ARCHIMEDES PEREIRA GUIMARÃES E A INSTRUÇÃO PÚBLICA NA BAHIA

 

 

Na direção da Escola Agrícola, Archimedes buscou aperfeiçoar as condições de trabalho da instituição, reiterando as suas propostas nos sucessivos relatórios que encaminhava a Anísio Teixeira, então diretor da Instrução Pública. Segundo Nilton de Almeida Araújo[1], em relatório intitulado “Subsídios para a história da Escola Agrícola da Bahia”, Archimedes propôs um anteprojeto de Regulamento para a Escola Agrícola da Bahia, publicado no Diário Oficial do Estado, em primeiro de junho de 1927. Resultou também do trabalho de Archimedes a decisão tomada pelo governador em oito de junho de 1927, no sentido de transferir a Escola Agrícola da Bahia para os arredores da capital, adquirindo “os terrenos da fazenda Areia Preta, encomendando elaboração por profissional estrangeiro dos projetos definitivos do edifício da Escola Agrícola, com parque de experimentação e demonstração, além de uma fazenda modelo”[2]. Esta proposta de transferir a Escola para Salvador, contudo, somente foi concretizada em 1931, quando o interventor federal deliberou transferir a instituição para os edifícios da Hospedaria dos Imigrantes, em Monte Serrat.

Sob o projeto de ensino profissional comandado por Anísio e Archimedes, era necessário regularizar a situação da Escola Agrícola de ensino superior, para depois disseminar pelo Estado uma rede de escolas agrícolas de nível médio.

Como diretor do ensino primário e profissional, Archimedes Guimarães viajou a São Paulo, em 1928, para visitar a sua família. Seus pais e irmãos à época viviam em Santos. Archimedes aproveitou para fazer uma série de visitas pedagógicas a instituições do ensino público do Estado de São Paulo. Percorreu grupos escolares santistas, especialmente o “Cesário Bastos”, no qual se diplomara em 1904. Em companhia do inspetor Primo Ferreira e do professor Armando Bellegarde, diretor do estabelecimento, por duas vezes esteve na instituição. Ali conheceu e ficou entusiasmado com o método analítico aplicado ao ensino de todas as matérias e assistiu a demonstração de exercícios de ginástica. Nos demais grupos escolares e na Escola Normal Livre “José Bonifácio” colheu material a respeito dos métodos de ensino e da formação de professores. Na mesma Escola Normal Livre esteve presente em uma aula de Didática, ministrada pelo professor Nicanor Ortiz, e a uma aula de Música.

Na cidade de São Paulo, Archimedes Guimarães entrou em contacto com Amadeu Mendes, que o acompanhou em visita a diversos pontos, dentre os quais o Parque do Estado e a Diretoria de Indústria Animal. Acompanhado pelo inspetor do ensino José Ferraz de Campos esteve visitando as escolas rurais do Butantã, o Grupo Escolar “Rodrigues Alves” e o Jardim da Infância. Com Amadeu Mendes visitou as duas escolas profissionais da capital: a masculina e a feminina. Archimedes Guimarães foi recebido também pelos professores Alduino Estrada, Euzébio de Paula Marcondes, Cymbelino de Freitas e Carlos da Silveira, além do já citado José Ferraz de Campos, que lhe explicaram detalhadamente a reforma do ensino que acontecia em São Paulo.

            Além da cidade de Santos e da capital, Archimedes Guimarães visitou também as cidades de São Carlos, Araraquara, Piracicaba e Campinas, tendo elogiado os edifícios escolares que conheceu, principalmente as escolas normais de São Carlos, Piracicaba e Campinas, dirigidas, respectivamente, pelos professores Fausto Lex, Lourival de Queiroz e Geraldo Alves Corrêa. Também demonstrou entusiasmo com as instalações das escolas profissionais de São Carlos e de Campinas, bem como com os edifícios dos grupos escolares das mesmas cidades.

Archimedes Pereira Guimarães percorreu também as instalações da Escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba, e o Instituto Agronômico de Campinas, elogiando os gabinetes de Eletrotécnica, Maquinas e Motores e os laboratórios de Química da Escola Politécnica.

Archimedes Guimarães era pródigo ao elogiar o trabalho de Anísio Teixeira à frente da Instrução Pública baiana. Em entrevista ao jornal Diário de São Paulo, concedida em 1928, afirmou ser possível considerar a instrução publica na Bahia em duas fases distintas: a primeira, atravessava todo o Império e se encerrava no ano de 1925; a segunda se iniciava em 1925, com a chamada Lei Góes Calmon, que consubstanciava a reforma realizada por Anísio Teixeira. O presidente da Bahia, Góes Calmon, ao obter a aprovação da lei 1846, de 14 de agosto daquele ano, credenciou Anísio Teixeira a reformar completamente o ensino no Estado. O trabalho da reforma foi iniciado efetivamente em janeiro de 1926, tendo como um dos seus méritos a estadualização do ensino. Antes da reforma, cada município tinha a sua própria lei orgânica da instrução. Anísio Teixeira atacou tal questão durante a III Conferência Nacional de Educação. A sua reforma compreendia não apenas o ensino primário, mas também o normal e o secundário.

Nos períodos durante os quais atuou como substituto de Anísio Teixeira na Diretoria de Instrução Pública baiana, Archimedes Guimarães, não obstante executar projetos próprios, sempre foi orientado pelo amigo. A primeira vez, em 1927, quando Anísio viajou para os Estados Unidos da América, essa orientação era muito visível, até mesmo em detalhes como a aquisição de material didático e mobiliário escolar para a rede pública e também para escolas privadas da Bahia:

 

 

Segue amanhã, pelo "Vilaflores", toda a encomenda escolar do Estado da Bahia, com exceção apenas dos rolos de tela de pizarra para quadros negros que não puderam ficar prontos, mas, que serão embarcados dentro de breves dias. As carteiras vão embaladas em pequenas caixas de 40 lb mais ou menos cada uma, sendo que algumas caixas contêm somente as armações de madeira e outras as peças de ferro e outras as ferragens miúdas. Julgo que apesar da aparente complexidade que pode parecer trazer essa divisão, não havia melhor modo de as acomodar, de sorte a facilitar o transporte para o interior do Estado. O número de caixas é superior a 1600. Todos os detalhes vão especificados nos papéis oficiais que lhe envio hoje, ou que envio ao governo. No intuito de facilitar a compra de algumas carteiras ao Colégio Soledade, consenti que se incluísse na encomenda oficial o pedido desse colégio. Os papéis são suficientemente claros, eu penso, para não haver nenhuma dificuldade quanto ao caso, para o qual julgo dispensável recomendar estrita reserva, sobretudo da parte do colégio, pois não hão de faltar espíritos que julguem censurável esse pequeno favor a um instituto de educação. Agora será preciso que lhe diga todo o meu interesse em que a distribuição desse material seja feita debaixo de um inteligente critério de eficiência, de sorte a não ser desperdiçada uma migalha das vantagens que poderão advir ao nosso aparelho escolar dessa importante contribuição do governo para o seu conveniente equipamento. Muito espero de V., do Jaime e de Albino e Aristides quanto a esse assunto. O critério local será sempre mais completo que o meu e VV. aí, ouvindo o Dr. Calmon, poderão fazer tudo com o maior proveito possível para as escolas[3].



[1] Cf. ARAUJO, Nilton de Almeida. A Escola Agrícola de São Bento das Lages e a institucionalização da Agronomia no Brasil (1877-1930). Dissertação de Mestrado. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2006. p. 167. 

[2] Cf. ARAUJO, Nilton de Almeida. A Escola Agrícola de São Bento das Lages e a institucionalização da Agronomia no Brasil (1877-1930). Dissertação de Mestrado. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2006. p. 169.

[3] Cf. Carta de Anísio Teixeira a Archimedes Guimarães, em 29 de junho de 1927. In: Biblioteca Virtual Anísio Teixeira. Acesso http://www.prossiga.br/anisioteixeira/, no dia 10 de junho de 2006.