tanto irritar como despertar um sentimento de admiração por um homem ao qual o movimento de análise, de compreensão, de construção era o mesmo que levava a destruir, dando ao seu pensamento uma característica dual e uma marca revolucionária, que retratavam com perfeição a imagem nervosa que o Brasil do seu tempo possuía. Sílvio Romero dedicou-se ao longo da vida a construir uma crítica científica e objetiva que tivesse como base o espírito que fez expandir as ciências da natureza do século XIX. Armado com uma visão peculiar da natureza e função da mestiçagem, que buscou no racismo de Gobineau, ele se punha posições características de um certo liberalismo progressista que pregava a luta contra as oligarquias, mas desconfiava profundamente da capacidade política do povo. Interessado e sem esconder suas simpatias pelo socialismo, Sílvio Romero via essa proposta como inviável para a sociedade brasileira e influenciou claramente posições bem distintas na cultura brasileira, como as de Otávio Brandão, Oliveira Viana, Mário de Andrade e Gilberto Freyre. Dentro do quadro das suas contradições, Romero construiu o seu racismo antropológico apontando para uma igualdade racial que deveria levar à universalização dos direitos e que desprezava as elites que tentavam se apresentar como sendo de raça superior. Para ele a sociedade brasileira encontraria o seu ethos exatamente na equalização de todas as raças. Republicano e partidário do federalismo, Sílvio foi, após a proclamação, um dos mais contundentes dentre os críticos do republicanismo brasileiro. Ele preferia o parlamentarismo ao presidencialismo adotado, como deixou bem claro no seu trabalho Realidade e ilusões do Brasil. Parlamentarismo e presidencialismo e outros ensaios[i]. Tendo defendido que a república unitária parlamentar fosse implantada através da intervenção dos militares, Sílvio Romero afirmava que temia a permanência destes no poder por muito tempo e não aceitava a ditadura republicana proposta pelo positivismo.
[i] Cf. ROMERO, Sílvio. Realidade e ilusões do Brasil. Parlamentarismo e presidencialismo e outros ensaios. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis/Aracaju: Vozes/Governo do Estado de Sergipe, 1979.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h40
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
O DEBATE INTELECTUAL E A FORMAÇÃO JURÍDICA NO BRASIL DURANTE O SÉCULO XIX - III
Muitas vezes tomado como entusiasta do Positivismo, Romero produziu a maior parte das suas idéias combatendo o projeto positivista. As polêmicas que sustentou contra o ponto de vista de intelectuais como José Veríssimo são um bom atestado da sua posição. Tendo incorporado algumas idéias comteanas nos primeiros anos da sua vida intelectual, Sílvio rompeu com o Positivismo e era freqüentemente contestado por vários positivistas. O livro Doutrina contra doutrina, escrito por Romero, tem a crítica ao Positivismo como seu objeto central. Um artigo publicado por José Veríssimo na Revista Brazileira fez a animosidade entre ambos chegar às raias da intolerância. A forma como Veríssimo o criticou irritou profundamente Sílvio Romero. Romero passou a fustigar José Veríssimo em artigos que publicava nos jornais do Rio de Janeiro. Veríssimo respondeu publicando pela editora Garnier o livro Que é Literatura? As últimas 60 páginas do livro sã dedicadas a provocar Sílvio Romero. Em 1910, Sílvio Romero publicou o livro Zeverissimações ineptas da crítica (repulsas e desabafos), pela Editora do Porto. A polêmica mobilizou toda a intelectualidade brasileira dos primeiros anos do século XX. No Recife, o então ainda jovem jornalista Assis Chateubriand publicou cinco artigos no Jornal Pequeno, em defesa de José Veríssimo. Os artigos foram transformados no livro A morte da polidez. O jornalista e poeta Osório Duque Estrada, autor da letra do Hino Nacional Brasileiro, publicou artigos no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, defendendo Sílvio Romero. Tendo se consolidado como um intelectual importante durante a segunda metade do século XIX, Sílvio Romero viu chegar o século XX aos 50 anos de idade e com o reconhecimento de ser o mais importante crítico literário brasileiro. Virulento e passional, Sílvio era sem dúvida nenhuma um dos intelectuais mais vaidosos dentre aqueles que viveram a segunda metade dos anos oitocentos. A sua coleção de desafetos era inesgotável. Convivia socialmente com José Veríssimo, mas mantinha com este uma acirrada disputa pelo domínio da cultura nacional. A sua experiência docente foi adquirida no Colégio Pedro II, onde ingressou por concurso público, em 1882. À sua maneira, Romero lutava contra o que dizia ser a mentalidade que chamava de “reacionária e retrógrada” do ensino brasileiro. Vários dos seus trabalhos que tiveram a educação como temática foram publicados na revista Lucros e Perdas. Nesse período, Sílvio Romero privilegiou os estudos em Educação a partir das questões de Filosofia e do ensino secundário. Fez críticas ao fato de a escola brasileira haver reduzido o ensino de Filosofia a uma só matéria – o ensino da Lógica – e defendeu ardorosamente o ensino de disciplinas como Psicologia, Metafísica, Ontologia e História da Filosofia. Também, durante o período em que trabalhou no Rio de Janeiro, para o jornal “Diário de Notícias”, Sílvio Romero escreve muitos artigos sobre o ensino público[i]. Publicado pela primeira vez em 1884, o texto “Notas sobre o ensino público” expressa na sua primeira edição o engajamento de Sílvio na campanha republicana, apesar das restrições que fazia aos positivistas. A versão que circula neste periódico é o texto da edição de 1901, publicado em uma coletânea intitulada Ensaios de Sociologia e Literatura. Nesta versão, Sílvio Romero revela a sua posição de crítico da ação do governo presidencialista republicano, incorporando observações irônicas sobre a política educacional de Benjamin Constant. Sob o seu entendimento, a consolidação do Estado nacional moderno requeria uma expansão intelectual permanente da população. “A expansão intelectual é uma resultante da própria existência do agregado político e nacional”[ii]. Esse Estado que requeria a expansão intelectual era o responsável pela unidade do espírito nacional, o que a seu ver justificava o caráter nacional da Educação e do ensino que marcaram a Pedagogia do século XIX. Um ensino desse tipo precisaria ser fundado pelas aptidões étnicas da nação, embasado na realidade da vida, na sua história, na sua índole, nas suas aspirações fundamentais. Um ensino que fortalecesse as qualidades nativas da raça, robustecesse o gênio nacional e afirmasse a individualidade das pessoas, tendo como pano de fundo a preocupação nacionalista patriota, a consagração do que ele chamava de indigenismo digno. A relação Estado nacional/ensino, tal como a via Sílvio Romero, era o que dava sentido a estima própria que todo indivíduo deveria ter de si mesmo – interpretava -, o que para as nações se traduzia como consciência do seu valor e confiança no seu destino. Por força desse tipo de relação, assim como o Estado deveria ter responsabilidades como agente da promoção do progresso e assumir tarefas na Economia, deveria destinar parte significativa do seu orçamento para zelar pela instrução pública. Dever que no caso do Estado nacional brasileiro teria que ser um encargo do poder central, se executados os moldes do figurino de Romero. Essas e as outras concepções que defendia em Educação, o próprio Romero revelava serem inspiradas na Pedagogia e na teoria do Estado de origens alemã. Para ele, somente o modelo da reforma educacional da Alemanha poderia ajudar a Educação brasileira. Nos seus primeiros estudos culturalistas, Silvio Romero realçou o valor do papel dos negros e da mestiçagem brasileira das raças e das idéias, afirmando que “todo brasileiro é mestiço, senão pelo sangue, ao menos pelas idéias”[iii]. A posição defendida por Sílvio Romero evoluiu bastante durante todo o processo de propaganda republicana e, sob o ponto de vista da interpretação da cultura nacional brasileira, ultrapassou os limites do pensamento positivista. Num estudo que fez sobre Sílvio Romero, Antônio Cândido apontou que desde cedo ele pareceu, aos seus contemporâneos, muito contraditório, muito injusto e recebeu a acusação de ser mais apto a fazer generalizações do que críticas. E traçou um perfil das contradições do polêmico intelectual: primeiro foi positivista e depois atacou desabridamente o positivismo; que na política de Sergipe desancou um lado e depois se ligou a ele; que considerou Luís Delfino um poetastro e, em seguida, um dos maiores poetas brasileiros; que proclamou Capistrano de Abreu o maior sabedor de História do Brasil e, mais tarde, um medíocre catador de minúcias; que era evolucionista agnóstico e afinal aderiu à Escola da Ciência Social, de raízes católicas, e assim por diante. Não é difícil, ainda mostrar como fazia e refazia as suas divisões de períodos, os seus catálogos de bons e maus escritores[iv].
[i] Cf. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. A cultura ocultada ou a influência alemã na cultura brasileira durante a segunda metade do século XIX. Londrina: Editora UEL, 1999. p. 214. [ii] ROMERO, Sílvio. “Notas sobre o ensino público”. In: Ensaios de Sociologia e Literatura. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901. p. 130. [iii] Cf. CARELLI, Mario. Culturas cruzadas. Intercâmbios culturais entre França e Brasil. Campinas: Papirus, 1994. p. 151. [iv] Cf. CÂNDIDO, Antônio. Sílvio Romero: teoria, crítica e História Literária. Rio de Janeiro/São Paulo: Livros Técnicos e Científicos/Editora da Universidade de São Paulo, 1978. p. IX.
Categoria: Artigos
Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 03h44
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
| |
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
|
|
|