EDUCAÇÃO É HISTÓRIA

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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - VI

É necessário verificar que a instituição escolar e os institutos de pesquisa são hierarquizados e hierarquizadores dos saberes e do prestígio atribuído aos agentes que neles atuam e às pessoas que eles formam. Para discutir este problema sob a perspectiva da pesquisa e do ensino de Química é possível dialogar com Pierre Bourdieu, apanhando deste autor um conjunto conceitual referente aos problemas próprios à constituição do campo profissional dos químicos no Brasil. O ensino de Química deve também ser visto sob a ótica do processo de legitimação do exercício de profissões que incorporaram os saberes técnicos escolarizados ao seu conjunto de práticas. O estudo das escolas e das instituições de pesquisa deve, portanto, observar que elas tornam-se “um designativo das formas de capital simbólico que definem as diversas posições de certos grupos ou agentes num dado debate intelectual”[i], estabelecendo o lugar de cada uma das escolas e dos institutos de pesquisa no campo intelectual.

Ao operar com a noção de habitus como sistema de disposições socialmente construídas a partir da escola e dos padrões científicos estabelecidos, Pierre Bourdieu descortina o princípio gerador e unificador de esquemas de pensamento e das práticas próprias a um determinado grupo de indivíduos escolarizados[ii]. Assim, as escolas e as instituições de pesquisa são agências formadoras de habitus que incorporaram padrões culturais em circulação no Brasil, nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus.

O processo de difusão das ciências que ocorreu no Brasil a partir das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX fez com que se expandisse não apenas a quantidade de escolas superiores, mas também redes de instituições científicas. A rede de escolas e de instituições de pesquisa aprofundou o conhecimento científico a respeito dos saberes com os quais operavam à medida que os químicos se empenhavam para constituir um discurso que, exacerbando o caráter científico e autônomo de sua atividade, lhes garantisse reconhecimento social e legitimidade intelectual[iii]. Na condição de escolas e institutos de tecnologia e de pesquisa científica essas instituições terminaram por oferecer aos próprios químicos as condições que o projeto de cientifização da sua atividade requeria. O estudo da história da pesquisa e do ensino de Química possibilita perceber um dos modos usado pelos profissionais com formação superior para a gestão científica do seu campo.

 



[i] Cf. MENDONÇA, Sônia Regina de. 1992. A balança, a régua e o arado: sistemas de ensino e ‘habitus’ de classe na Primeira República. Cadernos do ICHF. Nº 48, novembro. Niterói, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense. p. 4.

[ii] Cf. BOURDIEU, Pierre. 1974. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Perspectiva. p. 19.

[iii] Cf. MENDONÇA, Sônia Regina de. 1992. Op. cit. p. 27.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h36
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - V

Na área do Quissamã instalou-se o Centro Agrícola Epitácio[i] Pessoa[ii], sendo fundado um laboratório de análises com o objetivo de “atender ao requisito da falta de controle científico e conhecimentos técnicos na produção do solo”[iii]. Mas, a pedra de toque do projeto naquela região foi o assentamento de vinte e duas famílias de colonos alemães, uma experiência frustrada e abandonada em seguida[iv]. Desde o século XIX a formação de colônias agrícolas com trabalhadores europeus era defendida por intelectuais e políticos.

 

 

No entender da intelligentsia nacional do século XIX, o principal problema brasileiro era o predomínio da população de origem africana e mestiça, de forma que o aumento do estoque da população de origem européia era um objetivo em si mesmo, ainda que, eventualmente, não resolvesse o problema de braços para a lavoura[v].

 

 

É necessário observar este período de modo mais amplo e verificar que a década de 1920 em Sergipe representou um momento importante para a difusão dos conhecimentos da Química, principalmente quando se considera que sucessivos governos investiram na criação de laboratórios destinados ao ensino dessa ciência, como o presidente Manoel Dantas, que exerceu a chefia do Poder Executivo sergipano entre os anos de 1927 e 1930. Preocupado com a modernização educacional e com o nível de instrução científica das professoras primárias, ele instalou um moderno laboratório na Escola Normal Rui Barbosa de modo a dotar a instituição de meios práticos para a realização do seu mister. O discurso educacional que fazia à época o diretor geral da Instrução Pública e Diretor da Escola Normal, Manoel Franco Freire, era influenciado pelos preceitos da pedagogia moderna e defendia um modelo pedagógico de caráter prático[vi]. O caráter do ensino de Química no laboratório da Escola Normal era o da aplicação desse conhecimento à vida prática, doméstica e industrial. O laboratório era, portanto, o meio de dar forma concreta às lições. A mesma mentalidade fora determinante, no final do ano anterior, sob o governo do coronel Cyro de Azevedo, para a reorganização do laboratório de Química do Colégio Atheneu. Por outro lado, através da lei estadual número trinta, de 18 de dezembro de 1935, obrigou todas as escolas privadas que oferecessem o ensino normal a manter laboratórios de química em funcionamento, dentre outras instalações acadêmicas[vii].

Entretanto, o ensino das Noções Gerais de Química estava presente no currículo das escolas secundárias de Sergipe desde o século XIX. No Liceu Sergipense, instalado em outubro de 1862, essa disciplina científica ocupava posição destacada no currículo. 

Captar esse processo de formação do campo é fundamental. Há necessidade de olhar o Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe por dentro, apanhar as suas práticas, priorizando esse enfoque sem, contudo, desprezar o âmbito das suas relações com a vida social do mundo exterior, uma vez que as instituições científicas de cada sociedade correspondem a suas necessidades.



[ii] Na década de 1930, o Centro Agrícola Epitácio Pessoa foi transferido para o controle do Ministério da Agricultura e se transformou na Estação Experimental de Plantas Têxteis. Cf. BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. 1938. Relatório das atividades do Ministério da Agricultura, durante o período de julho de 1934 a dezembro de 1935, apresentado pelo Ministro Odilon Braga. Rio de Janeiro, Diretoria de Estatística da Produção do Ministério da Agricultura. p. 15.

[iii] Cf. SERGIPE. 1923. Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa em 7 de setembro de 1923, ao instalar-se a Primeira Sessão ordinária da Décima Quinta Legislatura, pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso, Presidente do Estado. Imprensa Oficial.

[iv] “Iniciei a colonização estrangeira, com a localização, nos lotes adrede preparados, nesse estabelecimento, de 22 famílias alemãs. Penso que surtirá bom resultado este tratamento, que virá animar os proprietários agrícolas, que tanto sentem a falta de braços para o tamanho de suas terras, a procurarem esse valioso elemento. O Patronato São Maurício, que ali fiz erguer, com capacidade para 200 menores, aguarda apenas a terminação do mobiliário, para ser inaugurado”. Cf. SERGIPE. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1924, ao instalar-se a 2ª sessão ordinária da 15ª legislatura pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso Presidente do Estado.p. 24.

[v] Cf. PASSOS Subrinho, Josué Modesto dos. 2000. Reordenamento do trabalho. Trabalho escravo e trabalho livre no Nordeste açucareiro. Sergipe 1850-1930. Aracaju, Funcaju.p. 280.

[vi] Cf. VALENÇA, Cristina de Almeida. 2003. Entre livros e agulhas: representações da cultura escolar feminina na Escola Normal em Aracaju (1871-1931). São Cristóvão. Monografia (Licenciatura em História). Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. 

[vii] Cf. SERGIPE. Lei nº 30, de 18 de dezembro de 1935.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h53
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - IV

Ambas as abordagens oferecem importantes contribuições à pesquisa sobre o assunto. O entendimento deste memorialismo é o de que o ensino de Química ao se consolidar no Brasil apresentou dois modelos: o escolar – voltado para o ensino profissional, educando para a formação de profissionais em nível superior – e o de aplicação - através de Institutos de pesquisa aplicada e útil para o emprego agrícola e industrial imediato. Todavia, é necessário alargar a perspectiva de interpretação do desenvolvimento da Química entre nós, buscando para ela uma maior fertilidade científica, tomando contribuições presentes em trabalhos que se dedicam a analisar temáticas como a da formação do campo científico e das práticas escolares e científicas no Brasil, de modo a oferecer maior clareza à constituição do conhecimento histórico quanto a esta questão. Para isto, é necessário ter clareza de que não foi apenas o ensino que ofereceu este tipo de contribuição na história do Brasil. Tal contribuição passa a ser predominante a partir da metade do século XX. Contudo, o campo da pesquisa química, no Brasil e também em Sergipe, vinha se constituindo desde o século XIX, em muitos casos à revelia de instituições de ensino.

Por isto, o problema que requer maior atenção neste embate diz respeito ao conjunto de representações sobre a história do Brasil, disseminado a partir do movimento republicano. Dentre as idéias difundidas está presente uma quase consensual certeza de que a política cultural e científica brasileira é obra exclusiva do republicanismo, desfocando assim as discussões a respeito do problema. É evidente que o Estado republicano efetuou transformações no discurso a respeito do ensino e da pesquisa científica, porém não se pode afirmar que tais preocupações e concepções eram novas na sociedade brasileira. As alterações no discurso acerca do ensino e da pesquisa Química durante a primeira metade do século XX, além da busca de legitimação política dos profissionais, são reveladoras do modo como a ciência e o campo acadêmico buscavam legitimar-se sob a condição de serem suficientes para a solução dos problemas brasileiros.

As abordagens a respeito do ensino e da pesquisa Química sempre estão presentes nos estudos que discutem as condições sociais do processo produtivo brasileiro no campo e na cidade. Contudo, para compreender a formação e legitimação de atividades como a Química durante a primeira metade do século XX é necessário olhar não apenas para o ensino superior, mas também buscar o processo de organização de uma rede de instituições de pesquisa.

Quando o presidente do Estado de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, criou o Instituto de Química Industrial, em julho de 1923, já estava consolidada a consciência de que a Química, ao lado da Biologia, da Física e da Matemática, constituía o campo disciplinar legitimador dos paradigmas e dos conceitos da medicina. Esta função, a Química adquirira ao mesmo tempo em que se legitimara, na segunda metade do século XIX, como ferramenta fundamental ao desenvolvimento da indústria. Por isto, se considerava importante formar “químicos analistas capazes de orientar (...) os laboratórios e as indústrias”[i]. Assim é que o Instituto, ao ser implantado tinha dois grandes objetivos definidos: a manutenção de laboratórios para análises dos problemas químicos ligados aos produtos agrícolas e industriais; e, a formação de químicos analistas. O decreto do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, que criou a nova instituição afirma que “a química é uma ciência que se prende a todos os ramos do saber universal, e como tal, dela dependem as indústrias de maior relevância para o homem”.

Quando da instalação do Instituto, o presidente Graccho Cardoso, convidou o professor Archimedes Pereira Guimarães para implanta-lo, na condição de primeiro diretor. Professor de Química Orgânica e Instrumental do Curso de Química Industrial da Escola Politécnica da Bahia, Archimedes Guimarães chegou a Sergipe defendendo que o Instituto deveria

 

 

exercer a missão superior e delicada que lhe seria destinada, e não deveria preocupar-se com todos os problemas agrícolas e industriais que poderiam vir a ser uma fonte de riqueza para o Estado, mas tão somente em incentivar a produção daquelas matérias primas já em exploração e comércio, melhorando-as quer no estado bruto, quer como produtos acabados, de acordo com os modernos ensinamentos científicos[ii].

 

 

            De acordo com o seu entendimento, o Instituto deveria priorizar a análise de produtos agrícolas e industriais que fossem já objeto de comércio, além da formação de novos profissionais dedicados à análise de produtos químicos. A instituição foi instalada inicialmente em um edifício situado à rua Duque de Caxias. O equipamento, o mobiliário e os insumos foram adquiridos em São Paulo, no Rio de Janeiro e importados da Europa e dos Estados Unidos da América.

            O projeto implementado pelo professor Archimedes no Instituto de Química Industrial levou a instituição a desenvolver dois tipos de atividades laboratoriais: o primeiro manteve um laboratório completo para análises da cana-de-açúcar e do açúcar manufaturado em todas as suas fases de fabricação, “tendo sempre em vista o seu maior rendimento, para análises dos óleos vegetais e pesquisas sobre sua extração e exploração mais vantajosas, especialmente sobre o aproveitamento industrial dos cocos nuciferas, para análise de terras, adubos, inseticidas etc”[iii]. O laboratório para o açúcar foi concebido para manter relações estreitas com uma estação experimental de cana, nos mesmos moldes da existente em Campos, no Rio de Janeiro. Dentre os sonhos do professor Archimedes estava o propósito de conseguir, através da melhoria do cultivo da cana, a obtenção do álcool industrial como substituto da gasolina.

O professor Archimedes levou o Instituto a estudar também o tanino do mangue, abundante em toda a orla marítima e fluvial de Sergipe, de modo a aplicá-lo nos curtumes e tinturarias, sobre as féculas e a panificação, de modo a obter um tipo de pão misto de trigo e mandioca. Em torno da pesquisa do tanino havia também a expectativa de aplicação em materiais cerâmicos, bebidas e uma grande variedade de gêneros alimentícios.

Um ano antes de fundar o Instituto de Química Industrial, o presidente Maurício Graccho Cardoso já demonstrava uma preocupação muito acentuada com os problemas agrícolas de Sergipe e os impactos da atividade agrícola na economia local. Para dinamizar o setor ele criou o Banco Estadual de Sergipe e implantou centros experimentais de sementes selecionadas, principalmente com a finalidade de aperfeiçoar a produtividade e a qualidade do algodão em Sergipe. Com o mesmo propósito contratou um pesquisador norte-americano, o professor Thomaz R. Day, oriundo do Texas. O principal objetivo buscado com a presença deste especialista estrangeiro em Sergipe era fundar a Estação Experimental Miguel Calmon. Em 1923, Graccho Cardoso criou o Departamento Estadual do Algodão.

 



[i] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[ii] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[iii] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 09h48
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - III

2 - O MÉTODO, A MEMÓRIA E A HISTÓRIA INSTITUCIONAL        

 

 

O estudo da história das instituições científicas e da difusão das suas práticas formativas e de pesquisa pode ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento de cada um dos campos específicos, possibilitando o debate sobre os itinerários teórico-metodológicos e a reflexão sobre as formas de transmissão da cultura científica e tecnológica. O campo de estudos sobre a história da ciência e da tecnologia em Sergipe ainda é incipiente. Existem alguns esforços encetados pela Universidade Federal de Sergipe, pela Universidade Tiradentes e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. Vale também registrar o esforço que vem sendo feito, recentemente pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe – FAP/SE, estimulando algumas iniciativas. Na mesma direção, assiste-se a uma preocupação crescente no país com a memória da ciência e da tecnologia, revelando esforços para a recuperação de informações sobre o passado.

Os oitenta anos de funcionamento do ITPS não foram efetivamente celebrados pelos profissionais da Química em Sergipe. Todavia, constituir e colocar em circulação uma memória é a forma prática de oferecer as bases empíricas para a organização de um campo científico: o da História. A história é, por assim dizer, a forma científica de organização da memória. Esta, por ser fruto de uma escolha efetuada pela ação temporal das configurações humanas, se apresenta sob a condição de monumento. Ou, quando tomada pelos historiadores, submetida ao trabalho destes, caracterizada como documento. O historiador Jacques Le Goff lembra que a palavra latina

 

 

monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O monumentum é um sinal do passado... é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. O monumento tem como característica o ligar-se ao poder de perpetuação voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos[i].

 

 

As contribuições memorialísticas são sempre bem vindas. Principalmente, quando bem ordenadas e expostas de um modo que vão além dos limites da própria memória.

O ensino e a pesquisa em Química podem ser analisados sob diferentes aspectos. O que se propõe aqui é o entendimento das diferentes propostas e das práticas mais importantes que, ao longo de três anos, marcaram a atuação do Instituto de Química Industrial e a primeira experiência do ensino superior de Química em Sergipe. A participação de Sergipe no processo de organização de uma rede nacional de instituições destinadas ao ensino e pesquisa da Química é um tema que não recebeu a devida atenção da produção historiográfica sergipana. Mesmo com o funcionamento de tais instituições, em Sergipe, durante todos esses anos ininterruptamente, a pesquisa e o ensino de Química não tem sido objeto de estudos sequer por parte dos pesquisadores que se dedicam a investigar a História da Educação e a História da Ciência, menos ainda, tem recebido atenção dos químicos industriais e dos engenheiros químicos. De um modo geral, são poucos os estudos de História da Educação e sobre a História da Ciência no Brasil que se dedicam a investigação dessa temática. A bibliografia sergipana registra apenas dois textos específicos sobre o assunto, ambos memorialísticos. Um deles foi elaborado pelo professor José Pedro de Andrade Castor[ii] e o outro é de autoria da professora Djalma Andrade[iii].

A memória específica sobre a formação de profissionais da Química em Sergipe apresenta duas características explicativas: a primeira remete para a representação construída pela geração de 1948, que se apresenta como fundadora do campo e, em certa medida, secundariza as contribuições da geração de 1923, posto que o foco dos holofotes tende a deixar na penumbra o grupo que se dedicou a este mister no período entre guerras. Além disso, a memória da geração de 1948 tende a assumir a identidade de ter sido o primeiro grupo de pesquisadores no campo a realizar estudos sistemáticos associados ao processo de formação, produzindo para o grupo antecedente a representação de excelentes estudiosos, que infelizmente não teria desfrutado da possibilidade de formar profissionais (o que é verdadeiro apenas em parte) e por isto teria trabalhado com pesquisas pontuais destinadas a resolução de problemas tecnológicos imediatos ligados ao processo de produção (o que é improcedente); a segunda característica dessa memória remete a organização de um conjunto de instituições científicas destinadas à pesquisa Química em Sergipe, na década de 1920, a uma suposta premência da expansão capitalista no Estado.

            A legitimação da primeira tendência pode ser observada em trabalhos memorialísticos como o do professor José Pedro de Andrade Castor, que afirma a identidade da geração de 1948 como a dos criadores de “uma elite de profissionais competentes, capaz de promover e estimular o desenvolvimento cultural e industrial do Estado e, conseqüentemente do país”[iv]. Elite na qual esses mesmos memorialistas se inserem, apresentando-se então como membros da geração de fundadores, ou, na pior das hipóteses, por ela formados. Já a afirmação da segunda tendência pode ser obtida em estudos que analisam a implantação do ensino superior em Sergipe, analisando tal processo “como conseqüência do desenvolvimento econômico”[v].



[i] Cf. LE GOFF, Jacques. 1984. “Documento/Monumento”. In: Enciclopédia Einaudi. Vol. 1. Memória-História. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda. p. 95-106.

[ii] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. Op. cit. p. 71-77.

[iii] Cf. ANDRADE, Djalma. 1999. Op. cit. p. 91-99.

[iv] Idem. P. 71.

[v] Cf. SANTOS, Lenalda Andrade. 1999. “Da dispersão à unidade: o trajeto da UFS”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 12. Partem dos mesmos pressupostos as interpretações produzidas por dois outros autores: Cf. OLIVA, Luiz Eduardo. 1990. O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe. Florianópolis, Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal de Santa Catarina; LIMA, Luiz Eduardo Pina. 1993. Ideologias e utopias na História da Educação: o processo de criação da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. 1950-1951. São Cristóvão, Monografia (Especialização em Ciências Sociais). Universidade Federal de Sergipe.     



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h36
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - II

O decreto do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, que criou a nova instituição afirma que “a química é uma ciência que se prende a todos os ramos do saber universal, e como tal, dela dependem as indústrias de maior relevância para o homem”. Em 1926, o Instituto de Química Industrial passou a ter a denominação de Instituto Arthur Bernardes[i] e em 1942 de Instituto de Química e Bromatologia do Departamento de Saúde Pública de Sergipe[ii]. No ano de 1942, o Instituto foi incumbido de preparar

 

 

analistas capazes de melhorar a técnica das indústrias existentes ou fomentar novas indústrias, bem como realizar análises de matérias primas, produtos e sub-produtos e fazer pesquisas de sua especialidade que interessem ao desenvolvimento dos processos agrícolas, industriais, a saúde pública e ao esclarecimento da polícia e da justiça[iii].

 

 

Para cumprir tal objetivo o Instituto foi dividido em duas seções: Escola de Química[iv] e Seção de Análises e Pesquisas. Por fim, em outubro de 1948, o Instituto recebeu a sua atual denominação: Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe.

O Conselho Nacional de Educação autorizou a instalação do curso de Química Industrial em julho de 1949[v] e o governo estadual regulamentou o funcionamento da Escola de Química de Sergipe em dezembro do mesmo ano[vi]. As atividades letivas foram iniciadas em 1950. A Escola, porém continuou integrada à estrutura do ITPS e o diretor do órgão estadual de pesquisa acumulava também a direção da Escola de Química que, de resto, continuava funcionando nas dependências do Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. O curso de Química oferecido obteve reconhecimento em 1953[vii], o que “permitiu a seus diplomados o exercício da profissão em todo o território nacional”[viii].

A Escola de Química de Sergipe entrou em nova fase a partir de 1962, quando ganhou autonomia e separou-se do Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe. Em 1968, com a criação da Universidade Federal de Sergipe, a Escola passou a integrar a sua estrutura como Instituto de Química. A formação oferecida foi ampliada dois anos depois, com a criação do curso de Licenciatura em Química[ix]. O curso de Engenharia Química foi criado no ano seguinte[x].



[i] Cf, SERGIPE. Decreto nº 942, de 16 de julho de 1926.

[ii] Cf. SERGIPE. Decreto nº 142, de 04 de dezembro de 1942.

[iii] Idem.

[iv] Cf. SERGIPE. Lei nº 86, de 25 de novembro de 1948.

[v] Cf. BRASIL. Decreto nº 26.928, de 21 de julho de 1949.

[vi] Cf. SERGIPE. Decreto nº 161, de 31 de dezembro de 1949.

[vii] Cf. BRASIL. Decreto nº 32.766, de 14 de maio de 1953.

[viii] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 72.

[ix] Cf. ANDRADE, Djalma. 1999. “O curso de Licenciatura em Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 91.

[x] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 71-77.. P. 75.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h17
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926)

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[i]

 

 

 

 

1 - INTRODUÇÃO

 

 

Este estudo é uma primeira tentativa de análise da trajetória histórica do ensino e da pesquisa da Química em Sergipe. O Instituto de Química Industrial de Sergipe, atualmente Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, foi a primeira instituição a se dedicar a este campo de ensino e pesquisa no Estado. Fundado em 1923[ii], pelo presidente Maurício Graccho Cardoso, logo após a criação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em São Paulo, e do Instituto Nacional de Tecnologia – INT, no Rio de Janeiro, o Instituto de Química industrial buscava contribuir para com o aperfeiçoamento da indústria do açúcar – principal fonte da riqueza em Sergipe nas primeiras décadas do século XX. A crença era de que o aumento da produção estava diretamente relacionado ao conhecimento da composição do solo, à melhoria do cultivo da planta e ao controle químico da produção em laboratório. O Instituto de Química Industrial oferecia um curso de três anos de nível superior destinado a preparação de técnicos para a indústria açucareira, a exploração do sal, a preparação do couro e o aproveitamento das plantas oleaginosas.

Este trabalho foi delimitado temporalmente entre os anos de 1923 e 1926, por serem estes os anos que marcam o momento no qual se registra o início do efetivo funcionamento da primeira instituição estatal dedicada ao ensino e a pesquisa da Química em Sergipe e a crise do primeiro curso superior de Química sergipano. Este trabalho nasceu da necessidade de estudar a história do ensino e da pesquisa Química em Sergipe, como parte do processo de organização do Centro de Memória da Ciência e da Tecnologia – CMCT. Assim, buscou entender os procedimentos próprios a organização da entidade de ensino e pesquisa que atualmente funciona sob a denominação de Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe – ITPS. A investigação envolve o estabelecimento de categorias analíticas capazes de estabelecer distinções e menções a teorias. A modalidade de ensino aqui analisada diz respeito ao ensino técnico de nível superior oferecido pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe a partir do início do século XX.

A análise apresentada tomou como base quatro textos publicados em Sergipe que tratam da história da pesquisa e do ensino da ciência e da tecnologia em Sergipe. Dois deles discutem o problema da organização da Universidade Federal de Sergipe[iii] e dois outros se debruçam especificamente sobre a pesquisa e o ensino da Química[iv]. Os dois estudos específicos sobre a História do ensino da Química em Sergipe foram avaliados a partir da perspectiva historiográfica que expressam.

 

 



[i] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP. Professor adjunto do Departamento de História e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação: Intelectuais da Educação, Instituições Educacionais e Práticas Escolares. E-mail: jorge@ufs.br

[ii] Cf. SERGIPE. Decreto nº 825, de 27 de junho de 1923.

[iii] Cf. OLIVA, Luiz Eduardo. 1990. O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe. Florianópolis, Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal de Santa Catarina; LIMA, Luiz Eduardo Pina. 1993. Ideologias e utopias na História da Educação: o processo de criação da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. 1950-1951. São Cristóvão, Monografia (Especialização em Ciências Sociais). Universidade Federal de Sergipe.

[iv] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS; e, ANDRADE, Djalma. 1999. “O curso de Licenciatura em Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h05
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HISTÓRIA, DITADURA E EDUCAÇÃO

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

O historiador Daniel Aarão Reis faz um importante alerta chamando a atenção acerca do quanto é difícil para a sociedade brasileira recordar o período da última ditadura militar vivida pelo país. Segundo este autor, “os brasileiros não devem se autoflagelar por isto, nem se imaginar como particularmente desmemoriados como se costuma dizer”. Afinal, “nas batalhas de memória, o jogo nunca está definitivamente disputado, as areias são sempre movediças e os pontos considerados ganhos podem ser subitamente perdidos”.

A bibliografia sobre a ditadura vivida pelos brasileiros no período 1930-1945 é farta o suficiente e pródiga em análises que apontam a crueldade e o ambiente de terror implementado pelos detentores do poder estatal, mas também em reconhecer as contradições de uma política social que inclui retrocessos e avanços, com visíveis aperfeiçoamentos na vida da população do Brasil. Contudo, em relação ao período da ditadura militar iniciada em 1964, certamente ainda não vivemos o suficiente e, por enquanto, temos sido capazes, apenas, de apontar as suas mazelas sem termos conseguido produzir análises consistentes e equilibradas a respeito da sua política educacional e dos modos como buscou se legitimar junto à população brasileira.

            Todavia, há indícios reveladores de que, cada vez mais os brasileiros sentem haver chegado a hora de ajustar o descompasso entre memória e história no que concerne ao período de 1964 a 1984. Em algumas situações, dentre os que estão se debruçando sobre este passado, há partícipes ativos dele. Depoentes e produtores de uma dada memória que busca persuadir a todos quanto a justeza da sua versão e desqualificar a visão do oponente.

            Este artigo coloca em discussão o fato de que as análises da política educacional implementada no Brasil durante vinte anos, a partir de 1964, necessitam renunciar a um certo maniqueísmo que prioriza apenas as denúncias das mazelas e produz o esquecimento de alterações fundamentais no sentido da expansão e qualificação dos serviços oferecidos no ensino de primeiro e segundo graus e no ensino superior, sob padrões que até então o país desconhecia, legitimando os governantes ditatoriais junto a amplos setores da população brasileira.

            Reconhecer os eventuais avanços da política educacional implementada naquele período, não implica negar o caráter ditatorial do governo que conduzia tal política. Na verdade, significa exercer com honestidade o ofício de historiador, extraindo dos documentos escritos e orais, bem como dos múltiplos indícios iconográficos, a necessária reflexão, colocando ao alcance dos mais jovens os escaninhos que a memória insiste em esquecer, muitas vezes fugindo de polêmicas presentes nas contraditórias versões.

Esta é uma necessidade que se impõe principalmente em relação aos trabalhos acadêmicos. Lucilia de Almeida Neves Delgado revela que mesmo a bibliografia decorrente da pesquisa acadêmica tem sido razoavelmente maniqueísta. Alguns autores como Argelina Figueiredo e Jorge Ferreira, contudo, se distanciam dos demais pelo fato deles adotarem a premissa segundo a qual tanto os segmentos de esquerda, quanto os grupos conservadores e de direita seriam absolutamente descomprometidos com a democracia, uma vez que esta “não era prioritária nem na agenda da direita, nem na da esquerda”.

            É evidente que o período iniciado em 1964 representa a inauguração de uma ditadura cruenta. Contudo, isto não autoriza qualquer intérprete a negar as mudanças que ocorreram, promovendo transformações que não podem ser ocultadas pelas artimanhas da memória, que é sempre seletiva.

Parte significativa da historiografia que estudou a constituição e o desenvolvimento da política educacional da ditadura, o fez estabelecendo uma relação direta e automática entre o estado autoritário e a sua Doutrina de Segurança Nacional. Tais estudos revelam que a repressão atingiu escolas, professores e estudantes, proibindo quaisquer manifestações de caráter político.

Autores como Jane Soares de Almeida revelam que “a consciência cívica e patriótica seria estimulada junto à população e a escola seria uma das vias preferidas como espaço para se pregar o ufanismo nacional e o amor à Pátria”. A Lei n. 5692/71 fixaria um novo quadro normativo para o ensino de primeiro e segundo graus, obrigando a profissionalização em todos os cursos do segundo grau. Esse caráter foi visto como uma ferramenta reforçadora da divisão da sociedade em classes, produzindo o fracasso dos objetivos proclamados pelo próprio dispositivo legal, que se propunha igualitário.

 

 

 



[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor do Departamento de História e do Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h10
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NASSAU, POMBAL E A CIÊNCIA

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

A mentalidade vigorante no Brasil do século XIX já reivindicava a organização das práticas científicas em instituições de ensino superior e sociedades de especialistas. O cientificismo predominante afirmava que somente o conhecimento obtido através dos padrões de produção do saber científico tornaria possível o progresso, telos almejado pelo mundo ocidental, através das vozes mais autorizadas do continente europeu, dos Estados Unidos da América, do Brasil e de muitas outras nações.

Ao analisar-se a influência alemã na cultura brasileira ao longo do século XIX, sobressai a contribuição dos evolucionistas e monistas daquele país. O aporte da cultura alemã contribuiu para com a sistematização de todo um quadro de cientificismo, buscando consolidar no Brasil um pensamento científico assentado sobre base materialista. Todas as coisas eram subordinadas ao movimento da matéria. Um materialismo respaldado pelo evolucionismo que rejeitava qualquer possibilidade de conciliação entre os interesses científicos e religiosos. Era dessa forma que se punha o evolucionismo de Ernest Haeckel.

Desde o século XVIII, a pesquisa científica internacional tinha como principal característica o trabalho desenvolvido pelos naturalistas, através da descrição e da classificação de plantas, animais e fenômenos geológicos. Foram lançadas as bases iniciais das teorias evolucionistas, e Lavoisier deu início à Química moderna. Avançou o estudo da matéria, da eletricidade, do magnetismo e dos fenômenos de calor e energia. O avanço desse modelo na centúria seguinte fez com que se multiplicassem as turbinas, os dínamos, os motores elétricos e as instalações químicas.

            O processo de expansão da atividade científica e a intensificação das suas relações com a economia de mercado fizeram com que as sociedades científicas nem sempre conseguissem conter os experimentos e a produção do conhecimento científico estimulados pelas corporações econômicas e pela iniciativa individual de muitos estudiosos. Ademais, se multiplicavam geometricamente as sociedades de Química, de Geologia, de Astronomia e de tantos outros campos, bem como o interesse da imprensa periódica especializada e o interesse dos jornais, de um modo geral, pelos temas científicos.

            No Brasil do século XIX, após a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, foram criadas instituições científicas como a Academia de Guardas-Marinha, o Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, a Escola Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, a Academia Real Militar, o Museu Real e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Inaugurou-se também o ciclo de viagens e expedições científicas. Todavia, desde o período colonial havia uma atividade científica desenvolvida por diferentes intelectuais europeus que de estabeleceram no Brasil e por intelectuais brasileiros que estudaram em universidades européias.

Alguns períodos chamam a atenção, como o da ocupação holandesa, quando Maurício de Nassau, no século XVII, trouxe para o território brasileiro um grupo de cientistas encarregados de realizar estudos sobre a natureza tropical brasileira. Foi grande, nesse período, a contribuição do médico de Amsterdã, Guilherme Piso (Willem Pies), e George Marcgrave, naturalista alemão, que fizeram, sobre a medicina colonial e a flora e a fauna do país, observações de interesse científico, reunidas posteriormente (em 1648) na sua famosa Historia naturalis Brasiliae.

Nassau também foi responsável pela fundação da imprensa, bibliotecas, museus e do primeiro observatório astronômico brasileiro, além de impulsionar a arquitetura sob a inspiração de Peter Post, que traçou os planos de uma grande cidade de sobrados e canais. O governante holandês do Brasil tropical estimulou ainda numerosas expedições científicas.

A ciência que se praticava no Brasil na primeira metade do século XIX era fortemente influenciada pelo espírito da ciência européia desde a segunda metade do século XVIII, principalmente depois que o Marques de Pombal reformou a Universidade de Coimbra, em 1772, o que possibilitou a implantação de novos cursos, como os de Botânica, Geologia, Mineralogia e Metalurgia, criados em 1791. Foi nessa instituição portuguesa de ensino superior que se formaram importantes nomes da ciência brasileira no período: o astrônomo e geógrafo Francisco José de Lacerda e Almeida; Azeredo Coutinho; o explorador, médico, naturalista, geógrafo e etnógrafo Alexandre Rodrigues Ferreira; e, o mineralogista José Bonifácio de Andrada e Silva.

 

 

 

 

 

 



[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordena o Grupo de Pesquisa em História da Educação da UFS.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h30
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O INSTITUTO DE AGRICULTURA

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

O Imperial Instituto de Agricultura Sergipano foi criado em 1860, durante a visita do Imperador Pedro II. O decreto de criação do Instituto foi assinado na cidade de Estância, no dia 20 de janeiro: “Desejando assinalar a época de minha visita a esta Província de Sergipe, e manifestar a atenção que presto à agricultura, principal fonte de riqueza do Estado, hei por bem criar o Imperial Instituto de Agricultura Sergipano sob as mesmas bases do Imperial Instituto Baiano de Agricultura, criado por meu Decreto do 1º de novembro de 1859. João de Almeida Pereira Filho, do meu Conselho, Ministro e Secretário dos Negócios do Império, assim o tenha entendido, e faça executar. Palácio da Estância aos 20 de janeiro de 1860. Com a rubrica de S. M. o Imperador. João de Almeida Pereira Filho. Conforme. O Oficial de Gabinete de S. Ex. o Sr. Ministro do Império em viagem, Manuel Diniz Villas-Boas”.

Além do Instituto sergipano foram criados no mesmo ano os do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Era pretensão do governo criar idênticas instituições em todas as províncias. Os estatutos do Instituto de Sergipe eram iguais aos do Instituto Bahiano, com pequenas adaptações.

O êxito do Instituto Baiano lhe permitiu criar, em 1875, a Imperial Escola Agrícola da Bahia, única escola superior de agronomia do país até 1890. Sônia Regina Mendonça (O ruralismo brasileiro, 1997) informa          que, inaugurada, em 1877, “a Escola iniciaria seu curso em dois graus, o elementar e o superior, sendo o primeiro destinado a habilitar trabalhadores agrícolas e o segundo a formar agrônomos, engenheiros agrícolas e veterinários” (p. 28). A primeira turma foi diplomada, em 1880, com dez agrônomos.

Já o Imperial Instituto Fluminense contava com 100 sócios efetivos naquele mesmo ano e dispunha do auxílio do governo imperial. Naquela ocasião, deliberou tomar a si a administração do jardim botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas para nele fundar um estabelecimento rural, que pudesse servir de modelo e de escola prática de agricultura.

O Imperial Instituto Sergipano de Agricultura representou uma tentativa de modernização das práticas agrícolas na Província de Sergipe. A entidade nunca chegou a funcionar efetivamente, tendo os responsáveis pela instituição se envolvido em uma mal explicada história de prestação de contas dos recursos que o Imperador Pedro II destinou à sua implantação e funcionamento. Essas mazelas não permitiram que o Instituto cumprisse um dos mais importantes dentre os seus objetivos: o estabelecimento do ensino agrícola em Sergipe.

Todavia, alguns intelectuais do período defenderam outras possibilidades de ensino agrícola e industrial Um deles foi João José Bittencourt Calasans, que foi dirigente do Imperial Instituto Sergipano de Agricultura. No livro O agricultor sergipano da cana de açúcar, que publicou em 1869 (o primeiro livro sobre Agronomia produzido em Sergipe), defendeu a criação de um engenho modelo como fonte de instrução agrícola. Esse tipo de organização seria criado “por meio de associações, quando não fosse instituída, com preferência, pela bolsa abastada de um ou de outro, que podendo dispor de uma quarentena de contos de réis se acharia mui bem habilitado de assim concorrer, para animar, proteger e fazer desenvolver essa parte da principal fonte de riqueza – a agricultura açucareira” (p. 47).

Uma grande contribuição aos projetos de modernização da agricultura em Sergipe foi oferecida em 17 de janeiro do ano de 1882, quando o presidente Inglês de Souza convidou o engenheiro José de Siqueira Menezes para elaborar a planta e o orçamento de um conjunto de edifícios, a serem construídos em local apropriado, objetivando a criação de uma escola agrícola modelo. Segundo Maria Thetis Nunes (História da Educação em Sergipe, 1984), a sua proposta teve como justificativa a necessidade de “melhorar as práticas agrícolas, para maior produtividade das culturas básicas da economia sergipana” (p. 150). Para cumprir o seu objetivo, Inglês de Souza pretendia contar com a cooperação do Imperial Instituto Sergipano de Agricultura. A pretensão do presidente da Província era formar um contingente de trabalhadores agrícolas, familiarizados com os princípios das ciências práticas que concorressem para o melhoramento da cultura do solo e com o manejo dos instrumentos aperfeiçoados para os trabalhos do campo, adquirindo também a experiência e o conhecimento prático das artes acessórias. Efetivamente, o governo de Herculano Marcos Inglês de Souza estava preocupado com a ampliação do mercado de trabalho para os homens livres em Sergipe.



 

[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordena o Grupo de Pesquisa em História da Educação da UFS.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h24
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O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE (1923-1926) III

 

 

 

Contudo, a partir de 1924 a equipe do professor Archimedes Guimarães começou a formar profissionais em análises químicas. O curso tinha a duração de três anos com as disciplinas distribuídas do seguinte modo:

 

QUADRO I: DISCIPLINAS DO CURSO DE QUÍMICOS ANALISTAS OFERECIDO PELO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE - 1923

PRIMEIRO ANO

SEGUNDO ANO

TERCEIRO ANO

Física Experimental

Química Inorgânica

Química Orgânica e Análise e Síntese Orgânicas

História Natural (Zoologia, Botânica, Geologia e Mineralogia)

Química Analítica Quantitativa

Bioquímica e Análises Bioquímicas

Química Geral e Inorgânica

Química Orgânica

Química Industrial Geral e Especializada

Análise Qualitativa

 

Noções de Físico Química, Eletroquímica e Química Coloidal

 

Análises Industriais (Terras, Adubos, Inseticidas, Águas, Silicatos e Carbonatos, Cimentos, Óleos, Produtos animais, Couros, Laticínios, Taninos, Colorantes etc)

Fonte: Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

 

 

Para admissão ao curso eram realizados exames preparatórios de Português, Francês, Geografia, Aritmética e Álgebra, Noções de Geometria e Desenho Geométrico Elementar, História do Brasil e Noções de História Universal. As aulas eram iniciadas no dia 15 de fevereiro e encerradas no dia 30 de outubro. O curso mantinha dois períodos de férias: o primeiro de quinze dias, no mês de junho e um outro de noventa dias, que se iniciava no dia 15 de novembro, posto que a primeira quinzena deste mês, após o encerramento das aulas em outubro era destinada a realização dos exames finais. As aulas teóricas do primeiro ano eram ministradas pelo próprio Archimedes Guimarães.

Depois de funcionar durante dois anos, o curso começou a apresentar problemas e em 1926 foi fechado por falta de alunos. Todavia a estrutura montada naquele momento foi fundamental para a instalação do curso superior em Química implantado no ano de 1948. A legitimação da idéia segundo a qual o ensino de Química em Sergipe somente teria sido iniciado em 1948 talvez se deva a interrupção do curso destinado a formar analistas, em 1926. Talvez este problema leve trabalhos memorialísticos como o do professor José Pedro de Andrade Castor, a afirmarem a identidade da geração de 1948 como a dos criadores de “uma elite de profissionais competentes, capaz de promover e estimular o desenvolvimento cultural e industrial do Estado e, conseqüentemente do país”[1]. Elite na qual esse mesmo memorialista se insere, apresentando-se então como membro da geração de fundadores, ou, na pior das hipóteses, por ela formado.

 



[1] Idem. P. 71.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h03
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O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE (1923-1926) II

 

 

 

Na área do Quissamã instalou-se o Centro Agrícola Epitácio Pessoa[1], sendo fundado um laboratório de análises com o objetivo de “atender ao requisito da falta de controle científico e conhecimentos técnicos na produção do solo”[2]. Mas, a pedra de toque do projeto naquela região foi o assentamento de vinte e duas famílias de colonos alemães, uma experiência frustrada e abandonada em seguida[3]. Desde o século XIX a formação de colônias agrícolas com trabalhadores europeus era defendida por intelectuais e políticos.

 

 

No entender da intelligentsia nacional do século XIX, o principal problema brasileiro era o predomínio da população de origem africana e mestiça, de forma que o aumento do estoque da população de origem européia era um objetivo em si mesmo, ainda que, eventualmente, não resolvesse o problema de braços para a lavoura[4].

 

 

O professor Archimedes levou o Instituto a estudar também o tanino do mangue, abundante em toda a orla marítima e fluvial de Sergipe, de modo a aplicá-lo nos curtumes e tinturarias, sobre as féculas e a panificação, de modo a obter um tipo de pão misto de trigo e mandioca. Em torno da pesquisa do tanino havia também a expectativa de aplicação em materiais cerâmicos, bebidas e uma grande variedade de gêneros alimentícios.

A memória específica sobre a formação de profissionais da Química em Sergipe apresenta como característica explicativa a representação construída pela geração de 1948, que se apresenta como fundadora do campo e, em certa medida, secundariza as contribuições da geração de 1923, posto que o foco dos holofotes tende a deixar na penumbra o grupo que se dedicou a este mister no período entre guerras. Além disso, a memória da geração de 1948 tende a assumir a identidade de ter sido o primeiro grupo de pesquisadores no campo a realizar estudos sistemáticos associados ao processo de formação, produzindo para o grupo antecedente a representação de excelentes estudiosos, que infelizmente não teria desfrutado da possibilidade de formar profissionais em nível superior (o que é verdadeiro) e por isto teria trabalhado apenas com pesquisas pontuais destinadas a resolução de problemas tecnológicos imediatos ligados ao processo de produção (visão que requer uma rediscussão).



[1] Na década de 1930, o Centro Agrícola Epitácio Pessoa foi transferido para o controle do Ministério da Agricultura e se transformou na Estação Experimental de Plantas Têxteis. Cf. BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. 1938. Relatório das atividades do Ministério da Agricultura, durante o período de julho de 1934 a dezembro de 1935, apresentado pelo Ministro Odilon Braga. Rio de Janeiro, Diretoria de Estatística da Produção do Ministério da Agricultura. p. 15.

[2] Cf. SERGIPE. 1923. Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa em 7 de setembro de 1923, ao instalar-se a Primeira Sessão ordinária da Décima Quinta Legislatura, pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso, Presidente do Estado. Imprensa Oficial.

[3] “Iniciei a colonização estrangeira, com a localização, nos lotes adrede preparados, nesse estabelecimento, de 22 famílias alemãs. Penso que surtirá bom resultado este tratamento, que virá animar os proprietários agrícolas, que tanto sentem a falta de braços para o tamanho de suas terras, a procurarem esse valioso elemento. O Patronato São Maurício, que ali fiz erguer, com capacidade para 200 menores, aguarda apenas a terminação do mobiliário, para ser inaugurado”. Cf. SERGIPE. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1924, ao instalar-se a 2ª sessão ordinária da 15ª legislatura pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso Presidente do Estado.p. 24.

[4] Cf. PASSOS Subrinho, Josué Modesto dos. Op. cit. p. 280.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h48
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O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE (1923-1926)

            O estudo da história das instituições científicas e da difusão das suas práticas formativas e de pesquisa pode ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento de cada um dos campos específicos, possibilitando o debate sobre os itinerários teórico-metodológicos e a reflexão sobre as formas de transmissão da cultura científica e tecnológica. O campo de estudos sobre a história da ciência e da tecnologia em Sergipe ainda é incipiente. Existem alguns esforços encetados pela Universidade Federal de Sergipe, pela Universidade Tiradentes e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. Vale também registrar o esforço que vem sendo feito, recentemente pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe – FAP/SE, estimulando algumas iniciativas. Na mesma direção, assiste-se a uma preocupação crescente no país com a memória da ciência e da tecnologia, revelando esforços para a recuperação de informações sobre o passado.

Quando o presidente do Estado de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, criou o Instituto de Química Industrial, em julho de 1923, já estava consolidada a consciência de que a Química, ao lado da Biologia, da Física e da Matemática, constituíam o campo disciplinar legitimador dos paradigmas e dos conceitos da medicina. Esta função, a Química adquirira ao mesmo tempo em que se legitimara, na segunda metade do século XIX, como ferramenta fundamental ao desenvolvimento da indústria. Por isto, se considerava importante formar “químicos analistas capazes de orientar (...) os laboratórios e as indústrias”[1]. Assim é que o Instituto, ao ser implantado tinha dois grandes objetivos definidos: a manutenção de laboratórios para análises dos problemas químicos ligados aos produtos agrícolas e industriais; e, a formação de químicos analistas. O decreto do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, que criou a nova instituição afirma que “a química é uma ciência que se prende a todos os ramos do saber universal, e como tal, dela dependem as indústrias de maior relevância para o homem”.

O Instituto de Química foi instalado num momento em que outras instituições desta natureza eram também criadas no Brasil. Antes da iniciativa do presidente Maurício Graccho Cardoso, fora criado o Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, no Estado de São Paulo, e o Instituto Nacional de Tecnologia – INT, no Rio de Janeiro. O Instituto continua funcionando, agora sob a denominação de Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. São já 81 anos de atividade do ITPS. Contudo, esse processo não foi efetivamente estudado pelos profissionais da Química e da História em Sergipe. Este texto busca compreender o processo de instalação e funcionamento do Instituto de Química Industrial de Sergipe, nos seus dois primeiros anos de funcionamento.

Quando da instalação do Instituto, o presidente Graccho Cardoso, convidou o professor Archimedes Pereira Guimarães para implanta-lo, na condição de primeiro diretor. Professor de Química Orgânica e Instrumental do Curso de Química Industrial da Escola Politécnica da Bahia, Archimedes Guimarães chegou a Sergipe defendendo que o Instituto deveria

 

 

exercer a missão superior e delicada que lhe seria destinada, e não deveria preocupar-se com todos os problemas agrícolas e industriais que poderiam vir a ser uma fonte de riqueza para o Estado, mas tão somente em incentivar a produção daquelas matérias primas já em exploração e comércio, melhorando-as quer no estado bruto, quer como produtos acabados, de acordo com os modernos ensinamentos científicos[2].

 

 

            De acordo com o seu entendimento, o Instituto deveria priorizar a análise de produtos agrícolas e industriais que fossem já objeto de comércio, além da formação de novos profissionais dedicados à análise de produtos químicos. A instituição foi instalada inicialmente em um edifício situado à rua Duque de Caxias. O equipamento, o mobiliário e os insumos foram adquiridos em São Paulo, no Rio de Janeiro e importados da Europa e dos Estados Unidos da América. 

            O ensino e a pesquisa em Química podem ser analisados sob diferentes aspectos. Este estudo operou através das diferentes propostas e das práticas mais importantes que, ao longo dos dois primeiros anos marcaram a atuação do Instituto de Química Industrial e dos cursos de formação de químicos. A participação de Sergipe no processo de organização de uma rede nacional de instituições destinadas ao ensino de pesquisa de Química, como já assinalado, é um tema que não recebeu a devida atenção da produção historiográfica sergipana. De um modo geral, são poucos os estudos de História da Educação e sobre a História da Ciência no Brasil que se dedicam a investigação dessa temática. A bibliografia sergipana registra apenas dois textos específicos sobre o assunto, ambos memorialísticos. Um deles foi elaborado pelo professor José Pedro de Andrade Castor[3] e o outro é de autoria da professora Djalma Andrade[4]. Ambos, porém, passam ao largo da atuação do Instituto de Química Industrial de Sergipe.

            O projeto implementado pelo professor Archimedes no Instituto de Química Industrial levou a instituição a desenvolver dois tipos de atividades laboratoriais: o primeiro manteve um laboratório completo para análises da cana-de-açúcar e do açúcar manufaturado em todas as suas fases de fabricação, “tendo sempre em vista o seu maior rendimento, para análises dos óleos vegetais e pesquisas sobre sua extração e exploração mais vantajosas, especialmente sobre o aproveitamento industrial dos cocos nuciferas, para análise de terras, adubos, inseticidas etc”[5]. O laboratório para o açúcar foi concebido para manter relações estreitas com uma estação experimental de cana, nos mesmos moldes da existente em Campos, no Rio de Janeiro. Dentre os sonhos do professor Archimedes estava o propósito de conseguir, através da melhoria do cultivo da cana, a obtenção do álcool industrial como substituto da gasolina.

Um ano antes de fundar o Instituto de Química Industrial, o presidente Maurício Graccho Cardoso já demonstrava uma preocupação muito acentuada com os problemas agrícolas de Sergipe e os impactos da atividade agrícola na economia local. Para dinamizar o setor ele criou o Banco Estadual de Sergipe e implantou centros experimentais de sementes selecionadas, principalmente com a finalidade de aperfeiçoar a produtividade e a qualidade do algodão em Sergipe. Com o mesmo propósito contratou um pesquisador norte-americano, o professor Thomaz R. Day, oriundo do Texas. O principal objetivo buscado com a presença deste especialista estrangeiro em Sergipe era fundar a Estação Experimental Miguel Calmon. Em 1923, Graccho Cardoso criou o Departamento Estadual do Algodão.



[1] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[2] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[3] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 71-77.

[4] Cf. ANDRADE, Djalma. 1999. “O curso de Licenciatura em Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 91-99.

[5] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h16
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A HISTORIOGRAFIA DE MARIATHÉTIS NUNES II

Os padrões de interpretação da História que Thétis Nunes incorporou no ISEB chegaram ao Brasil em face da interlocução de muitos intelectuais com o pensamento circulante na Comissão Econômica Para a América Latina – CEPAL, que funcionava no Chile desde 1948. Um desses brasileiros era Alberto Guerreiro Ramos, ao qual Thétis homenageia por tê-la ensinado a compreender e operar a lógica dialética. A historiadora sergipana assumiu dele a

 

 

concepção faseológica” de História, “a noção de que a história tem fases que se sucedem e que a adequação dos instrumentos de análise às peculiaridades da fase em que se encontra o analista corresponde a um gesto revestido de rigor científico e, acima de tudo, de compromisso político com a superação das agruras daquele momento[1].

 

 

            Isso levava Guerreiro Ramos a propor a chamada redução sociológica que entusiasmou Maria Thétis Nunes. Assim, as teorias formuladas pelos teóricos das ciências humanas na Europa e nos Estados Unidos da América deveriam passar pelo crivo empírico da realidade local e somente teriam validade quando interpretadas vis-a-vis com as condições produzidas pelo capitalismo no Brasil. Foi esse entusiasmo de Maria Thétis que levou Nelson Werneck Sodré a elogiar o seu trabalho:

 

 

O condicionamento histórico fica perfeitamente claro: a cada etapa do desenvolvimento brasileiro corresponderam, necessariamente, um sistema educacional e as transformações que lhes foram próprias. (...) A professora Maria Thétis Nunes coloca esse desenvolvimento de forma clara e objetiva, situando cada uma das fases e as transformações que lhes foram próprias[2].

 

 

            A historiografia de Maria Thétis Nunes tem ainda duas outras características: a primeira diz respeito à luz que lança sobre Manoel Bonfim, a quem designou “pioneiro de uma ideologia nacional”[3]; a segunda concerne a isenção com que a pesquisadora observa as relações entre o regional e o nacional, sem qualquer tensão.   



[1] Cf. FREITAS, Marcos Cezar de. “A historiografia de Maria Thétis Nunes e o ISEB”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 17-24, jul./dez. 2004. p. 18.

[2] Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. “Prefácio à 1ª edição”. In: NUNES, Maria Thétis. Ensino secundário e sociedade brasileira. Aracaju: Editora UFS, 1999. p. 13.

[3] Cf. NUNES, Maria Thétis. “Manoel Bonfim: pioneiro de uma ideologia nacional”. In: BOMFIM, Manoel. O Brasil na América. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 1997. 2ª edição. p. 13.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 13h23
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A HISTORIOGRAFIA DE MARIATHÉTIS NUNES

 

 

 

A professora Thétis trabalhou como professora e pesquisadora ininterruptamente durante os últimos 63 anos. Nesse período publicou mais de 10 livros, além de artigos e ensaios em revistas científicas. Nascida no município de Itabaiana, região do agreste do Estado de Sergipe, concluiu o seu curso de graduação na Bahia aos 22 anos de idade. Na sua estréia como intelectual concorreu à cátedra de Geografia e História do Atheneu Sergipense com a tese Os árabes: sua contribuição à civilização ocidental, acerca da civilização árabe, na qual discutiu o Islamismo, a literatura árabe, a arte muçulmana, a Filosofia e a ciência árabes, além da influência muçulmana no Brasil. A partir daí trabalhou dando aulas e dirigindo o Atheneu Sergipense até a sua mudança para o Rio de Janeiro como estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – o ISEB. Depois do Rio de Janeiro trabalhou na Argentina como Adida Cultural do Brasil, na cidade de Rosário. Ao retornar a Aracaju voltou para o Atheneu e passou a atuar também na Faculdade Católica de Filosofia até a fundação da Universidade Federal de Sergipe, onde ingressou em 1968. O seu primeiro texto foi publicado em 1945. Depois, em 1962, pela primeira vez ela se mostrou como historiadora da Educação. O seu livro sobre o ensino secundário no Brasil foi recolhido pela ditadura militar e teve a sua circulação proibida, em 1964. Em 1973 produziu o primeiro trabalho sobre a História de Sergipe. Em 1976 fez a sua primeira reflexão sobre os intelectuais, ao estudar Sílvio Romero e Manoel Bonfim. Em 1981 inventariou os documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal. Em 1984 publicou a sua História da Educação em Sergipe.  Em 1989 colocou em circulação o primeiro volume da História de Sergipe Colonial. Em 1984, foi homenageada pela SBHE.

A intérprete da História

 

 

            Maria Thétis Nunes é fundamentalmente uma intérprete da História de Sergipe, debruçada sobre a análise da Economia, da vida social, das atividades lúdicas, das atividades intelectuais, dos estudos biográficos. Ao tomar posse na Academia Sergipana de Letras, em abril de 1983, ela manifestou toda a sua consciência diante da História, explicitando a sua posição ideológica:

 

 

Creio na marcha da História, no devenir, no advento de um mundo mais justo e mais humano. Apesar de ter vivido parte da minha vida sob dois regimes ditatoriais, cultuo a liberdade. (...) Também estou com os que lutam defendendo acultura ancestral, dilacerada em nome da civilização crista ocidental, como fazem os povos da África negra ou da Ásia tropical. (...) Assim tenho caminhado impulsionada pela uta e pela esperança[1]. 

 

 

            Sua historiografia está assentada sobre a contribuição teórica do Marxismo, valorizando principalmente o diálogo com Plekhanov, a partir de quem entende estar “a organização social em equilíbrio instável, onde as forças produtivas sociais estão em crescimento”[2]. Para ela, “Labriola assinala com razão que exatamente esta instabilidade, bem como os movimentos sociais e as lutas de classes sociais por ela [a Historia] engendradas, preservam os homens da paralização intelectual”[3].

            Esse modo de ler a História foi aperfeiçoado por Maria Thétis durante o período em que atuou como bolsista-estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – o ISEB. O Instituto agrupava as mais diversas tendências ideológicas, buscando interpretar a realidade nacional, de modo a arrancar o Brasil do subdesenvolvimento para levá-lo ao que os seus teóricos consideravam o desenvolvimento.

            Certamente, para as reflexões acerca da História feitas por Thétis Nunes em tal período, foram muito importantes as contribuições oferecidas por Nelson Werneck Sodré, mas não é possível desconsiderar o peso dos estudos realizados no mesmo ISEB por Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Ignácio Rangel. Não sem propósito, é a estes que ela dedica o seu livro Ensino secundário e sociedade brasileira, publicado em 1962, resultante dos estudos que realizou no Rio de Janeiro. Alberto Guerreiro Ramos foi homenageado novamente em 1984, quando a autora colocou em circulação o livro História da Educação em Sergipe.

 

 



[1] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 14.

[2] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 11.

[3] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 11.

[4] Cf. FREITAS, Marcos Cezar de. “A historiografia de Maria Thétis Nunes e o ISEB”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 17-24, jul./dez. 2004. p. 18.

[5] Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. “Prefácio à 1ª edição”. In: NUNES, Maria Thétis. Ensino secundário e sociedade brasileira. Aracaju: Editora UFS, 1999. p. 13.

[6] Cf. NUNES, Maria Thétis. “Manoel Bonfim: pioneiro de uma ideologia nacional”. In: BOMFIM, Manoel. O Brasil na América. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 1997. 2ª edição. p. 13.

 



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 13h09
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SUBSÍDIOS PARA UM ESTUDO SOBRE AS ORIGENS DA ENGENHARIA CIVIL EM SERGIPE III

 

 

O SANEAMENTO E AS OBRAS CIVIS

 

 

Como conseqüência da epidemia de cólera que assolou Sergipe em 1855, no ano seguinte os médicos Guilherme Pereira Rebelo e Pedro Autran da Mota Albuquerque produziram um estudo sobre as condições de salubridade da cidade de Aracaju. Sugeriram que o maior problema sanitário da nova capital eram os seus pântanos, propondo o aterro e o esgotamento destes, além do fornecimento de água potável à população. O governo contratou o capitão engenheiro Francisco Pereira da Silva para executar os trabalhos de aterramento da rua da frente, a rua da Aurora, e de algumas outras áreas do centro da cidade (SANTANA, 1997: 43).

 

As obras de drenagem e aterramento do centro da cidade de Aracaju ganharam novo impulso a partir de 1915, quando o presidente Oliveira Valadão decidiu aterrar todo o trecho da praça Camerino até a área onde está o atual edifício do Atheneu; a região dos fundos do atual quartel da Polícia Militar; e a baixada das ruas Pacatuba, Maruim, Estância e avenida Rio Branco. Essas obras extinguiram lagoas, pântanos e mangues, aperfeiçoando as condições de salubridade da capital.   

            No combate à febre amarela, os médicos trouxeram a Sergipe, em maio de 1924, a Fundação Rockfeller que realizou várias obras de saneamento na capital, drenando valas, aterrando pântanos e quintais alagados, tratando das fontes, poços e cisternas.

A Engenharia hidráulica conheceu um importante avanço, em novembro de 1909, com a implantação do serviço de distribuição de água encanada em Aracaju, captada no rio Pitanga e fornecida in natura.

A necessidade de prestação de um bom serviço fez com que já em 1915 o governo Oliveira Valadão realizasse reformas no reservatório de água da Cabrita, aumentando a sua capacidade para 1.800.000 litros por dia.

Apenas quatorze anos depois de iniciadas as atividades do serviço de abastecimento de água de Aracaju, os problemas que o sistema enfrentava eram da maior gravidade. A falta de manutenção, a expansão da malha urbana, a falta de tratamento da água, os problemas de filtragem e as tubulações desniveladas e estreitas (com apenas oito polegadas de diâmetro) faziam com que a água chegasse às torneiras em quantidade insuficiente e fossem freqüentes as suspensões no fornecimento. Graccho Cardoso contratou, em fevereiro de 1923, o escritório do engenheiro Francisco Saturnino de Brito para a realização de um diagnóstico da situação do abastecimento de água da capital. Em dezembro do mesmo ano a empresa que fez o diagnóstico iniciou as obras de reconstrução da rede de abastecimento de água de Aracaju, sob a direção do engenheiro Povoa de Brito. A rede de tubos foi reconstruída, o reservatório foi duplicado e foi instalado um sistema de pré-filtragem no rio Pitanga, no qual era feita a captação.

Á água distribuída em Aracaju passou então a receber pré-tratamento no ponto de captação. Além disso, a água passava por um tratamento químico à base de sulfato de alumínio e cal virgem, sendo em seguida decantada e filtrada pelo sistema Reisert.

O abastecimento de água em Aracaju iria apresentar sintomas de graves dificuldades nas décadas de 60 e 70, em face do crescimento populacional e da demanda industrial. No início da década de 80, contudo, a inauguração da Adutora do São Francisco resolveu tal problema, captando água no rio São Francisco, e transportando-a por mais de 100 quilômetros para a capital do Estado de Sergipe.

Ainda do ponto de vista das ações de saneamento, o governo Siqueira de Menezes decidiu implantar, em 1913, o sistema de esgotamento sanitário e drenagem da capital[i]. O projeto foi elaborado pelo engenheiro Paulo Alfredo Poltro e a obra, executada pela Companhia Melhoramentos de Sergipe, estava concluída em novembro de 1914, já durante o governo de Oliveira Valadão. O tratamento biológico dos efluentes era constituído por um tanque com capacidade para 1.500.000 litros, previsto para atender a 15.000 habitantes, com oito leitos percoladores e superfície de 1.500 metros quadrados, correspondendo a um metro cúbico diário por metro quadrado (SANTANA, 1997: 139).

Não obstante estar funcionando há apenas dez anos, a rede de esgoto de Aracaju já exigia reformas no ano de 1923. Do mesmo modo que o escritório do engenheiro Saturnino de Brito foi contratado pelo presidente Graccho Cardoso para estudar o problema do abastecimento de água, recebeu também a incumbência de diagnosticar a questão do esgotamento sanitário e sugerir medidas capazes de resolver a situação. Assim, a partir de dezembro de 1923, foram iniciadas não apenas as obras de reforma da rede de água, mas também de drenagem e de esgotamento sanitário. A mesma Empresa de Melhoramentos de Aracaju que ganhou a concorrência para administrar o serviço de abastecimento de água, a partir de 1926, contratou também o gerenciamento do sistema de esgoto.

O escritório Saturnino de Brito voltou a ser contratado pelo governo do Estado de Sergipe em 1956, para estudar a melhoria no serviço de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos de Aracaju.

O serviço de esgoto da cidade de Aracaju ganharia um novo impulso durante a primeira metade da década de 80, quando o governador João Alves Filho reorganizou e modernizou a rede existente. À época o serviço chegou a cobrir cerca de 80 por cento da cidade de Aracaju.   

Ainda do ponto de vista do saneamento ambiental, a cidade de Aracaju passou a contar com um importante serviço no início da década de 30 do século XX: o recolhimento do lixo orgânico domiciliar. Em 1935, o prefeito Godofredo Diniz estruturou definitivamente o serviço, contratando varredores de ruas, carroças e caminhões de limpeza pública. O lixo coletado na cidade era levado para aterrar áreas pantanosas da Luzia, atualmente um importante bairro de Aracaju.

 

Mas, certamente, um dos grandes impulsos que a Engenharia ganhou em Sergipe ocorreu em 1964, após a confirmação da descoberta de petróleo no campo de Carmópolis. 

 

 

NOTAS

 



[i] O presidente José de Siqueira Menezes contraiu um empréstimo de seis mil contos de réis, a serem pagos em 60 anos, com juros de seis por cento ao ano, a fim de executar a obra da rede de esgoto e denagem da capital e também os seguintes serviços: construção de grupos escolares, biblioteca pública, instalação de luz elétrica e fundação de um núcleo agrícola. Cf. SANTANA, 1997: 139.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

ALMEIDA, Maria da Glória Santana de. “Estrutura de produção: a crise de alimentos na província de Sergipe (1855-1860). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, nº 27, 1965-1978. p.15-39.

 

AVÉ-ALLEMANT, Robert. “Excursão à Província de Sergipe. Viajando para Aracaju no Rio Cotinguiba. Maruim”. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, nº 26, Vol. XXI, 1961. pp. 92-99.

 

BARRETO, Luiz Antônio. Aracaju: 150 anos de história. Aracaju, Correio de Sergipe, 2005. CD Room.

 

CHAVES, Rubens Sabino Ribeiro. Aracaju. Pra onde você vai? Aracaju, edição do autor, 2004.

 

LOUREIRO, Kátia Afonso Silva. Arquitetura sergipana do açúcar. Aracaju, Unit, 1999.

 

PORTO, Fernando. A Cidade do Aracaju. 1855/1865. 2ª. ed. Aracaju, Fundesc, 1991.

 

SANTANA, Antônio Samarone de. As febres do Aracaju: dos miasmas aos micróbios. São Cristóvão, Universidade Federal de Sergipe, 1997. (Dissertação de Mestrado).

 

SEBRÃO SOBRINHO. Laudas da História do Aracaju. Aracaju, Prefeitura de Aracaju, 1955.



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h22
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