REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS CULTURAIS NA ARACAJU DO SÉCULO XX - III

Os registros de crescimento da cidade, a instalação de espaços de lazer como cafés, confeitarias, bares, fazem sempre referências às áreas centrais ou aos bairros privilegiados, espaços de moradia da elite. Nos bairros populares, quando muito, indústrias que, sob o pretexto de estarem criando novos empregos, muitas vezes degradam as condições de vida e destroem o meio ambiente. Adquirir a condição de metrópole implica em impor um pesado ônus aos habitantes dos bairros mais pobres da cidade. Daí resultar inadequado buscar conhece-la de modo homogêneo. A metrópole está já muito distante do pequeno burgo fundado por Inácio Barbosa em 1855, com sua incessante luta contra as intempéries naturais. Todavia, as diferenciações persistem. Variam valores e costumes, a formação cultural. O quotidiano ambiental do cidadão comum é diverso, como os processos de formação da identidade cultural em cada área da cidade também se distinguem. São distintos a memória, os hábitos, a interação com o espaço geográfico. São diferentes os caminhos que levam ao passado de Aracaju, mas em todos eles a alteridade das pessoas sofre uma forte influência da cidade no seu processo de construção, a partir dos diferentes modos de enfrentamento dos desafios na luta pela vida. A história de vida das pessoas está entrelaçada à história do espaço que elas ocupam na cidade. Entrelaçamento que diferencia um grupo de pessoas que tem seu quotidiano no bairro 18 do Forte, de um outro grupo do Siqueira Campos, São Conrado, Santa Maria (Terra Dura), Industrial, Cirurgia, Ponto Novo, Coroa do Meio ou Atalaia. As recordações dão conta da existência de duas cidades: a dos ricos e a dos pobres. A destes últimos, em tudo distinta da outra. Da paisagem ambiental à humana, dos utensílios domésticos aos costumes e aos ritos de passagem próprios da vida de homens e mulheres.

Um conjunto de depoimentos publicados pela Prefeitura de Aracaju no ano 2000 dá bem uma dimensão dos processos vividos pelas pessoas e das suas articulações com o desenvolvimento urbano de Aracaju[1]. Maria José Matos dos Santos, moradora do bairro Cirurgia, com 86 anos de idade, revela o processo de formação do bairro, hoje um importante núcleo urbano da cidade: “Aqui onde moro era tudo areia e não entrava carro, de forma nenhuma, não tinha água encanada nem tinha luz. Tinham três fontes, barriquinhas, o pessoal cavava e enfiava daquelas barricas de bacalhau”[2].   Este era o bairro Cirurgia do final dos anos 40 do século XX. A depoente revela o modo pelo qual o interesse das elites altera, para pior ou para melhor, as condições de vida nos bairros em que vivem as pessoas mais pobres: “Dr. Leandro foi morar ali antes de ser governo, trabalhando na prancha, foi ele quem tirou aquele morro de areia da avenida, perto do Oratório de Bebé. Bebé era uma moça boa, irmã de Dr. Lourival Fontes...”[3].  Ao lado das alterações da paisagem, mostra as transformações dos equipamentos urbanos: “O Colégio Salesiano também não era Salesiano, era Tebáia. (...) Quem não tinha cata-vento comprava água de bomba e tinha as fontezinhas na rua, era água vermelha”[4].

 Uma outra região da cidade, o Mosqueiro, era um povoado distante, completamente carente de todo o tipo de infraestrutura urbana. Área das mais pobres de Aracaju, como se observa a partir do depoimento de Maria de Lourdes Reis, agora com 73 anos de idade. O Mosqueiro dos anos 30 era um ambiente muito hostil, bem diferente da situação que tem agora – uma das mais importantes dentre as zonas de expansão da cidade, com as construções de muitos condomínios horizontais. Á época, sair do Mosqueiro e chegar ao centro de Aracaju era uma epopéia, três dias de caminhada: “...passamos por Areia Branca, Robalo e a Barreta, que hoje é Atalaia. A parte de traz do por do sol era o Barroso, agora é Augusto Franco, Santa Tereza. Chegamos em Aracaju no Carro Quebrado, que hoje é São José por causa da igreja”[5].  O acesso rodoviário passou a existir somente a partir da segunda metade dos anos 50 do século XX: “Foi ter a rodagem por causa de Leandro Maciel”[6].

 Há menos de 25 anos, nos anos 70 do século XX, aquela que hoje é uma das áreas mais valorizadas de Aracaju e tida como zona de crescimento urbano planejado, o bairro Coroa do Meio, apresentava muitas contradições: “Em 77 (...) comprei trinta metros de mangue na Coroa do Meio. (...) Quando a maré enchia tocava no varão da cama e a gente não podia dormir. Começamos nossa luta, me chamaram para entrar na diretoria de uma associação, tinha muita gente de fora: alagoano, pernambucano, cearense e paraibano, até hoje, tem poucos sergipanos. (...) Quando chegamos a vida da gente era pescar  e tinham algumas palhoças no beiço da praia, uns barzinhos onde a gente trabalhava. Onde hoje é o shopping era o farol, mas a água foi tomando e derrubou o farol. Na praia dos artistas não tinha nada, porque ninguém fazia festa ali, o mar era muito fundo e a areia cheia de tocos. Antes de João Alves fazer a ponte para atravessar ali era de canoa, pra fazer compras em Aracaju era obrigado a ir pela Atalaia e quando chegava no conjunto Olimpio Campos a gente descia e levava as compras, pisando um pé na frente do outro por dentro do mangue. Quando a gente veio ter a sorte de passar um carro ali foi em 82. (...) Em 85, Zé Carlos Teixeira fez umas quarenta casas perto do Colégio JK, quem foi pra lá foi indenizado e recebeu uma casinha. (...) No governo do velho Augusto Franco, em 79, começou a derrubada dos barracos, foi triste. O tratorista derrubava um barraco e dava uma gaitada, acertamos ele no cacete e na pedra, ele ainda passou quinze dias no hospital, foi uma guerra. A salvaguarda da gente, doa a quem doer, foi Jackson Barreto, do começo das derrubadas até o fim. Nessa época, trezentas famílias já moravam lá. Daí a pouco chegou Zé Carlos Teixeira, Jackson Barreto, Marcélio Bonfim e Reinaldo Moura, que era repórter. (...) o chefe do nosso movimento, quem controlava tudo, era Jackson Barreto, ele ia levando os outros: Rosalvo Alexandre, Edvaldo Nogueira, Ismael, Sérgio Bezerra, eram todos jovens, estudantes. (...) Em 80 teve outra derrubada, o governo já era João Alves. Ele queria fazer a Coroa do Meio como fez e ta uma beleza, foi valorizada. Entrou os benefícios da riqueza, porque a gente não tinha onde lavar uma roupa, não tinha onde se empregar ninguém. (...) hoje a Coroa do Meio é um bairro rico. Adoro a Coroa do Meio e tudo que tem aqui tem um pouco da minha coragem: a creche, o colégio, o posto de saúde...”[7].



[1] Cf. ARACAJU. PREFEITURA MUNICIPAL DE ARACAJU. Minha vida tem história.  Aracaju, Secretaria Municipal de Educação, 2000.

[2] Idem.

[3] Ibidem.

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem.

[6] Ibidem.

[7] Idem, ibidem. Depoimento de Josefa Vieira de Melo, 68 anos, moradora do bairro Coroa do Meio.