EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
  
 
 

PARA CIVILIZAR O CAMPO: A CULTURA ESCOLAR DO ENSINO TÉCNICO AGRÍCOLA IX

 

 

 

As regras disciplinares incluíam preocupações com o namoro e as manifestações da sexualidade, não apenas em relação ao sexo feminino[1]. Também existiam cuidados quanto aos rapazes. Alguns ex-alunos revelam que presenciaram no espaço da escola, da parte de alguns colegas, práticas de masturbação e homossexualismo e também o namoro com pessoas do sexo feminino[2]. Mesmo com a vigilância exercida pela direção da escola, eram estabelecidas relações de namoro entre os alunos internos e as alunas, tanto internas quanto semi-internas[3].

Muitas vezes, práticas de punir geravam conflitos na relação entre professor e aluno. “Existiam alguns professores que gostavam de perseguir os alunos. (...) O aluno era induzido a participar de uma determinada tarefa e às vezes se recusava. O professor marcava o aluno”[4]. Os estudantes encontravam modos os mais diversificados através dos quais retaliavam com os professores. Em algumas competições esportivas nas quais se enfrentavam professores e alunos, muitas vezes os estudantes se tornavam violentos na disputa.

 

 

Nos jogos internos de futebol de salão, quando jogava o time de alunos contra o time de professores, os alunos iam para pegar o professor, descontar. O professor Jackson era muito rígido com o aluno. Pegava no pé, falava, fazia gestos obscenos com a mão. Você assistia uma aula no laboratório de Física com ele e não suportava, corria. No futebol de salão, os alunos pegavam ele fisicamente[5].

 

 

Contudo, na década de 80 não existiam mais as práticas de aplicar castigos corporais da mesma natureza daqueles que eram aplicados até a década de 60. Um dos fatos tidos como de maior gravidade na penúltima década do século XX era a fuga noturna do internato[6]. Muitas vezes os alunos costumavam fugir para comprar favores sexuais das prostitutas nos povoados dos arredores da Escola. Quando isto acontecia, os estudantes eram castigados com suspensões das atividades escolares por um período de trinta dias ou ficavam proibidos de visitar a família nos finais de semana, por idêntico período[7].



[1] Esse tipo de vigilância sempre foi considerado muito importante na Escola. Há informação do caso de aborto envolvendo uma aluna interna ocorrido nas dependências da Escola há dois anos. A aluna abortou, mas não foi possível apurar responsabilidades nem se a gravidez foi contraída no interior da Escola. 

[2] Cf. SILVA, José Ireno da. Op. cit.

[3] Idem.

[4] Ibidem.

[5] Idem, ibidem.

[6] Os estudantes costumavam fugir do internato na década de 1980 para passear em Aracaju ou para freqüentar bailes que aconteciam nos povoados circunvizinhos à fazenda Escola. Cf. SILVA, José Ireno da. Op. cit.

[7] Cf. SILVA, José Ireno da. Op. cit.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h31
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PARA CIVILIZAR O CAMPO: A CULTURA ESCOLAR DO ENSINO TÉCNICO AGRÍCOLA VIII

A prática de numerar os alunos era mais um mecanismo de controle disciplinar rígido, uma vez que a numeração atribuída ao estudante era marcada na sua roupa e em todos os objetos do seu uso[1].

Não obstante todas as prescrições a respeito do rigor disciplinar, formalmente o Regulamento do Patronato Agrícola São Maurício proibia a aplicação de castigos corporais. As penas aplicáveis consistiam em “admoestação em particular, admoestação em público, separação temporária do grupo de educandos, isolamento com trabalho manual ou escrito, suspensão do salário mensal, multa, privação ou suspensão de cargos administrativos, destituição de postos militares e exclusão”[2]. A exclusão era uma pena tão grave que somente o chefe do Poder Executivo poderia aplicá-la, mediante proposta do diretor. Todavia, há registros do desligamento de alunos nos três primeiros anos de funcionamento do Patronato, principalmente sob a alegação de motivos disciplinares.

O controle disciplinar era mantido não apenas através dos castigos, mas também através de recompensas: louvor, colocação do nome em quadro de honra, medalhas, diplomas, retrato no Panteon do Patronato, postos administrativos. Este regime disciplinar, contudo, não conseguiu impedir que os três primeiros anos de funcionamento do Patronato fossem marcados por notícias que freqüentemente davam conta das fugas dos seus internos (SERGIPE: 1927).

Os cuidados com o controle dos padrões disciplinares fizeram com que, a partir de 1940 se tornasse prática do Aprendizado Agrícola Benjamin Constant estabelecer uma escala de plantões a ser cumprida aos domingos e feriados pelos docentes, a fim de zelar pela ordem[3]. Além disto, estavam estabelecidas normas sobre os modos, horários e espaços próprios aos alunos nas dependências do Aprendizado:

 

 

Que os alunos se dirijam para as refeições, aulas, estudos, trabalhos agrícolas etc em forma e na mais perfeita ordem; que todas as formaturas de alunos sejam no pátio interno do Estabelecimento; que os toques de ranchos sejam dados 10 minutos antes de cada refeição e só ao toque de reunir os alunos entrem em forma; que fora das horas de recreios só seja permitida a estada fora do estabelecimento aos alunos que estejam em trabalhos de campo, na externa e nas oficinas quando em serviço; que fora das horas de refeições não haja permanência de alunos no refeitório, o qual só deverá ser aberto para as refeições e fechado logo após o término destas[4].

 

 

No Aprendizado Agrícola Benjamin Constant as normas disciplinares refletiram também a importância que era dada aos padrões de formação cívica. Durante o período do Estado Novo, os alunos que faltavam a trinta por cento das comemorações especiais do centro cívico ficavam proibidos de prestar exames finais, de primeira ou segunda época[5]. 

Uma Queixa crime e maltratos funcionais que tramitou na Comarca de São Cristóvão no ano de 1953, em face de denúncias apresentadas pelos estudantes José Cledisvaldo Malta e Rivaldo Moura Barros contra o seu diretor, professor João Fernandes de Sousa, é um documento muito revelador dos procedimentos disciplinares adotados pela instituição escolar naquele período.    

Em agosto de 1953, o diretor da Escola Agrícola Benjamin Constant expulsou os alunos Cledisvaldo e Rivaldo, alegando insubordinação. Os dois estudantes encaminharam uma carta ao juiz de menores informando que foram excluídos dos quadros da escola porque não suportavam mais os maus tratos do diretor João Fernandes. O clímax do conflito foi um castigo imposto pelo diretor aos dois estudantes, no dia dez do mesmo mês: permanecerem em pé no pátio da escola, das nove horas da noite as cinco da manhã do dia seguinte. Os alunos afirmaram que depois do castigo, que consideraram injusto e cruel, foram expulsos da escola porque não quiseram “trabalhar 8 horas no dia do estudante, dia 11 de agosto”. Além disso, denunciaram outras práticas de imposição de castigos cruéis por parte do diretor da escola: “...castiga os alunos de um modo desumano. Sairemos daqui amanhã mais ficará [sic] aqui muitos colegas que são vítimas das brutalidades do diretor”. Dentre as acusações que fizeram, afirmaram que o diretor utilizava as oficinas de madeira da escola para a produção de palmatórias.

Essas práticas de punir eram conhecidas da população do Estado de Sergipe e até a década de 1970 a instituição escolar continuou a ser chamada de Aprendizado pela população do Estado de Sergipe, evocando um imaginário que remetia ao seu caráter de centro de educação destinado a jovens rebeldes: “o negócio era mesmo como se fosse de prisão. O primeiro impacto... (...) É um baque de cultura, de ambiente, você toma susto. Eu cheguei pisando em ovos” (CABRAL: 2003).

As preocupações com as normas disciplinares foram tão presentes ao longo da história da Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão que ainda na década de 80 do século XX, no primeiro dia de atividade, os novos alunos eram reunidos no auditório da instituição, quando então ouviam do próprio diretor uma prédica a respeito das normas às quais deveriam se submeter (SILVA: 2004). Além disso, os primeiros quinze dias de atividade do novo estudante eram considerados período de adaptação. Durante a sua primeira quinzena na escola, o estudante era escalado para cuidar de atividades de campo nas áreas de agricultura e de zootecnia. Cuidavam da terra, da horta, dos animais, das atividades de irrigação, dos alojamentos. Alguns alunos não conseguiam se adaptar e tinham sua matrícula cancelada[6].



[1] Cf. SERGIPE. Decreto n. 890, de 14 de novembro de 1924. Baixa Regulamento para o Patronato Agrícola São Maurício. Diário Oficial. 15 de novembro de 1924.

[2] Cf. SERGIPE. Decreto n. 890, de 14 de novembro de 1924. Baixa Regulamento para o Patronato Agrícola São Maurício. Diário Oficial. 15 de novembro de 1924.

[3] São muitas as Portarias expedidas pela direção do Aprendizado em 1940 regulamentando a matéria. Cf. BRASIL. APRENDIZADO AGRÍCOLA BENJAMIN CONSTANT. 1940. Livro de correspondência expedida pelo Aprendizado Agrícola Benjamin Constant (Janeiro/Junho de 1940). p. 257.

[4] Estas recomendações estão em um Aviso expedido pela direção aos inspetores de alunos do Aprendizado. Cf. BRASIL. APRENDIZADO AGRÍCOLA BENJAMIN CONSTANT. 1940. Op. cit. p. 263.

[5] Cf. BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Portaria ministerial nº. 708, de 27 de dezembro de 1943.

[6] “Esse período de adaptação era crucial. Muitos alunos nunca tinham trabalhado com uma enxada, mas se exigia deles que trabalhasse com a enxada. Na minha primeira semana eu fui para a horta. Na semana seguinte, no final de semana, eu fui para casa. Quando eu cheguei em casa minha mãe olhou para as minhas mãos e começou a chorar, ao ver os calos que eu tinha nas mãos. Mas, era a única oportunidade que eu tinha de ter uma profissão”. Cf. SILVA, José Ireno da. Op. cit.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h26
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PARA CIVILIZAR O CAMPO: A CULTURA ESCOLAR DO ENSINO TÉCNICO AGRÍCOLA VII

            Vários entrevistados revelaram que um dos maiores problemas de morar na escola, principalmente até o início da década de 1970, era exatamente o trajeto Aracaju-Quissamã-Aracaju. “Eu cheguei na escola em 1961 com um carro novo, uma Rural Wyllis, e servi a muita gente ali, dia e noite”. Naquele ano poucas pessoas estavam morando na Escola e em função das medidas tomadas nos primeiros meses do governo do presidente Jânio Quadros, havia muita restrição sobre o uso de carros oficiais, o que impedia a utilização dos veículos da instituição por professores e técnicos para deslocamento no trajeto Aracaju-Quissamã-Aracaju. No mesmo período estavam começando as obras da BR 101 sul em Sergipe, o que mudou o trajeto da estrada que antes passava pela fazenda Quissamã e fora desviada para mais distante, obrigando a Escola a abrir uma nova estrada ligando a sua sede até a BR 101.        

Essas residências funcionais marcaram a história da rede federal de escolas agrícolas até a década de 70, quando começou o questionamento a respeito delas. Naquele período, uma das medidas tomadas para sanear financeiramente a rede foi o processo de desativação das moradias de funcionários. Segundo o ex-diretor Laonte Gama da Silva, a situação era já de muito desconforto: “Eu saí da casa do colégio quando vieram as dificuldades financeiras”[1]. O grau de deterioração da residência do diretor era muito avançado[2]. O Banco Mundial, que havia emprestado recursos para modernizar o Colégio, exigiu que a instituição se abstivesse de investir na melhoria das residências.

Após a posse de Francisco Gonçalves na direção da Escola, os professores foram paulatinamente substituídos nas residências por servidores técnico-administrativos. Além das casas da vila principal, ocupadas quase que totalmente por professores, existiam também muitas residências espalhadas por toda a área da fazenda, nas quais moravam vários técnicos. Na década de 80 se acentuaram vários conflitos em torno do problema das moradias pertencentes à Escola. Naquele decênio e nos anos 90 houve uma visível degradação do estado de conservação das casas, aumentaram as polêmicas em torno da devolução dos imóveis[3] e os professores foram paulatinamente cedendo o direito de ocupação das casas aos técnicos administrativos da Escola.

No caso do ensino agrícola, esse corpo profissional residente na escola era formado por professores, quase todos com formação de engenheiros agrônomos e por bedéis e outros funcionários subalternos. Essa mudança de padrão, que na prática extinguia o confinamento de docentes e técnicos no ambiente escolar, criava dificuldades ao funcionamento de uma instituição na qual esse padrão de moradia era visto como necessário ao bom funcionamento de uma escola na qual a maior parte dos alunos vivia sob os regimes de internato e semi-internato.

Os estudantes que sofriam a ação disciplinar da escola eram, predominantemente, órfãos e filhos das camadas médias inferiores das cidades e de pequenos proprietários rurais. Alguns deles, certamente, esperançosos de que a formação escolar pudesse oferecer a possibilidade de acesso aos estudos para uma futura e promissora carreira no setor agrícola.

Nos anos que se seguiram à sua implantação o Patronato São Maurício foi procurado por alunos oriundos de vários Estados, principalmente de Sergipe, Bahia e Alagoas. Era nas ruas, portanto, que se recrutava a maior parte dos internos. Mas não somente, uma vez que o objetivo era atender os grupos de pessoas pobres de um modo geral. Para lá eram encaminhados muitos meninos que viviam no campo. A instituição era também procurada por pais e outras pessoas responsáveis por menores rebeldes para entregá-los às práticas disciplinares ali estabelecidas. Isso fazia com que, muitas vezes, os dirigentes do Patronato de Menores Francisco Sá vissem a origem dos seus internos como um dos mais graves problemas da instituição: “menores vindos de lugares não recomendáveis, como por exemplo: chefatura de polícia, casas correcionais etc” (SERGIPE: 1927).

Em 1927, de cinqüenta e oito menores internados pelo menos vinte e quatro tiveram suas internações solicitadas pelo Chefe de Polícia e pelo Juiz de Menores, o que representa quarenta e um por cento do total. O encaminhamento de menores para o Patronato pela Polícia expressava o papel que esta exercia no

 

 

controle social de uma população que expandia seus canais de manifestação e se fazia presente nos espaços públicos de debate e ação política, produzia ações específicas voltadas para intervir na situação da infância pobre. A bibliografia aponta para o crescente rigor das práticas de controle sobre a população, em especial nas áreas centrais da cidade, paralelamente às modificações que foram operadas nessas áreas e que se voltaram para apresentar um cenário urbano moderno, tomando como referência o que os grandes centros europeus e norte-americanos já expunham[4].

 

 

O regime disciplinar do Patronato era bastante rígido, inspirado em corporações militares, e adotava práticas como a de identificar os seus alunos através de números que lhes eram atribuídos e não pelos nomes civis, práticas que persistiram até a década de 1970.

 

 

É o melhor meio de conduzir a vida laboriosa dos campos, os menores sem recursos que vagueiam pelas ruas das cidades, e de fixar nas lides da lavoura aqueles que, sem instrução e sem estímulo, desperdiçam as suas energias em serviços rurais rotineiros e mal orientados. A instrução que recebem esses menores, intelectual e cívica, a disciplina moral e física, o exemplo do trabalho produtivo que exercem, vão conseguindo regenerar não poucos desses desvalidos, gerando-lhes aspirações nobres e rasgando-lhes amplos horizontes na colaboração da vida coletiva (Apud OLIVEIRA: 2003, P. 65).



[1] Cf. SILVA, Laonte Gama da. Entrevista concedida no dia 24 de setembro de 2003. Laonte Gama da Silva foi diretor da escola durante 16 anos. Ele morou na residência oficial do diretor do Colégio Agrícola Benjamin Constant durante sete anos, entre os anos de 1966 e 1973. Apesar das reclamações do professor Laonte Gama acerca das dificuldades financeiras vividas pela instituição de ensino ao longo da década de 1970, aquele período foi,provavelmente, o momento no qual houve o maior volume de investimentos e de recursos para custeio.

[2] A casa do diretor era considerada muito boa. Tinha uma sala de visitas com 60 metros quadrados. Possuía também uma área íntima separada da ala social (o que não era comum em residências das décadas de 1950 e 1960). Havia espaço suficiente para receber mais de um hóspede ao mesmo tempo, destinado às pessoas que visitavam a escola. Tudo isso em função das dificuldades de comunicação rodoviária nos dezoito quilômetros que separavam o Quissamã da cidade de Aracaju.

[3] No Poder Judiciário existem muitas ações de despejo e de reintegração de posse nas quais a Escola figura como autora.

[4] Cf. OLIVEIRA, Milton Ramon Pires de. Op. cit. p. 90. A análise de Milton Ramos Pires de Oliveira faz referência à situação dos Patronatos no Rio de Janeiro. Contudo, na década de 1920, ao criar o Patronato Agrícola São Maurício, o presidente do Estado de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, vinha realizando expressivos investimentos na reorganização do espaço urbano da cidade de Aracaju.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 13h13
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PARA CIVILIZAR O CAMPO: A CULTURA ESCOLAR DO ENSINO TÉCNICO AGRÍCOLA VI

 

 

 

As instalações e o equipamento existente nas instituições de ensino agrícola sempre cumpriu dupla função. Além de atender as necessidades próprias às atividades de ensino e produção, tem servido também para demonstrar que o saber técnico da atividade agrícola é importante para aumentar a eficiência da produção. O equipamento, deste modo, atesta a modernização agrícola do Brasil.   

Portanto, desde que se iniciou o processo da implantação do Patronato São Maurício, em 1924, foram buscados os meios para que a instituição se equipasse com o objetivo de atender as suas finalidades e mantivesse alunos e professores morando nas suas instalações.

Quando o Patronato Agrícola São Maurício foi inaugurado, os seus dirigentes e professores moravam em três casas dotadas de água corrente, energia elétrica e instalações sanitárias. Ao ser transferido para o Governo Federal, em 1934, e transformado em Aprendizado Agrícola de Sergipe, o Patronato dispunha de doze casas para residência de vários servidores. Administrar o acesso dos professores e funcionários às residências ali existentes sempre foi uma questão que gerou algum tipo de dificuldade na instituição.

Em 1940, moravam no Aprendizado Agrícola Benjamin Constant o diretor, cinco professores e um inspetor de alunos (BRASIL: 1940, p. 3). Essa situação havia sido possível porque no último trimestre do ano anterior foram feitos investimentos na reforma das casas existentes e na construção de duas novas moradias. As novas casas ficaram prontas no mês de abril do ano de 1940 e foram ocupadas por professores que ainda não residiam na instituição[1]. Porém, no mês de junho do mesmo ano, o diretor José Augusto de Lima solicitou do Superintendente do Ensino Agrícola os recursos necessários para construir mais doze casas: quatro destinadas a professores e oito para trabalhadores rurais (BRASIL: 1940, p. 296).

Novos investimentos nas residências da instituição voltaram a ser feitos na década de 50, quando foi construída uma nova, mais ampla e mais confortável casa para o diretor, durante a gestão do professor Wanderley do Prado Barreto (FRANCO: 2003).

A partir de 1966, o diretor Laonte Gama da Silva captou recursos e fez significativos investimentos na recuperação das moradias dos docentes, uma vez que, ao tomar posse do cargo naquele ano constatou que, além do diretor, apenas um professor vivia no estabelecimento de ensino[2]. Na primeira metade da década de 60 não fora prioridade do Colégio fixar professores nessas casas. Porém, a partir de 1966, com a nova política da direção, que estimulava a moradia dos professores na instituição, muitos servidores tiveram que desocupar as casas a fim de que elas fossem cedidas aos docentes. Este foi um processo que enfrentou muitas resistências. A reorganização das casas do Colégio estabeleceu um ambiente de conflito entre professores e servidores técnico administrativos da escola. A mudança neste tipo de política ocorreu porque a direção do Colégio resolveu recrutar novos professores com formação específica para o ensino agrícola. Esses novos docentes vieram de outros Estados e precisavam fixar residência no interior da escola[3]. Aliás, desde os primeiros anos de funcionamento da instituição, o processo de distribuição das oportunidades de moradia na Fazenda Quissamã fora motivo de conflitos. “Para conseguir uma moradia na Escola era difícil. Dependia de amizade com o diretor” (BOMFIM: 2003).

A política de privilegiar a destinação das moradias da Escola para docentes persistiu até o início da década de 80, enquanto a Escola foi dirigida por Laonte Gama da Silva. Um dos professores convidados por ele para morar no Colégio foi o veterinário Alfredo Cabral:

 

 

Morei lá quando eu casei, em setembro de 79. Entrei [na Escola] em março e em setembro casei. Eu fui morar lá e morei durante seis anos. Laonte nesse ponto foi inteligente, o que Chiquinho [Francisco Gonçalves] não foi. Laonte tinha interesse que professor morasse ali, naquelas casas. Ali só tinha professor morando. Eram pessoas do mesmo nível morando numa escola que tinha 320 alunos internos. Eu cansei de chegar lá dia de domingo de noite, oito horas da noite e vinha aluno sentindo dor. Eu pegava o meu carro ou o carro da Escola de plantão e trazia aqui para Aracaju. Laonte enxergou isso e isso para a escola é muito bom, porque se não ia ter que botar alguém de plantão lá à noite. Tinham seis ou sete professores. Eu gostei desse período. Quando Laonte saiu de lá e Chiquinho assumiu, aí a coisa começou a mudar, Chiquinho começou a botar funcionário. Morou um funcionário vizinho a mim e eu disse que já não dava para mim, porque você está na sua casa com uns dois colegas tomando cerveja e chega um funcionário bêbado querendo tomar cachaça. Ele não sabe respeitar o limite dele. Hoje não tem nenhum professor morando lá, o que é ruim para a Escola. Aliás, tem um só. Quer dizer, eu estava trabalhando sem ganhar hora extra, sem ganhar nada, tomando conta da escola. A escola continuava funcionando, e isso era bom demais para a escola. Hoje a gente está pedindo o que não tem. Hoje estão colocando funcionário para trabalhar de noite (CABRAL: 2003).

 

 

Nem todos os professores comungam da opinião de que morar na Escola era bom. A professora Humbelina Aciole do Bomfim morou ali durante oito anos, entre 1960 e 1968 e considera que morar nas casas da instituição significava a mais absoluta monotonia. “A gente trabalhava o dia todo e à noite cada família se trancava naquela casa e vivia a sua vida. Eu vim embora para Aracaju porque meus filhos precisavam estudar” (BOMFIM: 2003). Atualmente, apenas dois professores continuam morando nas casas da instituição.

O professor Francisco Gonçalves também revela que morar na escola criava algumas dificuldades. Ele mesmo foi residente nas casas da instituição durante sete anos, entre 1961 e 1968. “Eu saí da moradia da escola por causa dos meus filhos, porque lá não tinha escola de primeiro grau. Todos os dias eu saía da escola às seis e meia da manhã para trazer meus filhos ao colégio Sagrado Coração de Jesus. E novamente às onze horas eu saía da escola para buscar meus filhos. Era um sofrimento” (SANTOS: 2004). Mesmo até o início da década de 90 a educação dos filhos continuava sendo um fator que afastava os professores das casas existentes na Escola. “Eu morei lá de 1986 a 1992 e saí quando precisei colocar o meu filho mais novo na Escola. Os meus filhos estavam estudando e todos os dias tinha que trazer os meninos de manhã, depois pegar na hora do almoço, depois tinha que levar para a aula de reforço” (OLIVEIRA: 2004). Segundo Francisco Gonçalves foram as dificuldades existentes quanto a educação dos filhos dos professores e técnicos da escola que o levaram a criar a Escola de Primeiro Grau Iolando Vieira de Melo, em 1982, quando assumiu o cargo de diretor da Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão[4].



[1] Milton de Miranda Oliveira foi um dos professores beneficiado. Transferido do Aprendizado Agrícola Manoel Barata, no Estado do Pará, para o Aprendizado Agrícola Benjamin Constant, em Sergipe, foi morar em uma das novas casas da Fazenda Quissamã.

[2] Segundo Laonte Gama da Silva, em 1966, além dele, apenas o professor Alberto Monteiro morava no Colégio.

[3] O professor Laonte Gama da Silva, diretor do Colégio, viajou pessoalmente para Recife e visitou o Centro de Formação de Professores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde recrutou os novos docentes.

[4] A Escola de Primeiro Grau Iolando Vieira de Melo funcionou entre os anos de 1982 e 1993, quando então foi desativada pela então diretora da Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão, Cláudia Maria Lima Dantas. Cf. SANTOS, Francisco Gonçalves dos. Op. cit.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 13h55
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