EDUCAÇÃO É HISTÓRIA
  
 
 

ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - X

3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Conhecer os problemas referentes à história da pesquisa e do ensino da Química em Sergipe requer o reconhecimento de um universo ainda fechado, escondido. Porém, são abundantes as fontes para o estudo a respeito do assunto. Os indícios constituem um conjunto informativo seguro o suficiente para a produção de análises historiográficas.

Não obstante os esforços que têm sido feitos para desenvolver os campos de estudo acerca da história da ciência e da tecnologia em Sergipe, ainda é necessário reunir e organizar muitas fontes necessárias ao desenvolvimento da pesquisa histórica e o estabelecimento de linhas de pesquisa no curso de Mestrado em Educação da UFS que se debrucem sobre as temáticas próprias a este campo. A tendência modernizadora no trato com a informação, apesar de permitir a dinamização do acesso aos dados, tem imposto uma rotina de descarte documental descontrolado que leva, na maioria dos casos, ao apagamento irreversível da memória de grupos e instituições.

O material existente nos arquivos do Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, no Arquivo da Universidade Federal de Sergipe e no Memorial de Sergipe da Universidade Tiradentes é múltiplo, originado de distintas fontes e inclui utensílios e equipamentos utilizados nos laboratórios científicos e tecnológicos de Sergipe e também documentação impressa, áudio-visual e imagética com significativo valor para a memória e a história da ciência e da tecnologia no Estado. É necessário explorar essa massa documental com pesquisas que tenham como fulcro de análise os processos de produção e transmissão do conhecimento científico e tecnológico.

No caso da história da pesquisa e do ensino da Química em Sergipe merecem especial referência as possibilidades de uso dos métodos da História Oral, uma vez que é muito forte a memória de instituições como o Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, Instituto Parreiras Horta, Escola de Química de Sergipe e Instituto de Química da Universidade Federal de Sergipe. O emprego do método da História Oral pode permitir que sejam alcançados importantes objetivos para a compreensão da história dessa prática. A rotina de trabalho do pesquisador de História incorpora cada vez mais o testemunho produzido durante uma entrevista. Esse tipo de registro é importante para evitar o progressivo desaparecimento dos testemunhos da experiência registrados em suporte papel nos arquivos institucionais por motivos que vão desde o desconhecimento da importância dos registros até a deliberada destruição dos acervos arquivísticos. Essa é uma das motivações do uso das técnicas da História Oral.

É necessário dar voz a todos que fizeram ou fazem parte da História da Química em Sergipe em diferentes momentos e ocuparam posições distintas, produzindo, portanto, representações caleidoscópicas. Essas vozes podem ser muito esclarecedoras dos embates internos, dos conflitos entre diferentes projetos e das práticas culturais dos distintos grupos de pesquisadores, professores e estudantes. A partir da documentação impressa e dos registros orais será possível explicar porque mesmo tendo o presidente de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, organizado toda uma rede de instituições científicas e todo um ordenamento legal em torno das atividades de pesquisa e ensino da Química, a formação de profissionais não conseguiu prosperar na década de 1920 e as barreiras encontradas no período para a plena legitimação social do campo.

BIBLIOGRAFIA

 

 

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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - IX

Os estudos sobre a pesquisa e o ensino de Química não podem também estar subordinados a uma perspectiva teleológica. Para que a pesquisa histórica tenha significado é fundamental que o pesquisador renuncie àquilo que deseja, que acredita que deve ser ao investigar o que é e o que foi. Por isto, a observação de Edward Palmer Thompson deve ser sempre considerada:

 

 

Posso me equivocar em tudo isso. Dizem-me que, logo ali no horizonte, estão para surgir novas formas de poder operário, as quais, fundando-se em relações produtivas igualitárias, não precisarão de nenhuma restrição e poderão dispensar os impedimentos negativos do legalismo burguês. Um historiador não está qualificado para se pronunciar sobre tais projeções utópicas. Tudo o que sabe é que não pode trazer-lhes em apoio nenhuma prova histórica, qualquer que seja. Seu conselho poderia ser: observe esse novo poder por um ou dois séculos antes de render suas defesas[i].

 

 

            A legislação e os demais indícios documentais existentes são reveladores dos atores da vida científica e das contradições entre o discurso político e intelectual sobre o tema da pesquisa e do ensino da Química, bem como a respeito das ações efetivamente implementadas, principalmente num contexto de educação da vontade.

Foi partindo da constatação desses problemas operacionais, da necessidade de recolha e conservação das fontes sobre a história da pesquisa e do ensino da Química, no trato da oralidade como material do historiador da ciência e, sobretudo, dos interesses ligados à produção de uma historiografia capaz de esclarecer a vivência de distintos segmentos sociais e o questionamento de temáticas não contempladas pela bibliografia sobre a história da pesquisa e do ensino de Química, que se operou no âmbito da produção do conjunto de reflexões aqui apresentadas. Essa possível incursão à memória dos que participaram do processo deve considerar que

 

 

conceitos como indivíduo e sociedade não dizem respeito a dois objetos que existiram separadamente, mas a aspectos diferentes, embora inseparáveis, dos mesmos seres humanos (...). Ambos se revestem do caráter de processos e não há a menor necessidade, na elaboração de teorias sobre seres humanos, de abstrair-se este processo-caráter. Na verdade, é indispensável que o conceito de processo seja incluído em teorias (...) que tratem de seres humanos. (...) Pode-se dizer com absoluta certeza que a relação entre o que é denominado conceitualmente de indivíduo e de sociedade permanecerá incompreensível enquanto esses conceitos forem usados como se representassem dois corpos separados, e mesmo corpos habitualmente em repouso, que só entram em contato um com o outro depois, por assim dizer[ii].   

 

 

Quando se pensa em indivíduo e sociedade como coisas separadas, freqüentemente se trata do primeiro como se fora realidade e do segundo como ficção. Indivíduo e sociedade são dois aspectos diferentes de uma mesma coisa. O repertório de memórias de um único indivíduo é expressão do seu acervo de experiências e revelador da vida social em determinado tempo, num dado lugar. Todos os homens transportam consigo as particularidades do seu grupo na mesma medida que cada grupo transporta as marcas dos seus homens.

O processo civilizador deve ser considerado a partir da abordagem de Norbert Elias[iii]. Ele acredita que o homem necessita aprender regras de etiqueta e conduta como requisitos da condição humana. E como o homem é socialmente civilizado, a civilização é o resultado de um processo ao qual as pessoas são submetidas. Elias ocupa-se da história a partir de agentes individuais que se apresentam combinados com outros em configurações específicas. Para tanto, é fértil o seu diálogo com Freud[iv], uma vez que segundo este último, a inclusão do indivíduo num grupo vem acompanhada da apresentação de regras que devem ser seguidas. Buscando a felicidade, o homem procura escapar às imposições da civilização e eliminar essas regras que lhe causam sofrimento. Mas, a realização fora dos padrões de civilidade também não é possível. Então, é preciso adotar as normas, utilizando-as como mecanismo de proteção.

O papel que têm os agentes da história é importante, principalmente em um campo como o da História da pesquisa e do ensino da Química em Sergipe, que está ainda nos primeiros passos e, por isto, não assumiu qualquer compromisso com o uso das fontes, raramente informadas pelos autores dos dois trabalhos aqui citados. É claro que a formação desses autores é em Química e não em História. Ambos ofereceram uma importante contribuição ao campo da História da Ciência em Sergipe. Mas, agora é necessário que os que têm formação e intimidade com os procedimentos da pesquisa histórica assumam o seu papel. Destes será necessário cobrar procedimentos metodológicos adequados. Destes deverá ser cobrado que fujam da visão salvífica presente no discurso dos memorialistas.



[i] Idem. p. 358.

[ii] Cf. ELIAS, Norbert. 1991. O Processo Civilizador: uma História dos Costumes. v.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. p. 220-221.

[iii] Cf. ELIAS. Norbert. 1994. O Processo Civilizador: uma História dos Costumes.v.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

[iv] Cf. FREUD, Sigmund. 1996. “O futuro de uma ilusão”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXI (1927-1931). Rio de Janeiro: Imago. p. 15-19.

 

 

 

 



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 13h24
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - VIII

Em Sergipe, depois de funcionar durante dois anos, o curso começou a apresentar problemas e em 1926 foi fechado por falta de alunos. Todavia a estrutura montada naquele momento foi fundamental para a instalação do curso superior em Química implantado no ano de 1948. A legitimação da idéia segundo a qual o ensino de Química em Sergipe somente teria sido iniciado em 1948 talvez se deva a interrupção do curso destinado a formar analistas, em 1926. Talvez este problema leve trabalhos memorialísticos como o do professor José Pedro de Andrade Castor, a afirmarem a identidade da geração de 1948.

Não obstante Carlo Ginzburg[i] faz um outro tipo de abordagem nos seus estudos sobre cultura. Estes são fundamentais para as discussões da História da Química e para a compreensão das suas possibilidades interpretativas. Valorizando as histórias individuais e o papel do indivíduo na história, o italiano apresenta sua forma de construir seqüências de ações ou acontecimentos. Segundo Ginzburg, a análise minuciosa do documento pode revelar fatos e versões até então ignorados da História. O autor demonstra como as trocas culturais acarretam transformações nas concepções dos diferentes indivíduos, dos grupos distintos.

As referências à lei que aparecem nos textos sobre a história da pesquisa e do ensino da Química, na maioria dos casos, enumeram apenas uma lista seqüencial de fatos. É necessário que os estudos sobre a pesquisa e o ensino de Química considerem a lei como categoria central e importante. Compreender a sua natureza é fundamental para entender as propostas, os modelos e a legislação da pesquisa e do ensino de Química no Brasil do século XIX; para analisar o processo de implantação das instituições de pesquisa e ensino de Química no Brasil durante a primeira metade do século XX; para entender o caráter que tiveram essas instituições e os padrões civilizatórios que estabeleceram. Porém, para operar com esta categoria de análise é necessário entender que, de um modo geral, em boa parte dos estudos de História a lei “floresce na forma de um marxismo sofisticado, mas (em última instância) altamente esquemático, que, para nossa surpresa, parece brotar das pegadas daqueles que, entre nós, pertencem a uma tradição marxista mais antiga”[ii]. Para os adeptos desta tradição, a lei é por definição uma parcela da “superestrutura” que se adapta às necessidades de uma infra-estrutura de forças produtivas e relações de produção. Em outras palavras, um instrumento dos grupos dominantes que define e viabiliza o domínio sobre a força de trabalho. O entendimento é o de que a lei determina o que é a propriedade e o que é o crime e ao assim fazê-lo estabelece as regras e sanções que confirmam e consolidam o poder do grupo dominante. Deste modo, o poder da lei é a legitimação do domínio de um grupo social. Por isto, os adeptos da teoria marxista não necessitam “ter nenhum interesse pela lei, a não ser como um fenômeno do poder e da hipocrisia da classe dominante; seu objetivo deveria ser o de simplesmente subvertê-la”[iii].

Tomar a lei deste modo e utilizá-la como categoria de análise seria fazer tabula rasa do terreno da historiografia, tentando descobrir algo que pode ser conhecido sem nenhuma investigação. Daí a necessidade de abandonar alguns pressupostos correntemente aceitos. É necessário aceitar parte da crítica marxista. De fato há evidências que confirmam as funções da lei como mistificadora e expressão de um grupo social. Mas, é preciso considerar também a lei em termos de sua lógica, das suas regras e dos seus próprios procedimentos. A lei como lei, sem a qual não é possível conceber nenhuma sociedade complexa. A lei nunca foi uma necessidade dos dominantes para oprimir e muito menos os dominados tinham necessidade de legislação. A lei sempre foi um espaço de conflito e não de consenso. As relações entre os grupos são expressas, não de qualquer modo que se queira, mas através das formas da lei. E a lei, “como outras instituições que, de tempos em tempos, podem ser vistas como mediação (e mascaramento) das relações de classe existentes (como a Igreja ou os meios de comunicação) tem suas características próprias, sua própria história e lógica de desenvolvimento independentes”[iv].

Buscando manter a validade da sua argumentação os adeptos do marxismo estruturalista costumam dizer que tentar compreender a lei a partir das suas próprias características, da sua própria lógica, é assumir os pressupostos positivistas da teoria pura do Direito, segundo a qual

 

 

a norma fundamental, determinada pela Teoria Pura do Direito como condição de validade jurídica objetiva, fundamenta, porém, a validade de qualquer ordem jurídica positiva, quer dizer, de toda ordem coercitiva globalmente eficaz estabelecida por atos humanos. De acordo com a Teoria Pura do Direito, como teoria jurídica positivista, nenhuma ordem jurídica positiva pode ser considerada como não conforme à sua norma fundamental, e, portanto, como não válida. O conteúdo de uma ordem jurídica positiva é completamente independente da sua norma fundamental[v].

           

 

O problema não é o de saber se a explicação mais adequada é a do marxismo estruturalista ou a dos kelsenianos. É necessário considerar que a realidade possui nuances que se distanciam tanto do que foi pensado por Hans Kelsen quanto das reflexões dos filósofos estruturalistas. A lei, na condição de um corpo de regras e procedimentos, aplica critérios lógicos referentes a padrões de universalidade e igualdade. Muitas vezes, algumas pessoas foram excluídas dessa lógica, como crianças, escravos, mulheres e não proprietários. Todavia, mesmo assim, a lei necessita buscar a lógica da universalidade, para que tenha eficácia. “A maioria dos homens tem um forte senso de justiça, pelo menos em relação aos seus próprios interesses. Se a lei é manifestamente parcial e injusta, não vai mascarar nada, legitimar nada, contribuir em nada para a hegemonia de classe alguma”[vi]. A sua utilização como categoria de análise, no caso deste estudo, ajuda a compreender os embates postos ao longo do século XIX e durante a primeira metade do século XX, principalmente se nós não a tomarmos apenas como expressão do domínio de um grupo social, ou como devir ou ainda como realidade absolutamente dada. Mas, também é necessário verificá-la como realidade, devir e domínio de determinados grupos sociais. Enfim, expressão da realidade e dos seus conflitos. A lei é a síntese de uma rede de interdependências à qual os indivíduos estão ligados, uma configuração.

 



[i] Cf. GINZBURG, Carlo. 2001. Os Andarilhos do Bem: feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII. Trad. Jônatas Batista Neto. São Paulo: Cia das Letras.

[ii] Cf. THOMPSON, E. P. 1987. Senhores e caçadores: a origem da lei negra. Tradução Denise Bottmann. Rio de Janeiro, Paz e Terra. p. 349.

[iii] Idem. p. 350.

[iv] Ibidem. p. 353.

[v] Cf. KELSEN, Hans. 1998. Teoria pura do Direito. Tradução João Baptista Machado. 6a. ed. São Paulo, Martins Fontes. p. 242.

[vi] Cf. THOMPSON, E. P. Op. Cit. p. 354.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h45
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - VII

 

 

 

A partir de 1924 a equipe do professor Archimedes Guimarães começou a formar profissionais em análises químicas. O curso tinha a duração de três anos com as disciplinas distribuídas do seguinte modo:

 

 

QUADRO I: DISCIPLINAS DO CURSO DE QUÍMICOS ANALISTAS OFERECIDO PELO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE - 1923

PRIMEIRO ANO

SEGUNDO ANO

TERCEIRO ANO

Física Experimental

Química Inorgânica

Química Orgânica e Análise e Síntese Orgânicas

História Natural (Zoologia, Botânica, Geologia e Mineralogia)

Química Analítica Quantitativa

Bioquímica e Análises Bioquímicas

Química Geral e Inorgânica

Química Orgânica

Química Industrial Geral e Especializada

Análise Qualitativa

 

Noções de Físico Química, Eletroquímica e Química Coloidal

 

Análises Industriais (Terras, Adubos, Inseticidas, Águas, Silicatos e Carbonatos, Cimentos, Óleos, Produtos animais, Couros, Laticínios, Taninos, Colorantes etc)

Fonte: Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

 

 

Para admissão ao curso eram realizados exames preparatórios de Português, Francês, Geografia, Aritmética e Álgebra, Noções de Geometria e Desenho Geométrico Elementar, História do Brasil e Noções de História Universal. As aulas eram iniciadas no dia 15 de fevereiro e encerradas no dia 30 de outubro. O curso mantinha dois períodos de férias: o primeiro de quinze dias, no mês de junho e um outro de noventa dias, que se iniciava no dia 15 de novembro, posto que a primeira quinzena deste mês, após o encerramento das aulas em outubro era destinada a realização dos exames finais. As aulas teóricas do primeiro ano eram ministradas pelo próprio Archimedes Guimarães.

            Observando os conceitos de representação e cultura usados por Roger Chartier[i] é necessário identificar as transformações que as práticas da pesquisa e do ensino de Química ensejaram na formação dos profissionais sergipanos. Chartier[ii] está preocupado com a forma através da qual os indivíduos se apropriam de determinados conceitos. Assim, valoriza as mentalidades coletivas. O processo através do qual uma instituição constrói e dá sentido ao seu mundo se reflete nos métodos utilizados para alcançar seus objetivos. Conceitos como os de utensilagem mental, visão de mundo e configuração têm importância fundamental.

            As representações acerca da atividade do Químico no início do século XX ainda não estavam de todo legitimadas socialmente. Apesar dos investimentos do poder público e da atividade dos profissionais que lutavam pela legitimação do campo, são muitos os registros encontrados em todo o Brasil que dão conta da dificuldade que tinham os Químicos de serem aceitos socialmente. Ainda no ano de 1847, no Rio de Janeiro, o pesquisador Custódio Alves Serrão exonerou-se do cargo de diretor geral e de diretor do Laboratório Químico do Museu Nacional, por considerar que a importância deste tipo de atividade ainda não fora compreendida no Brasil.  

 



[i] Cf. CHARTIER, Roger. 1990. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel.

[ii] Cf. CHARTIER, Roger. Idem.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 14h45
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - VI

É necessário verificar que a instituição escolar e os institutos de pesquisa são hierarquizados e hierarquizadores dos saberes e do prestígio atribuído aos agentes que neles atuam e às pessoas que eles formam. Para discutir este problema sob a perspectiva da pesquisa e do ensino de Química é possível dialogar com Pierre Bourdieu, apanhando deste autor um conjunto conceitual referente aos problemas próprios à constituição do campo profissional dos químicos no Brasil. O ensino de Química deve também ser visto sob a ótica do processo de legitimação do exercício de profissões que incorporaram os saberes técnicos escolarizados ao seu conjunto de práticas. O estudo das escolas e das instituições de pesquisa deve, portanto, observar que elas tornam-se “um designativo das formas de capital simbólico que definem as diversas posições de certos grupos ou agentes num dado debate intelectual”[i], estabelecendo o lugar de cada uma das escolas e dos institutos de pesquisa no campo intelectual.

Ao operar com a noção de habitus como sistema de disposições socialmente construídas a partir da escola e dos padrões científicos estabelecidos, Pierre Bourdieu descortina o princípio gerador e unificador de esquemas de pensamento e das práticas próprias a um determinado grupo de indivíduos escolarizados[ii]. Assim, as escolas e as instituições de pesquisa são agências formadoras de habitus que incorporaram padrões culturais em circulação no Brasil, nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus.

O processo de difusão das ciências que ocorreu no Brasil a partir das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX fez com que se expandisse não apenas a quantidade de escolas superiores, mas também redes de instituições científicas. A rede de escolas e de instituições de pesquisa aprofundou o conhecimento científico a respeito dos saberes com os quais operavam à medida que os químicos se empenhavam para constituir um discurso que, exacerbando o caráter científico e autônomo de sua atividade, lhes garantisse reconhecimento social e legitimidade intelectual[iii]. Na condição de escolas e institutos de tecnologia e de pesquisa científica essas instituições terminaram por oferecer aos próprios químicos as condições que o projeto de cientifização da sua atividade requeria. O estudo da história da pesquisa e do ensino de Química possibilita perceber um dos modos usado pelos profissionais com formação superior para a gestão científica do seu campo.

 



[i] Cf. MENDONÇA, Sônia Regina de. 1992. A balança, a régua e o arado: sistemas de ensino e ‘habitus’ de classe na Primeira República. Cadernos do ICHF. Nº 48, novembro. Niterói, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense. p. 4.

[ii] Cf. BOURDIEU, Pierre. 1974. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Perspectiva. p. 19.

[iii] Cf. MENDONÇA, Sônia Regina de. 1992. Op. cit. p. 27.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h36
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - V

Na área do Quissamã instalou-se o Centro Agrícola Epitácio[i] Pessoa[ii], sendo fundado um laboratório de análises com o objetivo de “atender ao requisito da falta de controle científico e conhecimentos técnicos na produção do solo”[iii]. Mas, a pedra de toque do projeto naquela região foi o assentamento de vinte e duas famílias de colonos alemães, uma experiência frustrada e abandonada em seguida[iv]. Desde o século XIX a formação de colônias agrícolas com trabalhadores europeus era defendida por intelectuais e políticos.

 

 

No entender da intelligentsia nacional do século XIX, o principal problema brasileiro era o predomínio da população de origem africana e mestiça, de forma que o aumento do estoque da população de origem européia era um objetivo em si mesmo, ainda que, eventualmente, não resolvesse o problema de braços para a lavoura[v].

 

 

É necessário observar este período de modo mais amplo e verificar que a década de 1920 em Sergipe representou um momento importante para a difusão dos conhecimentos da Química, principalmente quando se considera que sucessivos governos investiram na criação de laboratórios destinados ao ensino dessa ciência, como o presidente Manoel Dantas, que exerceu a chefia do Poder Executivo sergipano entre os anos de 1927 e 1930. Preocupado com a modernização educacional e com o nível de instrução científica das professoras primárias, ele instalou um moderno laboratório na Escola Normal Rui Barbosa de modo a dotar a instituição de meios práticos para a realização do seu mister. O discurso educacional que fazia à época o diretor geral da Instrução Pública e Diretor da Escola Normal, Manoel Franco Freire, era influenciado pelos preceitos da pedagogia moderna e defendia um modelo pedagógico de caráter prático[vi]. O caráter do ensino de Química no laboratório da Escola Normal era o da aplicação desse conhecimento à vida prática, doméstica e industrial. O laboratório era, portanto, o meio de dar forma concreta às lições. A mesma mentalidade fora determinante, no final do ano anterior, sob o governo do coronel Cyro de Azevedo, para a reorganização do laboratório de Química do Colégio Atheneu. Por outro lado, através da lei estadual número trinta, de 18 de dezembro de 1935, obrigou todas as escolas privadas que oferecessem o ensino normal a manter laboratórios de química em funcionamento, dentre outras instalações acadêmicas[vii].

Entretanto, o ensino das Noções Gerais de Química estava presente no currículo das escolas secundárias de Sergipe desde o século XIX. No Liceu Sergipense, instalado em outubro de 1862, essa disciplina científica ocupava posição destacada no currículo. 

Captar esse processo de formação do campo é fundamental. Há necessidade de olhar o Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe por dentro, apanhar as suas práticas, priorizando esse enfoque sem, contudo, desprezar o âmbito das suas relações com a vida social do mundo exterior, uma vez que as instituições científicas de cada sociedade correspondem a suas necessidades.



[ii] Na década de 1930, o Centro Agrícola Epitácio Pessoa foi transferido para o controle do Ministério da Agricultura e se transformou na Estação Experimental de Plantas Têxteis. Cf. BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. 1938. Relatório das atividades do Ministério da Agricultura, durante o período de julho de 1934 a dezembro de 1935, apresentado pelo Ministro Odilon Braga. Rio de Janeiro, Diretoria de Estatística da Produção do Ministério da Agricultura. p. 15.

[iii] Cf. SERGIPE. 1923. Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa em 7 de setembro de 1923, ao instalar-se a Primeira Sessão ordinária da Décima Quinta Legislatura, pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso, Presidente do Estado. Imprensa Oficial.

[iv] “Iniciei a colonização estrangeira, com a localização, nos lotes adrede preparados, nesse estabelecimento, de 22 famílias alemãs. Penso que surtirá bom resultado este tratamento, que virá animar os proprietários agrícolas, que tanto sentem a falta de braços para o tamanho de suas terras, a procurarem esse valioso elemento. O Patronato São Maurício, que ali fiz erguer, com capacidade para 200 menores, aguarda apenas a terminação do mobiliário, para ser inaugurado”. Cf. SERGIPE. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1924, ao instalar-se a 2ª sessão ordinária da 15ª legislatura pelo Dr. Maurício Graccho Cardoso Presidente do Estado.p. 24.

[v] Cf. PASSOS Subrinho, Josué Modesto dos. 2000. Reordenamento do trabalho. Trabalho escravo e trabalho livre no Nordeste açucareiro. Sergipe 1850-1930. Aracaju, Funcaju.p. 280.

[vi] Cf. VALENÇA, Cristina de Almeida. 2003. Entre livros e agulhas: representações da cultura escolar feminina na Escola Normal em Aracaju (1871-1931). São Cristóvão. Monografia (Licenciatura em História). Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. 

[vii] Cf. SERGIPE. Lei nº 30, de 18 de dezembro de 1935.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h53
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - IV

Ambas as abordagens oferecem importantes contribuições à pesquisa sobre o assunto. O entendimento deste memorialismo é o de que o ensino de Química ao se consolidar no Brasil apresentou dois modelos: o escolar – voltado para o ensino profissional, educando para a formação de profissionais em nível superior – e o de aplicação - através de Institutos de pesquisa aplicada e útil para o emprego agrícola e industrial imediato. Todavia, é necessário alargar a perspectiva de interpretação do desenvolvimento da Química entre nós, buscando para ela uma maior fertilidade científica, tomando contribuições presentes em trabalhos que se dedicam a analisar temáticas como a da formação do campo científico e das práticas escolares e científicas no Brasil, de modo a oferecer maior clareza à constituição do conhecimento histórico quanto a esta questão. Para isto, é necessário ter clareza de que não foi apenas o ensino que ofereceu este tipo de contribuição na história do Brasil. Tal contribuição passa a ser predominante a partir da metade do século XX. Contudo, o campo da pesquisa química, no Brasil e também em Sergipe, vinha se constituindo desde o século XIX, em muitos casos à revelia de instituições de ensino.

Por isto, o problema que requer maior atenção neste embate diz respeito ao conjunto de representações sobre a história do Brasil, disseminado a partir do movimento republicano. Dentre as idéias difundidas está presente uma quase consensual certeza de que a política cultural e científica brasileira é obra exclusiva do republicanismo, desfocando assim as discussões a respeito do problema. É evidente que o Estado republicano efetuou transformações no discurso a respeito do ensino e da pesquisa científica, porém não se pode afirmar que tais preocupações e concepções eram novas na sociedade brasileira. As alterações no discurso acerca do ensino e da pesquisa Química durante a primeira metade do século XX, além da busca de legitimação política dos profissionais, são reveladoras do modo como a ciência e o campo acadêmico buscavam legitimar-se sob a condição de serem suficientes para a solução dos problemas brasileiros.

As abordagens a respeito do ensino e da pesquisa Química sempre estão presentes nos estudos que discutem as condições sociais do processo produtivo brasileiro no campo e na cidade. Contudo, para compreender a formação e legitimação de atividades como a Química durante a primeira metade do século XX é necessário olhar não apenas para o ensino superior, mas também buscar o processo de organização de uma rede de instituições de pesquisa.

Quando o presidente do Estado de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, criou o Instituto de Química Industrial, em julho de 1923, já estava consolidada a consciência de que a Química, ao lado da Biologia, da Física e da Matemática, constituía o campo disciplinar legitimador dos paradigmas e dos conceitos da medicina. Esta função, a Química adquirira ao mesmo tempo em que se legitimara, na segunda metade do século XIX, como ferramenta fundamental ao desenvolvimento da indústria. Por isto, se considerava importante formar “químicos analistas capazes de orientar (...) os laboratórios e as indústrias”[i]. Assim é que o Instituto, ao ser implantado tinha dois grandes objetivos definidos: a manutenção de laboratórios para análises dos problemas químicos ligados aos produtos agrícolas e industriais; e, a formação de químicos analistas. O decreto do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, que criou a nova instituição afirma que “a química é uma ciência que se prende a todos os ramos do saber universal, e como tal, dela dependem as indústrias de maior relevância para o homem”.

Quando da instalação do Instituto, o presidente Graccho Cardoso, convidou o professor Archimedes Pereira Guimarães para implanta-lo, na condição de primeiro diretor. Professor de Química Orgânica e Instrumental do Curso de Química Industrial da Escola Politécnica da Bahia, Archimedes Guimarães chegou a Sergipe defendendo que o Instituto deveria

 

 

exercer a missão superior e delicada que lhe seria destinada, e não deveria preocupar-se com todos os problemas agrícolas e industriais que poderiam vir a ser uma fonte de riqueza para o Estado, mas tão somente em incentivar a produção daquelas matérias primas já em exploração e comércio, melhorando-as quer no estado bruto, quer como produtos acabados, de acordo com os modernos ensinamentos científicos[ii].

 

 

            De acordo com o seu entendimento, o Instituto deveria priorizar a análise de produtos agrícolas e industriais que fossem já objeto de comércio, além da formação de novos profissionais dedicados à análise de produtos químicos. A instituição foi instalada inicialmente em um edifício situado à rua Duque de Caxias. O equipamento, o mobiliário e os insumos foram adquiridos em São Paulo, no Rio de Janeiro e importados da Europa e dos Estados Unidos da América.

            O projeto implementado pelo professor Archimedes no Instituto de Química Industrial levou a instituição a desenvolver dois tipos de atividades laboratoriais: o primeiro manteve um laboratório completo para análises da cana-de-açúcar e do açúcar manufaturado em todas as suas fases de fabricação, “tendo sempre em vista o seu maior rendimento, para análises dos óleos vegetais e pesquisas sobre sua extração e exploração mais vantajosas, especialmente sobre o aproveitamento industrial dos cocos nuciferas, para análise de terras, adubos, inseticidas etc”[iii]. O laboratório para o açúcar foi concebido para manter relações estreitas com uma estação experimental de cana, nos mesmos moldes da existente em Campos, no Rio de Janeiro. Dentre os sonhos do professor Archimedes estava o propósito de conseguir, através da melhoria do cultivo da cana, a obtenção do álcool industrial como substituto da gasolina.

O professor Archimedes levou o Instituto a estudar também o tanino do mangue, abundante em toda a orla marítima e fluvial de Sergipe, de modo a aplicá-lo nos curtumes e tinturarias, sobre as féculas e a panificação, de modo a obter um tipo de pão misto de trigo e mandioca. Em torno da pesquisa do tanino havia também a expectativa de aplicação em materiais cerâmicos, bebidas e uma grande variedade de gêneros alimentícios.

Um ano antes de fundar o Instituto de Química Industrial, o presidente Maurício Graccho Cardoso já demonstrava uma preocupação muito acentuada com os problemas agrícolas de Sergipe e os impactos da atividade agrícola na economia local. Para dinamizar o setor ele criou o Banco Estadual de Sergipe e implantou centros experimentais de sementes selecionadas, principalmente com a finalidade de aperfeiçoar a produtividade e a qualidade do algodão em Sergipe. Com o mesmo propósito contratou um pesquisador norte-americano, o professor Thomaz R. Day, oriundo do Texas. O principal objetivo buscado com a presença deste especialista estrangeiro em Sergipe era fundar a Estação Experimental Miguel Calmon. Em 1923, Graccho Cardoso criou o Departamento Estadual do Algodão.

 



[i] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[ii] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

[iii] Cf. GUIMARÃES, Archimedes Pereira. 1923. Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 09h48
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - III

2 - O MÉTODO, A MEMÓRIA E A HISTÓRIA INSTITUCIONAL        

 

 

O estudo da história das instituições científicas e da difusão das suas práticas formativas e de pesquisa pode ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento de cada um dos campos específicos, possibilitando o debate sobre os itinerários teórico-metodológicos e a reflexão sobre as formas de transmissão da cultura científica e tecnológica. O campo de estudos sobre a história da ciência e da tecnologia em Sergipe ainda é incipiente. Existem alguns esforços encetados pela Universidade Federal de Sergipe, pela Universidade Tiradentes e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. Vale também registrar o esforço que vem sendo feito, recentemente pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe – FAP/SE, estimulando algumas iniciativas. Na mesma direção, assiste-se a uma preocupação crescente no país com a memória da ciência e da tecnologia, revelando esforços para a recuperação de informações sobre o passado.

Os oitenta anos de funcionamento do ITPS não foram efetivamente celebrados pelos profissionais da Química em Sergipe. Todavia, constituir e colocar em circulação uma memória é a forma prática de oferecer as bases empíricas para a organização de um campo científico: o da História. A história é, por assim dizer, a forma científica de organização da memória. Esta, por ser fruto de uma escolha efetuada pela ação temporal das configurações humanas, se apresenta sob a condição de monumento. Ou, quando tomada pelos historiadores, submetida ao trabalho destes, caracterizada como documento. O historiador Jacques Le Goff lembra que a palavra latina

 

 

monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O monumentum é um sinal do passado... é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. O monumento tem como característica o ligar-se ao poder de perpetuação voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos[i].

 

 

As contribuições memorialísticas são sempre bem vindas. Principalmente, quando bem ordenadas e expostas de um modo que vão além dos limites da própria memória.

O ensino e a pesquisa em Química podem ser analisados sob diferentes aspectos. O que se propõe aqui é o entendimento das diferentes propostas e das práticas mais importantes que, ao longo de três anos, marcaram a atuação do Instituto de Química Industrial e a primeira experiência do ensino superior de Química em Sergipe. A participação de Sergipe no processo de organização de uma rede nacional de instituições destinadas ao ensino e pesquisa da Química é um tema que não recebeu a devida atenção da produção historiográfica sergipana. Mesmo com o funcionamento de tais instituições, em Sergipe, durante todos esses anos ininterruptamente, a pesquisa e o ensino de Química não tem sido objeto de estudos sequer por parte dos pesquisadores que se dedicam a investigar a História da Educação e a História da Ciência, menos ainda, tem recebido atenção dos químicos industriais e dos engenheiros químicos. De um modo geral, são poucos os estudos de História da Educação e sobre a História da Ciência no Brasil que se dedicam a investigação dessa temática. A bibliografia sergipana registra apenas dois textos específicos sobre o assunto, ambos memorialísticos. Um deles foi elaborado pelo professor José Pedro de Andrade Castor[ii] e o outro é de autoria da professora Djalma Andrade[iii].

A memória específica sobre a formação de profissionais da Química em Sergipe apresenta duas características explicativas: a primeira remete para a representação construída pela geração de 1948, que se apresenta como fundadora do campo e, em certa medida, secundariza as contribuições da geração de 1923, posto que o foco dos holofotes tende a deixar na penumbra o grupo que se dedicou a este mister no período entre guerras. Além disso, a memória da geração de 1948 tende a assumir a identidade de ter sido o primeiro grupo de pesquisadores no campo a realizar estudos sistemáticos associados ao processo de formação, produzindo para o grupo antecedente a representação de excelentes estudiosos, que infelizmente não teria desfrutado da possibilidade de formar profissionais (o que é verdadeiro apenas em parte) e por isto teria trabalhado com pesquisas pontuais destinadas a resolução de problemas tecnológicos imediatos ligados ao processo de produção (o que é improcedente); a segunda característica dessa memória remete a organização de um conjunto de instituições científicas destinadas à pesquisa Química em Sergipe, na década de 1920, a uma suposta premência da expansão capitalista no Estado.

            A legitimação da primeira tendência pode ser observada em trabalhos memorialísticos como o do professor José Pedro de Andrade Castor, que afirma a identidade da geração de 1948 como a dos criadores de “uma elite de profissionais competentes, capaz de promover e estimular o desenvolvimento cultural e industrial do Estado e, conseqüentemente do país”[iv]. Elite na qual esses mesmos memorialistas se inserem, apresentando-se então como membros da geração de fundadores, ou, na pior das hipóteses, por ela formados. Já a afirmação da segunda tendência pode ser obtida em estudos que analisam a implantação do ensino superior em Sergipe, analisando tal processo “como conseqüência do desenvolvimento econômico”[v].



[i] Cf. LE GOFF, Jacques. 1984. “Documento/Monumento”. In: Enciclopédia Einaudi. Vol. 1. Memória-História. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda. p. 95-106.

[ii] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. Op. cit. p. 71-77.

[iii] Cf. ANDRADE, Djalma. 1999. Op. cit. p. 91-99.

[iv] Idem. P. 71.

[v] Cf. SANTOS, Lenalda Andrade. 1999. “Da dispersão à unidade: o trajeto da UFS”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 12. Partem dos mesmos pressupostos as interpretações produzidas por dois outros autores: Cf. OLIVA, Luiz Eduardo. 1990. O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe. Florianópolis, Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal de Santa Catarina; LIMA, Luiz Eduardo Pina. 1993. Ideologias e utopias na História da Educação: o processo de criação da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. 1950-1951. São Cristóvão, Monografia (Especialização em Ciências Sociais). Universidade Federal de Sergipe.     



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h36
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926) - II

O decreto do presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, que criou a nova instituição afirma que “a química é uma ciência que se prende a todos os ramos do saber universal, e como tal, dela dependem as indústrias de maior relevância para o homem”. Em 1926, o Instituto de Química Industrial passou a ter a denominação de Instituto Arthur Bernardes[i] e em 1942 de Instituto de Química e Bromatologia do Departamento de Saúde Pública de Sergipe[ii]. No ano de 1942, o Instituto foi incumbido de preparar

 

 

analistas capazes de melhorar a técnica das indústrias existentes ou fomentar novas indústrias, bem como realizar análises de matérias primas, produtos e sub-produtos e fazer pesquisas de sua especialidade que interessem ao desenvolvimento dos processos agrícolas, industriais, a saúde pública e ao esclarecimento da polícia e da justiça[iii].

 

 

Para cumprir tal objetivo o Instituto foi dividido em duas seções: Escola de Química[iv] e Seção de Análises e Pesquisas. Por fim, em outubro de 1948, o Instituto recebeu a sua atual denominação: Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe.

O Conselho Nacional de Educação autorizou a instalação do curso de Química Industrial em julho de 1949[v] e o governo estadual regulamentou o funcionamento da Escola de Química de Sergipe em dezembro do mesmo ano[vi]. As atividades letivas foram iniciadas em 1950. A Escola, porém continuou integrada à estrutura do ITPS e o diretor do órgão estadual de pesquisa acumulava também a direção da Escola de Química que, de resto, continuava funcionando nas dependências do Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe. O curso de Química oferecido obteve reconhecimento em 1953[vii], o que “permitiu a seus diplomados o exercício da profissão em todo o território nacional”[viii].

A Escola de Química de Sergipe entrou em nova fase a partir de 1962, quando ganhou autonomia e separou-se do Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe. Em 1968, com a criação da Universidade Federal de Sergipe, a Escola passou a integrar a sua estrutura como Instituto de Química. A formação oferecida foi ampliada dois anos depois, com a criação do curso de Licenciatura em Química[ix]. O curso de Engenharia Química foi criado no ano seguinte[x].



[i] Cf, SERGIPE. Decreto nº 942, de 16 de julho de 1926.

[ii] Cf. SERGIPE. Decreto nº 142, de 04 de dezembro de 1942.

[iii] Idem.

[iv] Cf. SERGIPE. Lei nº 86, de 25 de novembro de 1948.

[v] Cf. BRASIL. Decreto nº 26.928, de 21 de julho de 1949.

[vi] Cf. SERGIPE. Decreto nº 161, de 31 de dezembro de 1949.

[vii] Cf. BRASIL. Decreto nº 32.766, de 14 de maio de 1953.

[viii] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 72.

[ix] Cf. ANDRADE, Djalma. 1999. “O curso de Licenciatura em Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 91.

[x] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS. p. 71-77.. P. 75.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h17
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ENSINO, PESQUISA E MEMÓRIA: PROBLEMAS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA PESQUISA E DO ENSINO DA QUÍMICA EM SERGIPE (1923-1926)

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[i]

 

 

 

 

1 - INTRODUÇÃO

 

 

Este estudo é uma primeira tentativa de análise da trajetória histórica do ensino e da pesquisa da Química em Sergipe. O Instituto de Química Industrial de Sergipe, atualmente Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, foi a primeira instituição a se dedicar a este campo de ensino e pesquisa no Estado. Fundado em 1923[ii], pelo presidente Maurício Graccho Cardoso, logo após a criação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em São Paulo, e do Instituto Nacional de Tecnologia – INT, no Rio de Janeiro, o Instituto de Química industrial buscava contribuir para com o aperfeiçoamento da indústria do açúcar – principal fonte da riqueza em Sergipe nas primeiras décadas do século XX. A crença era de que o aumento da produção estava diretamente relacionado ao conhecimento da composição do solo, à melhoria do cultivo da planta e ao controle químico da produção em laboratório. O Instituto de Química Industrial oferecia um curso de três anos de nível superior destinado a preparação de técnicos para a indústria açucareira, a exploração do sal, a preparação do couro e o aproveitamento das plantas oleaginosas.

Este trabalho foi delimitado temporalmente entre os anos de 1923 e 1926, por serem estes os anos que marcam o momento no qual se registra o início do efetivo funcionamento da primeira instituição estatal dedicada ao ensino e a pesquisa da Química em Sergipe e a crise do primeiro curso superior de Química sergipano. Este trabalho nasceu da necessidade de estudar a história do ensino e da pesquisa Química em Sergipe, como parte do processo de organização do Centro de Memória da Ciência e da Tecnologia – CMCT. Assim, buscou entender os procedimentos próprios a organização da entidade de ensino e pesquisa que atualmente funciona sob a denominação de Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe – ITPS. A investigação envolve o estabelecimento de categorias analíticas capazes de estabelecer distinções e menções a teorias. A modalidade de ensino aqui analisada diz respeito ao ensino técnico de nível superior oferecido pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe a partir do início do século XX.

A análise apresentada tomou como base quatro textos publicados em Sergipe que tratam da história da pesquisa e do ensino da ciência e da tecnologia em Sergipe. Dois deles discutem o problema da organização da Universidade Federal de Sergipe[iii] e dois outros se debruçam especificamente sobre a pesquisa e o ensino da Química[iv]. Os dois estudos específicos sobre a História do ensino da Química em Sergipe foram avaliados a partir da perspectiva historiográfica que expressam.

 

 



[i] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP. Professor adjunto do Departamento de História e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação: Intelectuais da Educação, Instituições Educacionais e Práticas Escolares. E-mail: jorge@ufs.br

[ii] Cf. SERGIPE. Decreto nº 825, de 27 de junho de 1923.

[iii] Cf. OLIVA, Luiz Eduardo. 1990. O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe. Florianópolis, Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal de Santa Catarina; LIMA, Luiz Eduardo Pina. 1993. Ideologias e utopias na História da Educação: o processo de criação da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. 1950-1951. São Cristóvão, Monografia (Especialização em Ciências Sociais). Universidade Federal de Sergipe.

[iv] Cf. CASTOR, José Pedro de Andrade. 1999. “Histórico dos cursos em Química Industrial e Engenharia Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS; e, ANDRADE, Djalma. 1999. “O curso de Licenciatura em Química”. In: ROLLEMBERG, Maria Stella Tavares e SANTOS, Lenalda Andrade. UFS: História dos cursos de graduação. São Cristóvão, UFS.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h05
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HISTÓRIA, DITADURA E EDUCAÇÃO

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

O historiador Daniel Aarão Reis faz um importante alerta chamando a atenção acerca do quanto é difícil para a sociedade brasileira recordar o período da última ditadura militar vivida pelo país. Segundo este autor, “os brasileiros não devem se autoflagelar por isto, nem se imaginar como particularmente desmemoriados como se costuma dizer”. Afinal, “nas batalhas de memória, o jogo nunca está definitivamente disputado, as areias são sempre movediças e os pontos considerados ganhos podem ser subitamente perdidos”.

A bibliografia sobre a ditadura vivida pelos brasileiros no período 1930-1945 é farta o suficiente e pródiga em análises que apontam a crueldade e o ambiente de terror implementado pelos detentores do poder estatal, mas também em reconhecer as contradições de uma política social que inclui retrocessos e avanços, com visíveis aperfeiçoamentos na vida da população do Brasil. Contudo, em relação ao período da ditadura militar iniciada em 1964, certamente ainda não vivemos o suficiente e, por enquanto, temos sido capazes, apenas, de apontar as suas mazelas sem termos conseguido produzir análises consistentes e equilibradas a respeito da sua política educacional e dos modos como buscou se legitimar junto à população brasileira.

            Todavia, há indícios reveladores de que, cada vez mais os brasileiros sentem haver chegado a hora de ajustar o descompasso entre memória e história no que concerne ao período de 1964 a 1984. Em algumas situações, dentre os que estão se debruçando sobre este passado, há partícipes ativos dele. Depoentes e produtores de uma dada memória que busca persuadir a todos quanto a justeza da sua versão e desqualificar a visão do oponente.

            Este artigo coloca em discussão o fato de que as análises da política educacional implementada no Brasil durante vinte anos, a partir de 1964, necessitam renunciar a um certo maniqueísmo que prioriza apenas as denúncias das mazelas e produz o esquecimento de alterações fundamentais no sentido da expansão e qualificação dos serviços oferecidos no ensino de primeiro e segundo graus e no ensino superior, sob padrões que até então o país desconhecia, legitimando os governantes ditatoriais junto a amplos setores da população brasileira.

            Reconhecer os eventuais avanços da política educacional implementada naquele período, não implica negar o caráter ditatorial do governo que conduzia tal política. Na verdade, significa exercer com honestidade o ofício de historiador, extraindo dos documentos escritos e orais, bem como dos múltiplos indícios iconográficos, a necessária reflexão, colocando ao alcance dos mais jovens os escaninhos que a memória insiste em esquecer, muitas vezes fugindo de polêmicas presentes nas contraditórias versões.

Esta é uma necessidade que se impõe principalmente em relação aos trabalhos acadêmicos. Lucilia de Almeida Neves Delgado revela que mesmo a bibliografia decorrente da pesquisa acadêmica tem sido razoavelmente maniqueísta. Alguns autores como Argelina Figueiredo e Jorge Ferreira, contudo, se distanciam dos demais pelo fato deles adotarem a premissa segundo a qual tanto os segmentos de esquerda, quanto os grupos conservadores e de direita seriam absolutamente descomprometidos com a democracia, uma vez que esta “não era prioritária nem na agenda da direita, nem na da esquerda”.

            É evidente que o período iniciado em 1964 representa a inauguração de uma ditadura cruenta. Contudo, isto não autoriza qualquer intérprete a negar as mudanças que ocorreram, promovendo transformações que não podem ser ocultadas pelas artimanhas da memória, que é sempre seletiva.

Parte significativa da historiografia que estudou a constituição e o desenvolvimento da política educacional da ditadura, o fez estabelecendo uma relação direta e automática entre o estado autoritário e a sua Doutrina de Segurança Nacional. Tais estudos revelam que a repressão atingiu escolas, professores e estudantes, proibindo quaisquer manifestações de caráter político.

Autores como Jane Soares de Almeida revelam que “a consciência cívica e patriótica seria estimulada junto à população e a escola seria uma das vias preferidas como espaço para se pregar o ufanismo nacional e o amor à Pátria”. A Lei n. 5692/71 fixaria um novo quadro normativo para o ensino de primeiro e segundo graus, obrigando a profissionalização em todos os cursos do segundo grau. Esse caráter foi visto como uma ferramenta reforçadora da divisão da sociedade em classes, produzindo o fracasso dos objetivos proclamados pelo próprio dispositivo legal, que se propunha igualitário.

 

 

 



[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor do Departamento de História e do Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h10
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NASSAU, POMBAL E A CIÊNCIA

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

A mentalidade vigorante no Brasil do século XIX já reivindicava a organização das práticas científicas em instituições de ensino superior e sociedades de especialistas. O cientificismo predominante afirmava que somente o conhecimento obtido através dos padrões de produção do saber científico tornaria possível o progresso, telos almejado pelo mundo ocidental, através das vozes mais autorizadas do continente europeu, dos Estados Unidos da América, do Brasil e de muitas outras nações.

Ao analisar-se a influência alemã na cultura brasileira ao longo do século XIX, sobressai a contribuição dos evolucionistas e monistas daquele país. O aporte da cultura alemã contribuiu para com a sistematização de todo um quadro de cientificismo, buscando consolidar no Brasil um pensamento científico assentado sobre base materialista. Todas as coisas eram subordinadas ao movimento da matéria. Um materialismo respaldado pelo evolucionismo que rejeitava qualquer possibilidade de conciliação entre os interesses científicos e religiosos. Era dessa forma que se punha o evolucionismo de Ernest Haeckel.

Desde o século XVIII, a pesquisa científica internacional tinha como principal característica o trabalho desenvolvido pelos naturalistas, através da descrição e da classificação de plantas, animais e fenômenos geológicos. Foram lançadas as bases iniciais das teorias evolucionistas, e Lavoisier deu início à Química moderna. Avançou o estudo da matéria, da eletricidade, do magnetismo e dos fenômenos de calor e energia. O avanço desse modelo na centúria seguinte fez com que se multiplicassem as turbinas, os dínamos, os motores elétricos e as instalações químicas.

            O processo de expansão da atividade científica e a intensificação das suas relações com a economia de mercado fizeram com que as sociedades científicas nem sempre conseguissem conter os experimentos e a produção do conhecimento científico estimulados pelas corporações econômicas e pela iniciativa individual de muitos estudiosos. Ademais, se multiplicavam geometricamente as sociedades de Química, de Geologia, de Astronomia e de tantos outros campos, bem como o interesse da imprensa periódica especializada e o interesse dos jornais, de um modo geral, pelos temas científicos.

            No Brasil do século XIX, após a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, foram criadas instituições científicas como a Academia de Guardas-Marinha, o Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, a Escola Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, a Academia Real Militar, o Museu Real e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Inaugurou-se também o ciclo de viagens e expedições científicas. Todavia, desde o período colonial havia uma atividade científica desenvolvida por diferentes intelectuais europeus que de estabeleceram no Brasil e por intelectuais brasileiros que estudaram em universidades européias.

Alguns períodos chamam a atenção, como o da ocupação holandesa, quando Maurício de Nassau, no século XVII, trouxe para o território brasileiro um grupo de cientistas encarregados de realizar estudos sobre a natureza tropical brasileira. Foi grande, nesse período, a contribuição do médico de Amsterdã, Guilherme Piso (Willem Pies), e George Marcgrave, naturalista alemão, que fizeram, sobre a medicina colonial e a flora e a fauna do país, observações de interesse científico, reunidas posteriormente (em 1648) na sua famosa Historia naturalis Brasiliae.

Nassau também foi responsável pela fundação da imprensa, bibliotecas, museus e do primeiro observatório astronômico brasileiro, além de impulsionar a arquitetura sob a inspiração de Peter Post, que traçou os planos de uma grande cidade de sobrados e canais. O governante holandês do Brasil tropical estimulou ainda numerosas expedições científicas.

A ciência que se praticava no Brasil na primeira metade do século XIX era fortemente influenciada pelo espírito da ciência européia desde a segunda metade do século XVIII, principalmente depois que o Marques de Pombal reformou a Universidade de Coimbra, em 1772, o que possibilitou a implantação de novos cursos, como os de Botânica, Geologia, Mineralogia e Metalurgia, criados em 1791. Foi nessa instituição portuguesa de ensino superior que se formaram importantes nomes da ciência brasileira no período: o astrônomo e geógrafo Francisco José de Lacerda e Almeida; Azeredo Coutinho; o explorador, médico, naturalista, geógrafo e etnógrafo Alexandre Rodrigues Ferreira; e, o mineralogista José Bonifácio de Andrada e Silva.

 

 

 

 

 

 



[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordena o Grupo de Pesquisa em História da Educação da UFS.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h30
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O INSTITUTO DE AGRICULTURA

 

 

Jorge Carvalho do Nascimento[1]

 

 

O Imperial Instituto de Agricultura Sergipano foi criado em 1860, durante a visita do Imperador Pedro II. O decreto de criação do Instituto foi assinado na cidade de Estância, no dia 20 de janeiro: “Desejando assinalar a época de minha visita a esta Província de Sergipe, e manifestar a atenção que presto à agricultura, principal fonte de riqueza do Estado, hei por bem criar o Imperial Instituto de Agricultura Sergipano sob as mesmas bases do Imperial Instituto Baiano de Agricultura, criado por meu Decreto do 1º de novembro de 1859. João de Almeida Pereira Filho, do meu Conselho, Ministro e Secretário dos Negócios do Império, assim o tenha entendido, e faça executar. Palácio da Estância aos 20 de janeiro de 1860. Com a rubrica de S. M. o Imperador. João de Almeida Pereira Filho. Conforme. O Oficial de Gabinete de S. Ex. o Sr. Ministro do Império em viagem, Manuel Diniz Villas-Boas”.

Além do Instituto sergipano foram criados no mesmo ano os do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Era pretensão do governo criar idênticas instituições em todas as províncias. Os estatutos do Instituto de Sergipe eram iguais aos do Instituto Bahiano, com pequenas adaptações.

O êxito do Instituto Baiano lhe permitiu criar, em 1875, a Imperial Escola Agrícola da Bahia, única escola superior de agronomia do país até 1890. Sônia Regina Mendonça (O ruralismo brasileiro, 1997) informa          que, inaugurada, em 1877, “a Escola iniciaria seu curso em dois graus, o elementar e o superior, sendo o primeiro destinado a habilitar trabalhadores agrícolas e o segundo a formar agrônomos, engenheiros agrícolas e veterinários” (p. 28). A primeira turma foi diplomada, em 1880, com dez agrônomos.

Já o Imperial Instituto Fluminense contava com 100 sócios efetivos naquele mesmo ano e dispunha do auxílio do governo imperial. Naquela ocasião, deliberou tomar a si a administração do jardim botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas para nele fundar um estabelecimento rural, que pudesse servir de modelo e de escola prática de agricultura.

O Imperial Instituto Sergipano de Agricultura representou uma tentativa de modernização das práticas agrícolas na Província de Sergipe. A entidade nunca chegou a funcionar efetivamente, tendo os responsáveis pela instituição se envolvido em uma mal explicada história de prestação de contas dos recursos que o Imperador Pedro II destinou à sua implantação e funcionamento. Essas mazelas não permitiram que o Instituto cumprisse um dos mais importantes dentre os seus objetivos: o estabelecimento do ensino agrícola em Sergipe.

Todavia, alguns intelectuais do período defenderam outras possibilidades de ensino agrícola e industrial Um deles foi João José Bittencourt Calasans, que foi dirigente do Imperial Instituto Sergipano de Agricultura. No livro O agricultor sergipano da cana de açúcar, que publicou em 1869 (o primeiro livro sobre Agronomia produzido em Sergipe), defendeu a criação de um engenho modelo como fonte de instrução agrícola. Esse tipo de organização seria criado “por meio de associações, quando não fosse instituída, com preferência, pela bolsa abastada de um ou de outro, que podendo dispor de uma quarentena de contos de réis se acharia mui bem habilitado de assim concorrer, para animar, proteger e fazer desenvolver essa parte da principal fonte de riqueza – a agricultura açucareira” (p. 47).

Uma grande contribuição aos projetos de modernização da agricultura em Sergipe foi oferecida em 17 de janeiro do ano de 1882, quando o presidente Inglês de Souza convidou o engenheiro José de Siqueira Menezes para elaborar a planta e o orçamento de um conjunto de edifícios, a serem construídos em local apropriado, objetivando a criação de uma escola agrícola modelo. Segundo Maria Thetis Nunes (História da Educação em Sergipe, 1984), a sua proposta teve como justificativa a necessidade de “melhorar as práticas agrícolas, para maior produtividade das culturas básicas da economia sergipana” (p. 150). Para cumprir o seu objetivo, Inglês de Souza pretendia contar com a cooperação do Imperial Instituto Sergipano de Agricultura. A pretensão do presidente da Província era formar um contingente de trabalhadores agrícolas, familiarizados com os princípios das ciências práticas que concorressem para o melhoramento da cultura do solo e com o manejo dos instrumentos aperfeiçoados para os trabalhos do campo, adquirindo também a experiência e o conhecimento prático das artes acessórias. Efetivamente, o governo de Herculano Marcos Inglês de Souza estava preocupado com a ampliação do mercado de trabalho para os homens livres em Sergipe.



 

[1] Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordena o Grupo de Pesquisa em História da Educação da UFS.



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Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 01h24
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O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE (1923-1926) III

 

 

 

Contudo, a partir de 1924 a equipe do professor Archimedes Guimarães começou a formar profissionais em análises químicas. O curso tinha a duração de três anos com as disciplinas distribuídas do seguinte modo:

 

QUADRO I: DISCIPLINAS DO CURSO DE QUÍMICOS ANALISTAS OFERECIDO PELO INSTITUTO DE QUÍMICA INDUSTRIAL DE SERGIPE - 1923

PRIMEIRO ANO

SEGUNDO ANO

TERCEIRO ANO

Física Experimental

Química Inorgânica

Química Orgânica e Análise e Síntese Orgânicas

História Natural (Zoologia, Botânica, Geologia e Mineralogia)

Química Analítica Quantitativa

Bioquímica e Análises Bioquímicas

Química Geral e Inorgânica

Química Orgânica

Química Industrial Geral e Especializada

Análise Qualitativa

 

Noções de Físico Química, Eletroquímica e Química Coloidal

 

Análises Industriais (Terras, Adubos, Inseticidas, Águas, Silicatos e Carbonatos, Cimentos, Óleos, Produtos animais, Couros, Laticínios, Taninos, Colorantes etc)

Fonte: Exposição de motivos apresentada ao presidente do Estado, Maurício Graccho Cardoso, em 27 de junho de 1923, pelo diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe, Archimedes Pereira Guimarães.

 

 

Para admissão ao curso eram realizados exames preparatórios de Português, Francês, Geografia, Aritmética e Álgebra, Noções de Geometria e Desenho Geométrico Elementar, História do Brasil e Noções de História Universal. As aulas eram iniciadas no dia 15 de fevereiro e encerradas no dia 30 de outubro. O curso mantinha dois períodos de férias: o primeiro de quinze dias, no mês de junho e um outro de noventa dias, que se iniciava no dia 15 de novembro, posto que a primeira quinzena deste mês, após o encerramento das aulas em outubro era destinada a realização dos exames finais. As aulas teóricas do primeiro ano eram ministradas pelo próprio Archimedes Guimarães.

Depois de funcionar durante dois anos, o curso começou a apresentar problemas e em 1926 foi fechado por falta de alunos. Todavia a estrutura montada naquele momento foi fundamental para a instalação do curso superior em Química implantado no ano de 1948. A legitimação da idéia segundo a qual o ensino de Química em Sergipe somente teria sido iniciado em 1948 talvez se deva a interrupção do curso destinado a formar analistas, em 1926. Talvez este problema leve trabalhos memorialísticos como o do professor José Pedro de Andrade Castor, a afirmarem a identidade da geração de 1948 como a dos criadores de “uma elite de profissionais competentes, capaz de promover e estimular o desenvolvimento cultural e industrial do Estado e, conseqüentemente do país”[1]. Elite na qual esse mesmo memorialista se insere, apresentando-se então como membro da geração de fundadores, ou, na pior das hipóteses, por ela formado.

 



[1] Idem. P. 71.



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O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA recebeu mais de 150.000 acessos desde a sua primeira publicação na rede Internet, no dia oito de dezembro de 2005 e o mês de junho de 2009. Este blog tem a pretensão de ser um espaço democrático destinado a publicação de textos, informações, artigos científicos, divulgação de eventos e comentários a respeito dos campos da Educação e da História, com ênfase nos estudos sobre História da Educação, História da Cultura, História da Ciência e Política. O blog é coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (jorge@ufs.br), a partir do trabalho que realiza o Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe. O primeiro texto publicado, em 08 de dezembro de 2005, foi um artigo escrito por Jorge Carvalho do Nascimento, tendo como título "A Colônia do Quissamã". Durante esses 42 meses que está em atividade na rede Internet, o blog recebeu mais de 150.000 visitas, das quais 21.717 nos primeiros doze meses, 45.334 no segundo ano e 60.106 no terceiro ano. Assim, no primeiro ano de funcionamento o blog recebia uma média de 1.809 visitas mensais, número que se elevou para 3.777 visitas mensais no segundo ano, superando o dobro de visitas a cada dia, que eram 60 no primeiro ano e passou para 123 no segundo ano de atividades. No seu terceiro ano de funcionamento, o blog recebeu uma média de 5.008 visitantes a cada mês, praticamente triplicando a estatística dos primeiros 12 meses, enquanto o número médio de visitas por dia chega a 166. O blog EDUCAÇÃO É HISTÓRIA mantém link para 96 outros importantes endereços brasileiros e estrangeiros da rede web e nestes 42 meses de atividade publicou informações sobre 84 eventos nacionais e internacionais. Também foram publicados 1.040 textos sob a forma de artigo, 177 notícias e 49 resenhas bibliográficas. São 24 novos artigos a cada mês, além de 4 novas notícias, dois novos eventos e uma resenha bibliográfica inédita a cada 30 dias.  



Escrito por Jorge Carvalho do Nascimento às 02h00
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